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sexta-feira, 28 de agosto de 2026

O casamento que já é batizado



Epílogo - Mudança de Planos -

Cleise

O padre Waldir tinha batizado o Felipe dez minutos antes com três avós e nenhum avô na certidão. Ele olhou pra pia ainda molhada, pro Felipe fazendo bico no colo da Cléo, e disse:

— Já que vocês já estragaram todos os planos mesmo. Já que a menino já nasceu, já foi batizado, já fez xixi na avó. Vocês não querem casar logo de uma vez?

O meu padrasto, o Roberto, que me criou desde os 10, colocou a mão no ombro da Margarida.

— Deixa, Margarida. A festa é eles ficarem.

No altar, no lugar da mãe que morreu e do pai que não existe, estavam a Cléo segurando o Felipe e a Dona Lizete, a avó do Clayton que foi mãe dele no papel pra esconder o mau passo da filha perfeita. Senhor Paulo, não disse uma só palavra. Nem precisava, a presença dele já dizia tudo.

Duas senhoras que começaram iguais no Instituto de Educação, no curso Normal, junto com a minha mãe e com a Gisela, mãe da Carla. Naquela época toda mulher tinha que ser professora, mesmo sem vocação. Só a minha mãe seguiu. A Gisela virou dona de casa, a Paula virou dondoca gótica, a Cléo virou advogada. Quatro meninas iguais e quatro destinos diferentes. Igual a gente agora.

No segundo banco, a Carla chorava sozinha.

Sozinha. Sem o Mateus.

O Mateus, o engenheiro da Bahia que ela conheceu quando o pai militar foi transferido, com quem ela foi morar apaixonada, que os pais não aprovaram. O Mateus que veio a tiracolo pro Rio quando ela voltou pra apagar meu incêndio, porque eu estava depressiva. Eu via a minha depressão e ela não via quem era o Mateus. Ela, psicóloga formada, ficou noiva dele mesmo assim. Contraditória que só ela.

E agora ela estava sozinha na igreja. Sem aliança. Sem precisar explicar nada.

Eu vi. Ela viu que eu vi. Eu não comentei. Não perguntei onde estava o Mateus, nem por que ela tirou a aliança. Pela primeira vez eu não fiz a lista de supermercado do ressentimento da amiga.

Eu só estiquei a mão e apertei a mão dela por cima do banco.

Ela apertou de volta. Forte. Como se eu é que fosse a psicóloga naquele instante. Como se agradecesse por eu não ter perguntado.

O Clayton estava na minha frente, de calça jeans e com a aliança que eu tinha deixado na carteira. 

— Você quer casar comigo sem querer ou querendo? — eu perguntei.

— Querendo. Pela primeira vez querendo sem ser sem querer.

A gente beijou. O Felipe chorou alto.

Na saída, a Carla veio tirar a foto torta na escada, com o Felipe no colo da Cléo, com a Dona Lizete e o senhor Paulo, com a Margarida com o Roberto ao lado e com a Dra. Marta ao fundo.

Ela olhou pro meu celular, onde eu escrevia a legenda pro blog.

Ela olhou para o meu celular, acompanhando o bipe agudo que cada tecla fazia enquanto eu rascunhava a legenda do blog na tela azulada.

— Que Projeto Fraldas, Cleise? O nome do seu blog é Trollados.

Eu respondi por ela. Pela primeira vez sem raiva.

— Era Trollados, Carla. A gente trocou para Projeto Fraldas. O difícil não era trocar fralda. O difícil era trocar de plano. E a gente trocou.

A Carla sorriu. Um sorriso de quem também tinha trocado de plano naquela manhã, sozinha, sem precisar explicar para ninguém.

Ela deu as costas e caminhou até o degrau da igreja, onde os outros esperavam. Do meu bolso, tirei a Cyber-shot. A lente se estendeu com um zunido mecânico. Dei um passo à frente, passei o braço pelo pescoço da Carla e virei a câmera contra nós duas, esticando o braço ao máximo. Fiquei semicerrando os olhos, tentando adivinhar pelo reflexo do vidro da lente se o topo da cabeça do bebê não ia sair cortado.

— Olha para cá! — avisei, tateando o botão às cegas.

O bipe eletrônico disparou com o estalo do flash, congelando a Carla de jeans, esporte fino e nós três espremidos num enquadramento torto.

Horas depois, no computador de casa,  postei  a foto exatamente daquele jeito. Direto da máquina, sem nem tirar o olho vermelho do flash."

o silêncio depois do adeus


Capítulo — O silêncio depois do adeus
 
A igreja estava cheia de um frio que não vinha de fora. O corpo de Paula repousava ali, diante do altar, coberto parcialmente por um tecido escuro, as mãos cruzadas sobre o peito como se finalmente tivesse encontrado repouso após um caminho longo e sem descanso. 

A notícia chegara como um raio em céu limpo: infarto fulminante, sem aviso, sem tempo de palavras ou desculpas. A vida simplesmente se apagara nela, rápida e definitiva.
 
Nos bancos da frente, estavam os seus pais. A mãe, Lizete, com seus setenta e oito anos, parecia menor do que realmente era, curvada não só pela idade mas pelo peso da perda; os olhos estavam inchados, a cabeça baixa, segurando um lenço que já não podia secar mais lágrimas. 

Ao seu lado, o pai, Paulo, firme apenas na aparência, embora as mãos que apoiavam o chapéu tremessem sem controle. Ambos olhavam para o caixão como se esperassem que, a qualquer instante, Paula se levantasse e dissesse que tudo não passou de um susto. Mas ela permanecia imóvel.

Gisela viera da Bahia acompanhada pelo filho mais velho, Rodrigo, porque o marido Carlos não tinha saúde fazer a viagem até Minas Gerais. Carla se sentou no banco da igreja, ao lado da mãe e do irmão.

Fiquei ao lado de Clay todo o tempo, e contratamos uma baby- sitter para ficar com Felipe do lado de fora da igreja. Não era um momento para ter um bebê ali. Parecia até uma ironia do destino. 

Mesmo que Clay não demonstrasse sentir alguma dor naquele momento eu não faria isso com ele. No fundo sei que ele sentia amor pela mãe-irmã.
Mesmo que fosse  um amor escondido debaixo de camadas de ressentimento e mágoa.
 
Mais adiante, com um espaço que parecia enorme entre ela e os familiares, estava Cleo. 

Foram vinte e cinco anos de vida compartilhada — uma história que parecia feita para durar a eternidade — até que, de maneira rápida e impensada, tudo ruíra.

 Paula a trocou por um homem, numa união estável que pareceu um relâmpago: repentina, intensa e breve como um sonho ruim. 

Agora, ali, diante da morte, não havia mais orgulho ou raiva que valesse. Havia apenas o vazio de quem perdeu não só a pessoa amada, mas também a chance de reconquistá-la.
 
O silêncio foi quebrado apenas quando o padre deu início à missa de corpo presente. 

Sua voz ecoava suave entre as paredes da igreja, falando da passagem para a eternidade, da misericórdia divina e do descanso dos justos. Mas as palavras pareciam não chegar aos corações daqueles que mais sofriam. O clima era pesado, carregado de ressentimentos não ditos, perguntas sem respostas e uma dor que dobrava cada um para dentro de si mesmo.
 
Ao chegar o momento das homenagens, não foi o companheiro Gustavo, quem se levantou para falar. Foi ela, Cleo, a viúva de Paula, quem caminhou lentamente até o púlpito. Cada passo parecia custar-lhe um esforço imenso.

 Todos os olhos se voltaram para ela — uns com compaixão, outros com reservas, lembrando-se de como Paula havia partido sem olhar para trás. Cleo segurou a borda do púlpito com força, respirou fundo e começou a falar.
 
Sua voz tremia, mas firme na essência:
— Quem conheceu Paula, sabe que havia nela um brilho que não se encontra em mais ninguém... — disse, e a voz cortou. — É difícil aceitar que o mundo continuará girando sem a sua presença que fazia tudo parecer mais intenso. Falta muito, uma falta que não tem tamanho, não tem nome e não passa com o tempo. Ela era contraditória, mas era verdadeira... e agora, ao olhar para onde ela está, só consigo pensar em quanto ela fará falta. Em cada canto da nossa história, em cada dia que virá sem ela.
 
Embora as palavras fossem belas e carregadas de saudade, havia ali uma contradição dolorosa — todos sabiam que ela não estaria ali se não fosse pela morte. Paula tinha lhe virado as costas quando viva  e agora, Cléo falava da sua importância diante de um silêncio que não podia responder. Os pais ouviam calados, sem conseguir compartilhar daquela homenagem que chegava tarde demais. A igreja continuava solene, mas ao redor daquelas palavras pairava o peso de tudo o que não foi dito, tudo o que não foi consertado.
 
Ao terminar, Cleo desceu devagar, como se carregasse não só a sua dor, mas também a consciência de que o amor pode chegar ao púlpito, mas nunca consegue apagar os erros de quando ainda tínhamos tempo. O padre prosseguiu com as orações finais, enquanto a luz do dia começava a desvanecer-se nas janelas, e a figura de Paula permanecia ali — intacta, serena, acima de todos os erros e de todos os arrependimentos que a rodeavam.
 
 
 

A Pior performance de nossas vidas.

O cheiro de café requentado e flores de cemitério já impregnava as roupas de todo mundo na Capela 3.
 A missa de corpo presente aconteceria dali a uma hora, e o cansaço do velório de madrugada começava a pesar. Foi quando Cleo, com os olhos vermelhos e a maquiagem borrada, puxou da bolsa uma caixinha de som JBL portátil e um microfone sem fio com luzes de LED acopladas.
Os parentes mais distantes se entreolharam, escandalizados.
— Cleo, pelo amor de Deus, o que é isso? — sussurrou o viúvo, chocado.
— É o último show do Quarteto Ternurinha, Gustavo— Cleo respondeu, a voz embargada,  mas firme. Ela olhou para as outras duas integrantes vivas, Margarida e Gisela, que assentiram com a cabeça, soluçando.
 — A gente não vai deixar ela ir embora sem a nossa saideira.
Margarida conectou o celular na caixinha. O silêncio solene da capela foi quebrado pela clássica contagem eletrônica de introdução do aparelho: "Bluetooth mode. Connected."
Marta deu dois tapinhas no microfone, o eco reverberando nas paredes de azulejo claro. O som da bateria eletrônica e do teclado característicos das versões de karaokê de "Flor de Liz" começou a tocar.
As três se posicionaram ao lado do caixão, recriando a formação clássica do quarteto, deixando um espaço vazio no meio — o lugar que sempre fora da falecida.
Gisela começou, a voz trêmula, tentando acertar o tempo difícil da divisão do Djavan:
— Valei-me, Deus... É o fim do nosso amor... — Ela chorou no meio da frase, perdendo o fôlego.
Margarida assumiu o microfone com os olhos fixos na falecida:
— Perdoa, por favor, eu sei que o erro aconteceu... Mas não sei o que fez tudo mudar de vez. Onde foi que eu errei?
No refrão, as três se uniram, fazendo uma harmonia vocal ligeiramente desafinada pelo choro, mas cheia de uma energia dramática digna de uma final de festival de música.
 Elas cantavam olhando para o teto, gesticulando com as mãos livres, exatamente como faziam nas noites de sexta-feira no "Bar da Frente":
— E o meu jardim da vida ressecou, morreu! Do pé que brotou Maria, nem margarida nasceu!
Alguns parentes na plateia tentavam disfarçar o riso com os lenços de choro. 
Uma prima distante  gravava discretamente com o celular. Cleo, empolgada pelo ápice da música, estendeu o microfone em direção ao caixão no momento do "Beijo na boca...", esperando a resposta da ex-companheira que nunca veio. 
O vácuo do silêncio trouxe o drama de volta, e as três desabaram em um abraço coletivo em cima do caixão, chorando e rindo ao mesmo tempo, enquanto o instrumental de karaokê continuava tocando sozinho ao fundo, com os LEDs do microfone piscando em azul e rosa sobre as coroas de flores.

Ouça a última música de despedida  do Quarteto Ternurinha: 


 

A Filha Perfeita


Cleise

A Cléo não chorou quando atendeu. Advogada de conciliação não chora no telefone fixo.

Foi a avó do Clayton. Dona Lizete. 78 anos. Voz de quem fumou a vida inteira escondido do marido.

— Cléo? É a Lizete. A Paula infartou. Foi ontem, na rodoviária de Juiz de Fora. Voltando pra cá pra resolver as coisas do pai dela. Foi fulminante, Cléo. Não deu nem tempo de chegar no hospital.

A Cléo ficou em silêncio. Depois disse "tá" e "tô indo" e desligou. 

Ela olhou pra gente. Eu e o Clayton ainda de pijama, com o Felipe no berço.

— A Paula morreu — ela disse. Do mesmo jeito que tinha dito "o arroz tá feito". 

O Clayton não entendeu na hora. Ou entendeu e fez que não entendeu.

— Que Paula?

— Sua mãe, Clayton.

Ele riu. Uma risada seca, sem ar.

— Qual delas?

A Cléo não respondeu. Foi pro quarto pegar a meia. Ela ia ter que ir pra Minas enterrar a mulher que ficou 25 anos com ela e depois trocou ela por um homem em união estável relâmpago.

Eu segurei a mão do Clayton. Ele não segurou de volta.

Cléo

  

Cleise 

A verdada doía menos.

— Homem nenhum beija sem querer. Tropeça sem querer, beijar, não.


Minha mente voltou no tempo para  a fatídica noite em que fomos ao restaurante para aquele exercício idiota.

Quando voltamos para a casa naquela noite, a gente abriu a porta do apartamento e o apartamento não estava nos esperando. Ele estava sendo usado.

Tinha cheiro de alho, não de bolo. Tinha panela chiando baixo. E o Felipe não estava berrando no berço como eu deixei na minha cabeça quando saí. Ele estava dormindo. De boca aberta, babando em cima do peito da Cléo.

A Cléo estava no nosso sofá, de meia, lendo um livro da biblioteca. Como se morasse ali.

— Como foi a sessão? — ela disse sem levantar.

Clayton, ainda de terno do melhor restaurante, respondeu rápido demais.

— Foi ótimo, mãe.

Olhei pra ele com a mesma raiva da terapia. Ótimo porra nenhuma. A gente tinha acabado de dizer que não queria o nosso filho em voz alta pra uma estranha com um caderninho e agora tinha que performar casal reconectado pra única pessoa que realmente segura a gente por um fio.

Eu tirei o casaco. — Minha mãe tinha compromisso na igreja hoje, Cléo. Por isso não chamei ela.

Cléo fechou o livro. Ela tem 61 anos e vai fazer 62 mês que vem. Foi casada 25 anos com a Paula, a mãe biológica do Clayton. Até a Paula resolver que depois de 25 anos amando uma mulher, ela ia amar um homem num tempo relâmpago. União estável relâmpago. A Cléo nunca fez drama disso. Pelo menos não na nossa frente.

— Entendi — ela disse. — A Margarida ficou com o dia do marketing. Eu fiquei com o dia da faxina. Justo.

Clayton riu. Uma risada curta, de alívio. Foi a primeira coisa sincera que saiu dele desde o "olho de Pires" no consultório. Eu não ri. Senti aquele ciúme velho, de quando eu tinha 8 e ele 4 e eu achava que ele era meu irmãozinho pra mandar, e ele achava que eu era o mundo inteiro. Eu tenho ciúme quando ele ri com a Cléo e não comigo. É mesquinho. Eu sei.

O Felipe se mexeu. Deu aquele chorinho de quem vai acordar.

Eu congelei. O Clayton congelou. A gente ficou olhando pro bebê como se ele fosse uma prova que a gente ia reprovar de novo.

A Cléo também congelou. De propósito. Foi a primeira vez que vi ela não salvar na hora.

Ela olhou pra gente por cima dos óculos.
—Eu sei que vocês acham que eu sou a mãe reserva. Que eu tô aqui porque a Margarida não pode ou não quer vir porque tem ciúme de mim desde que a gente era adolescente e ela achava que eu ia roubar a filha dela, como se filha fosse objeto.

 Eu não sou reserva, Cleise. Eu fui casada 25 anos. Eu vi a Paula sair de casa com uma mala e voltar casada com um homem três meses depois. 

Eu sei o que é ver o fio arrebentar. Eu segurei o Clayton quando a mãe dele escolheu outro roteiro. Eu seguro vocês agora. Mas eu tenho 61 anos. Eu não vou ficar aqui pra sempre segurando as pontas por um fio. Uma hora esse fio arrebenta e vocês dois vão ter que se segurar. Ou não. Mas decidam antes do Felipe aprender a andar. Porque depois ele vai embora também.

Ela falou isso baixinho. Sem aumentar a voz. Depois pegou o Felipe no colo. Ele parou de chorar na hora.

Eu tive inveja dela ali. Uma inveja limpa. Ela consegue amar um filho que não é do sangue dela sem fazer lista de supermercado do ressentimento. Eu, que pari, estava fazendo lista do que o Clayton fez de errado no jantar.

Clayton foi tirar o terno. No quarto, ele procurou a aliança. Eu tinha visto ele tirar na terapia e deixar no braço da poltrona da Dr. Marta. Ele não tinha colocado de volta.

Eu tinha pegado. Sem nem perceber. Estava no fundo da minha bolsa, junto com o cartão do convênio e um paninho sujo.

Eu não devolvi na mão dele. Coloquei na carteira dele, que estava na cômoda do antigo quarto da Carla, que virou 
quarto-ateliê e era o único território onde ele ainda governava sozinho. 
Ele ia achar depois.

Meu olhar percorreu o quarto-ateliê. Longe do cheiro de talco e dos choros que agora comandavam a casa, o espaço cheirava a óleo de linhaça, aguarrás e ressentimento. 

Pelas paredes, as telas empilhadas pareciam erguer uma fortaleza contra o intruso do berço.

 Ali, trancado, Clay descarregava na tela a frustração de se sentir um figurante na própria vida, transformando o ciúme em traços violentos de tinta, enquanto se escondia na penumbra para não ter que dividir os olhos comigo e com o nosso filho recém-nascido.
  

Quando saí do quarto, a Cléo já estava indo embora. Tinha lavado a louça. O arroz estava feito. Na geladeira, um bilhete post-it amarelo, com a letra dela, redonda da normalista que virou advogada de conciliação:

Arroz feito. Felipe mamou 20h. Dei banho. 120ml. Não precisa me agradecer. Me chama quando precisar, não quando a Margarida não puder.

Clayton, sua aliança está na carteira. Cleise, seu olho de Pires está cansado. Dorme.

— C.

A gente leu junto. Pela primeira vez, a gente leu a mesma coisa e entendeu a mesma coisa. Sem precisar discutir o que o outro quis dizer. Ponto para a Cléo.

De madrugada, o Felipe dormia e o Clayton também. Eu peguei o celular. Fui mandar mensagem pra minha mãe pra contar que a Cléo tinha vindo. Pra provocar. Pra dizer "viu, ela veio e você não". Digitei e apaguei.

 — Cleise ?! Não vai me dizer nada?
Sorri.

— Acho que hoje a gente não precisou da terapeuta.

O bip do Nokia tocou duas vezes. Aquele ícone de envelope fechado.
1 mensagem recebida.
Reconheci o DDD na hora. 32. Minas. Não era minha mãe. Minha mãe é 21 e me recusa a salvar.

Esse número eu também me recusava a salvar. Era o fixo da casa da avó do Clayton. A mulher que assumiu o neto como filho temporão pra esconder o mau passo da filha perfeita.

Uma palavra só
Embaixo, menor ainda:
Visualizado.
Meu Deus, o que foi que eu escrevi de madrugada?😧

quarta-feira, 15 de julho de 2026

Olhos de Pires


Carla 

Como abordar o assunto sem acionar a criança ferida da Cleise?

Tantos anos de estudo pra isso. Teoria é lindo no slide. Na prática é uma merda.

Escolhi o jeito menos pior. Como diz o ditado: mingau quente se come pela beirada.

— Como foi no restaurante?

Cleise me olhou, enigmática. E me respondeu com uma palavra. Uma. Que merda.

— É.

O que significa "é"? "É" não é resposta, é atestado de óbito da conversa.

Na minha frente, a criança ferida da Cleise estava à beira das lágrimas. 

Tentei outra beirada do mingau, bem mais segura:

— Aproveitou pra falar do batizado? Quando é a próxima reunião lá na igreja?

Ela arregalou os olhos.

— Caramba. Esqueci disso!

— Relaxa, amiga. Não é o fim do mundo esquecer. Seu corpo tá cheio de hormônio, sua mente tá... zoada.

Quase diagnostiquei. Me segurei. Cleise é minha amiga, não minha paciente. Graças a Deus. Esse pepino não é meu, é da psicóloga dela.

Ela respirou fundo e voltou ao que realmente importava. Claro. Ninguém liga pra batizado quando o casamento tá pegando fogo.

— A consulta foi estranha.

Felipe fez um barulhinho e Cleise, solícita, pegou ele no colo. Sentou na cadeira de balanço. Ele começou a mamar e ela fechou os olhos. Não era cena idílica de comercial de fralda. Era pra não ter que me olhar. Se me olhasse, ia se trair. E ela tranca as coisas com dois cadeados: um na mente e outro no coração.

E batizado? Fé? Isso passa longe da cabeça dela agora. Ela só quer uma janela. Uma saída qualquer. E quando encontra, se joga.

Deixei desabafar.

— O Clayton tirou um momento nosso da cartola, tipo um coelho. Acredita que ele lembrava daquela história que minha mãe contava? Aquela do cachorro com olho de pires?

Esperou minha reação. Eu não fazia ideia do que ela tava falando.

— Conhece?

— Não. — sentei na beirada da cama, genuinamente curiosa. — Conta!

E lá veio ela. A Cleise de olhos brilhantes. A jornalista encantada com uma boa história. Ela não perde a chance de brilhar.

— Faz muito tempo que ouvi, não lembro completa. Mas o principal eu lembro. É a história do cão com olhos grandes como pires, do conto 'A Caixa de Fósforos', do Hans Christian Andersen. Um soldado encontra uma bruxa que pede pra buscar uma caixa de fósforos mágica no fundo de uma árvore oca. Lá dentro tem três cães extraordinários guardando baús de moedas. O primeiro com olhos do tamanho de pires. O segundo com olhos como rodas de moinho. O terceiro com olhos enormes como a Torre Redonda de Copenhague. Quando bate a caixa, os cães aparecem e realizam qualquer desejo.

— Tá, mas onde o Clayton entra com esse olho de pires?

Ela sorriu.

— Eu era criança. Sei lá o que eu pensava na época. Mas achei que os olhos dele eram iguais aos do primeiro cachorro.

Deu de ombros, colocou a fraldinha no ombro e pôs o Felipe pra arrotar. Ele deu uma golfadinha. Normal. Ela o colocou no berço. E lá ficou o Felipe, com exatos olhos de pires, agitando braços e pernas gordinhas.

— Mas continuo achando. Ele tem olhos de pires. Grandes, bonitos, amendoados. Como os do Felipe.

— Amiga. Vocês estão se esforçando na terapia. Ao menos é o que parece.

— A gente tá tentando. Não sei. Acho que a gente pode ficar junto. Ou não. Não sei, Carla. Uma hora ele é gentil. Outra parece um cavalo. Nem dá pra acreditar que é artista. Aí ele mostra aqueles quadros... e me beijou daquele jeito. Mas disse que foi sem querer. Fez questão de dizer.

— É... ainda tem muita coisa pra vocês resolverem, né?

— E ainda tem esse batizado. E o restaurante uma vez por semana. Queria poder desistir disso. Mas não quero desistir de nada. Pelo menos, não por enquanto. Tô tão confusa!

Ela disse isso e, em cinco segundos, o rosto dela foi da alegria súbita pra tristeza profunda. Complicado.
E eu que sugeri a terapia de casal, comecei a me perguntar se a terapeuta deles não deveria me incluir no pacote. Familiar, de preferência.
Olhei pra minha própria xícara de chá frio. 
Três sessões de terapia e eles estavam assim. Imagina quando chegasse na décima.
Fiquei ali, vendo minha melhor amiga ninar o filho com olhos de pires iguais aos do pai. 
Ela não precisava de uma festa de batizado. Precisava que alguém dissesse que ela não estava estragando tudo.
— Você não tá confusa, Cleise. Você tá com medo. Que é diferente.
Ela finalmente me olhou. E dessa vez, sem cadeado nenhum.
— Tá, — eu disse. — Me conta  o depois  desse beijo sem querer. Com detalhes. Porque se tem uma coisa que eu aprendi em tantos anos de estudo, é que homem nenhum beija sem querer. Tropeça sem querer, sim. Beija, não.


segunda-feira, 13 de julho de 2026

Protocolo


Restaurante
Ele bate na porta do quarto já de terno. Azul marinho, ombro alinhado, gravata que não usava desde o casamento do primo em 99. O cabelo castanho penteado pra trás, cheiro de gel e desespero.

Eu termino de passar o batom. Vermelho. Porque se é pra sangrar, que seja na boca.

O vestido largo cai sobre o corpo. Chique, dizia a etiqueta. Saída de maternidade, dizia o espelho. Preto, pra disfarçar a barriga que a cinta não disfarça. Manga morcego pra esconder o braço que amamenta de três em três horas.

Meu cabelo avermelhado briga com o zíper. Volumoso, ondas armadas de quem não dorme e não tem tempo de escova. Não é crespo, não é liso. É o meio termo que ninguém sabe nomear. Igual eu, agora.

Ele para na porta. Olha primeiro pro cabelo. Depois pro vestido. Depois pro chão.

— Ficou bonito, ele diz.

Bonito. Adjetivo de tia de batizado. Bonito é bolo de padaria. Bonito é centro de mesa.

Não diz gostosa. Não diz linda. Não diz que sente falta.

Ajeito uma onda do cabelo atrás da orelha. O brinco de argola pesa. Tudo pesa.

— Seu terno também, respondo.

Protocolo. A gente tá ótimo no protocolo.

Ele entra dois passos. Não chega perto. O quarto cheira a leite azedo e pomada pra rachadura no bico do peito. Chique demais pro terno dele.

— O táxi já deve estar chegando.

Assinto. Pego a bolsa. Grande, cabe uma fralda e um absorvente de seio. A bolsa de antigamente não cabe mais nada meu.

Passo por ele na porta. Ele segura meu braço, leve. Dedo no tecido largo do vestido. Não encosta na pele.

— Cleise.

Paro. Não viro. O cabelo vermelho cobre meu rosto. Melhor assim. Ele não vê que eu já tô chorando antes da entrada do Adegão.

— Vamos tentar, ele fala pro meu cabelo.

Respiro. A cinta deixa ir só até a metade.

— Vamos, respondo.

Ele solta meu braço. Desço na frente. O salto baixo faz barulho na escada do prédio de Vila Isabel. O cabelo balança. Volumoso, vermelho, vivo. A única parte de mim que ainda não pediu desculpa por existir.

Entramos no táxi.

Reconheço o caminho. Nunca estive lá. Chique demais para meu bolso.

O Adegão Português era ali, em São Cristóvão. Um pulo de táxi saindo do nosso apartamento em Vila Isabel. Caro, mas ele insiste.

— Voltaremos de táxi também.  
Não era uma pergunta. Ele explica:  
— Tem vinhos maravilhosos aqui. Hoje merecemos.

Quis dizer que não podia beber. Balancei a cabeça, concordando.

Ele me olha. Responde o que não perguntei.  
— Foi seu pai. Ele viu o neto quando chegou da Galeria. Margarida dava mamadeira pro Felipe. Quis ajudar, Cleise! Depois eu prometo que acerto com ele. Esquece isso.

A saliva sobe ao invés de descer. Engulo o ar.

— Certo.

Melhor calar.

O maître se aproxima, de terno, no melhor estilo formal alinhado. Confere a reserva na recepção e nos leva até a mesa.

Lugar classudo, dois salões enormes. Cadeiras de madeira escura. Quadros com paisagem de Portugal na parede. Família grande na mesa do lado, criança chorando. 2002 e o Adegão continua o mesmo: barulho e toalha branca.

Ainda observava um quadro quando o garçom se aproxima. Seguro. Com certeza, veterano.

Clayton se adianta. Nervoso. Eu sei.

— Vamos querer uma travessa de Bacalhau à Lagareiro.

— Você gosta de bacalhau.

— É. Não como bacalhau há muito tempo. Nem lembro da última vez. Mas nunca comi um prato desses.

— Quando estive aqui, em 2000, adorei o lagareiro — ele fala rápido, tropeçando nas palavras. — A posta vem assada, muito azeite, alho, cebola. Dá pra dois. Vem com Batata ao Murro.  
— O que é isso?  
— São batatas esmurradas e assadas. E ainda tem arroz de brócolis.

Como ele sabia de tudo isso?

De repente vejo que não conheço Clayton. Ele mudou muito nos oito anos que ficamos separados. No ano 2000, quando ele e Carla vieram morar no meu apartamento, Clayton pouco falava de si. Quando ele começou a se abrir e me permitiu entrar, eu engravidei de Felipe. Aí veio o ciúme. Ele piorou na gravidez. E agora...

O garçom se aproxima com a carta de vinhos. De couro. Tudo muito chique.

— O que sugere? — Clayton entrega a carta. Ele não tinha a menor ideia do que pedir. Vinhos que ele nem sabia que existiam. E que eu só ouvi falar.

— Vinho verde branco Português. Casal Garcia. Creio que será do agrado de vocês.  
— Certo.  
— Quero um suco. De laranja.

O garçom sorri.  
— Claro, senhora.

Anota no caderno. Se afasta.

Olho pro relógio de pulso. Minha mãe deve estar colocando o Felipe pra dormir agora. Ninguém pra ligar e perguntar se tá tudo bem. 2002 não tem disso.

— Como foi com sua mãe?  
— Tudo bem.  
— Pena que Cléo não pode ficar. Surgiu um cliente extra. Cléo estava aposentada. Mas já quebrou tanto galho que acho que ela já considerou um retorno da aposentadoria.  
— A cara da Cléo. Ela sempre foi muito responsável.  
— Você gosta dela, né?  
— Muito. A mãe que minha mãe não quis ser.  
— Eu sei, Cleise. Nossas histórias não são muito diferentes. Eu tenho uma mãe que não me quis. Você teve uma mãe que não soube querer.

Admirei a súbita maturidade daquela frase. Ponto pra terapeuta.

Ele estica a mão para encontrar a minha sobre a mesa. Retiro para colocar o guardanapo no colo. Ele não insiste mais.

A comida chega. E as bebidas.

Era muito vinho pra Clayton. Agora entendi ele querer voltar de táxi. Ele sabia que eu não podia beber e respeitou isso sem eu lembrar. Esse Clayton eu ainda não conheço. Posso me apaixonar por ele! Devo?

A raiva pelo distanciamento de um ano sobe, o suco não quer descer.

Não posso. Não devo. Quero. Não devo!

— Não podemos demorar muito.

— Temos que fazer isso, Cleise. Não consegue fazer um movimento por nós?

— E agora a culpa é minha? Você que se afasta de mim, de nosso filho que mal nasceu. Dois anos separados, Clay. Dois meses de Felipe. Não me olha, não me toca. Sei que não tô gostosa. Tô uma merda. Mas é o que eu tenho pra dar.

O garçom chega antes que ele responda. Entrega para Clayton a carta, capa de couro. Conta no interior. Leva o cartão e some. Aqueles dois minutos de silêncio enquanto a maquininha não volta são uma eternidade.

Clayton paga, levanta. Vai até a cadeira em que estou sentada, me dá a mão para eu levantar. Sorrio. Protocolo.

Entramos no carro e voltamos num silêncio atroz. A cinta aperta. O silêncio aperta mais.

A psicóloga que lute pra resolver.

domingo, 12 de julho de 2026

"Parceira , Não mulher"


A terceira sessão começou como sempre. Respirei aliviada quando a recepcionista mandou a gente entrar. Eu não gostava de aguardar na recepção. Aqueles olhares dos outros casais, cheios de culpa. Aquele sentimento de inadequação. 

Talvez fosse só imaginação minha. Eles nem me olhavam, consumidos pela vergonha de ter que assumir que precisavam de terapia de casal. Talvez fosse Transferência. Pesquisei pro blog. Me descobri ali, vendo culpa nos outros porque era a minha que transbordava.

Descobri mais. O meu medo, que grita. O medo do Clayton, que cala. Tenho pena dele. Pena da gente. Raiva também.

Tomada de raiva, eu entro no consultório. Não aceito o gesto de Clayton para que eu entrasse primeiro. Não é disso que eu sinto falta, Clayton!

— Olá, como foi a semana? — a voz da Dr. Marta era de paisagem. Neutra.
— Bem.
Olhei pra ele com raiva. Muita raiva.
— É mesmo? — eu disse entre dentes.

Na semana passada, a Dr. Marta mandou a gente ter um encontro. Só nós dois. Sem falar de filho, de contas, de culpa. O tal do “exercício de reconexão”. Fiz uma lista do que aconteceu como se fizesse a lista do supermercado.

— Primeiro: ele me beijou. Depois disse que foi sem querer. Então a gente fez todo um arranjo pra poder ir no bendito restaurante fazer a merda do exercício. Me humilhei pedindo pra minha mãe ficar com o Felipe. Ela fez bolo, chamou as vizinhas, contou pra igreja que a gente ia “reacender a chama”. Só faltou soltar fogos. Na porta, ela disse que me amava quando eu saí do apartamento onde morei um dia. Eu não respondi. Não queria dizer “eu também”. Não era verdade.

— Reconexão porra nenhuma! — disse olhando pra Dr. Marta. Um olhar cheio de raiva. Ela sustentou meu olhar.
— Só discutimos. Voltamos brigados. Ou melhor, em silêncio. Uma sombra sobre nós.

Dr. Marta, impassível. Nenhuma contração no rosto. Levantar de sobrancelha. Nada. Que vontade de arrancar aquele caderninho da mão dela. Onde ela anota o que eu não sei.

— E você, Clayton. Como se sente ouvindo sua parceira dizer isso?

A psicóloga disse parceira. Não mulher. Como se fôssemos sócios de uma empresa falida. O que isso significa?

Clayton mexeu na aliança. Depois tirou e colocou no braço da poltrona. 

— Eu tentei. Pedi dinheiro emprestado pro meu sogro. Sei que ele não vai cobrar, mas terei que vender várias telas pra pagar o empréstimo. Escolhi o melhor restaurante. O melhor terno. O melhor pedido. O vinho verde que me deixou tonto e com gosto de derrota. Ela não me quer. Quer o filho. Não a mim.

— Tem razão, Clayton — cuspi o nome dele. — Não quero você. Não quero me sentir assim. Não quero esse filho.

O silêncio caiu como um tijolo. 

Percebi tarde demais o que disse. Não era verdade. Ou era? A Carla tinha me avisado sobre isso quando sugeriu a terapia. Falou de depressão pós-parto. De mulher que não quer olhar pro filho. Que até se torna violenta. Eu não estou com depressão. Não mesmo. Eu saberia se estivesse. Não é?

— Não é justo eu dizer isso. Não é verdade. Eu amo sim... — engasguei. — ...o meu filho.

Clayton me olhou. Não estava assustado. Nem com raiva. Ele tinha compaixão no olhar.

— Cleise! Por que você nunca me disse nada disso? A gente era amigo desde que eu tinha quatro anos e você disse que eu tinha olho de Pires. Daquela história que sua mãe contava pra nós quando a gente era pequeno e eu ia à sua casa. Você lembra?

— Eu tinha só 8 anos, Clayton. Nem lembrava disso! Como você se lembra?! Era tão pequeno.

— Eu me lembro de você. Sempre. E lembro de nós. Onde a gente se perdeu?

— Sua vez, Clayton — a Dr. Marta interrompeu, sem tirar os olhos do caderno. — Mas antes, alguém quer água?

Fiquei orgulhosa do que ouvi. Olhei pra Clayton e dei um sorriso tímido. Ele sorriu de volta. Ponto para a terapeuta.

Percebi um risco de caneta a mais no caderninho da Dr. Marta ao deixarmos o consultório naquela tarde. Só isso. Mas pra mim, foi quase um sorriso.

Protocolo



Protocolo 


Clayton 

O táxi cortava a noite carioca de volta para a Zona Norte, e o silêncio lá dentro era atroz. Do meu lado, Cleise olhava fixamente para a janela, com o queixo rígido e os braços cruzados sobre o peito. Ela estava furiosa. Dava para sentir a vibração daquela raiva no espaço milimétrico que nos separava no banco de trás.
Eu não conseguia olhar para ela. Em vez disso, olhei para as minhas próprias mãos repousadas sobre os joelhos. Mãos que  ganharam a vida desenhando detalhes milimétricos em unhas artísticas, mas que já tinham carregado muito peso na terra. E que hoje pintam em telas aquilo que não consigo dizer em palavras.
O balanço do carro me empurrou para trás, para o hiato de oito anos que passei longe do Rio. Oito anos em Minas Gerais, pisando no barro, trabalhando como técnico em agropecuária na empresa pesqueira do meu tio. Eu achei que aquele isolamento me daria um futuro, mas só me deu fantasmas. Fechei os olhos e a lembrança incômoda do meu primo mais velho me atingiu como um tapa. O jeito como ele me olhava, as investidas disfarçadas de piada, a respiração perto demais no galpão. Foi ali que descobri o homossexualismo dele — um segredo sufocante que nossos tios nem sonhavam, mas que se transformou em um mal-estar tão insuportável que me expulsou de Minas. Aguentei o quanto pude, arrastando os dias até o casamento do outro primo. Assim que o altar foi desmontado, eu arrumei as malas e fugi de volta para o Rio.
Na volta, tentei me limpar do passado. Ia com a minha avó ajudar nas obras da Igreja, carregando canecas marmorizadas sob o sol escaldante, buscando uma redenção que eu nem sabia se merecia. Foi nessa época que descobri meu talento com o pincel. Comecei a trabalhar com unhas artísticas. No início, as pessoas olhavam torto, um homem fazendo aquilo, mas o talento falou mais alto e logo a agenda estava lotada. Ganhei clientes, ganhei meu próprio dinheiro, mas perdi a paz em casa.
Viver sob o mesmo teto que Cléo, a mãe do meu coração, e Paula, a minha mãe biológica, era um inferno diário. Eu não suportava a Paula. A presença dela me sufocava. E foi no meio daquele desespero para sair dali que a Cleise apareceu.
Mal tínhamos começado a namorar e ela engravidou.
Uma onda de raiva quente subiu pelo meu pescoço enquanto o táxi passava por São Cristóvão. Eu estava com raiva. De mim, da situação, do destino. E agora, como se um filho não bastasse para amarrar nossas vidas, ela me inventa essa palhaçada de terapia de casal. Para tentar "salvar" o que nem tínhamos construído direito.
Olhei de relance para a fachada iluminada do Adegão Português sumindo na distância. Eu tinha feito tudo certo, ou pelo menos o que achei que era certo. Engoli meu orgulho e pedi dinheiro emprestado para o pai dela só para podermos jantar naquele lugar chique. Queria impressionar. Queria ser o homem que eles esperavam que eu fosse. Pedi o Bacalhau à Lagareiro, o vinho caro no balde de gelo... e para quê?
Cleise passou o jantar inteiro com o pensamento em outro lugar. Ela só pensa no filho. Cada palavra, cada gesto, cada plano dela gira em torno daquela barriga. Ela não me quer ali como homem; ela quer um pai funcional, uma engrenagem na vidinha perfeita que desenhou na cabeça.
O táxi freou brusco no sinal. O motorista nem imaginava o drama no banco de trás. Olhei mais uma vez para Cleise, a mulher com quem eu dividi uma cama e um futuro forçado.O gosto amargo do vinho verde ainda estava na minha boca. Eu sabia perfeitamente o que ela queria. Mas eu? Eu olhava para o asfalto escuro da Zona Norte e só conseguia sentir o peso do vazio.
Eu não sabia o que queria. E isso era o que mais me apavorava.



sexta-feira, 10 de julho de 2026

Margarida

"Margarida"

Quase não acredito quando o porteiro avisa pelo interfone:  
— Dona Margarida, a Cleise e o bebê estão aqui na portaria. Eu bem que disse que, sendo menina de casa, ela podia subir direto, mas ela pediu pra eu interfonar avisando.  

Suspirei. Deixei passar a intromissão. Ainda tenho que dar um jeito na geladeira que não gela direito, e o seu Zé vive com um amigo conserta-tudo pra indicar.

Vi a Cleise pelo olho mágico, empurrando o carrinho. Ela ainda não perdeu o peso da gravidez. Mancha de leite seca na alça da bolsa.

— Lembrou que tem mãe?  
— Oi, mãe. Pode antes me dar um copo d’água? Lá fora tá um calor de matar.  

Entreguei o copo. Ela bebeu em três goles, com sede de quem amamenta.  
— Antes de quê?  
— De me alfinetar como sempre! Estava até com saudades disso.  
— O que você faz aqui a essa hora? Além, é claro, de bancar a adolescente malcriada que você era enquanto morava aqui?  

Cleise fez um gesto com as mãos, como quem espanta fumaça.  
— Tudo bem, mãe, desculpa. É que você...  

Esperei ela terminar. Ela engoliu o que ia dizer e olhou pro menino, adormecido no carrinho.  
— Preciso que fique com ele pra mim.  
— E a sua mãe de plantão, a Cléo? Eu bem devia imaginar que aquela lá ia me apunhalar pelas costas. Ela nunca gostou da minha amizade com a Paula.  
— Isso não é verdade! A Cléo não apunhalou ninguém, mãe! Foi a Paula, a sua amiga do peito, a Paula, quem traiu a Cléo.  
— Tá muito saidinha, Cleise, pra quem vem me pedir ajuda.  
— Mãe... Eu vim te pedir ajuda! Ajuda! Porque você não entende isso? Você é minha mãe!  

Olhei pra ela e passou um filme diante dos meus olhos.  
Cleise pequena, correndo pra mim em lágrimas depois do último encontro com o pai. Ela tinha 10 anos. Nunca mais quis vê-lo. Foi quando passou a chamar o Roberto de pai.  
Cleise gritando feliz, jornal na mão, o nome "Cleisemir dos Santos" em primeiro lugar no vestibular para jornalismo na UERJ.  
Tantos momentos... Mas lembrei de Cleise saindo com a Paula da maternidade. Se fosse só isso... Mas a Cléo também estava lá, cheia de salamaleques com a minha filha. Minha filha. Não a filha dela.  
Minha filha... Filha.

— Filha. Ainda sou sua mãe e é claro que posso ajudar. Você pretende ficar fora quanto tempo?  
— Não sei... A reserva do jantar é às 22h. Uma hora ou duas, no máximo.  

Olhei curiosa. Ela respondeu o que não perguntei:  
— É pra terapia de casal. Foi um exercício que a psicóloga passou. A gente precisa sair só nós dois, sem o bebê, pra tentar se acertar... pra se reconectar.  

— Entendi. Filha, quer conversar sobre isso?  
— Mãe, é que eu... o Clayton... a gente...  

Pigarreou. Ajeitou a manta do Felipe no carrinho.  
— Preciso ir. Tem anos que não pinto as unhas. Já viraram cascos desbotados.  
— Pede pra pôr aquele esmalte "Vamp". O vermelho-escuro profundo combina com o tom do seu cabelo.  
— Nem me fala do cabelo... Nunca caiu tanto!  
— Normal, filha. Quando eu tive você, meu cabelo ficou fino e bem frágil por meses. Tive até que mudar a alimentação. Vai passar.  
— Eu sei... Tudo passa, né? Você sempre dizia que se o que é bom passa...  
— ...o mal também há de passar!  

Sorri.  

— Tchau, mãe! Realmente preciso ir.  
— Fique tranquila, o Felipe ficará bem, filha.  
— Filha?  
Ela já estava com a mão na maçaneta e virou de volta.  
— Oi, mãe! — disse antes de fechar a porta.  
— Eu te amo. Não se esqueça disso.


domingo, 28 de junho de 2026

Eu, o pai.



Clayton

Entrei no quarto . Ainda não estou dormindo aqui, com a Cleise. Um passo de cada vez. O beijo já foi. A cama vem depois , no seu tempo.

  Felipe finalmente dormiu e Cleise foi escrever, pra relaxar. Coisa de jornalista . Eu não tenho essa vibe não , prefiro pintar .

Seis horas de cólicas . Eu e Cleise revezamos na massagem indiana que Cleise disse que se chamava " Shantala". Essa massagem tem uns movimentos rítmicos, com deslizamentos e alongamentos.

Tive até que rir quando ele acertou um jato de xixi na Cleise no meio da massagem que ela fazia.

Mas quando Felipe fez o número dois sem fralda, no meio da tal massagem, eu me arrependi de ter zoado o xixi.Era menos pior.

— Como tá indo o blog Trollados?

— Bem. Ficou com esse tom mais confessional , sem o ar mais jornalístico de antes . Mas eu gostei e pelos comentários e número de visualizações , acredito que é esse o caminho.

— Ah! Entendi.

Ela arqueou uma sobrancelha.

— É que escrevi um texto. Minha contribuição para o blog. Veja o que acha .

"Pai de repente".

Cleise deu um meio sorriso mas voltou a ler.

"Quem me conhece sabe da minha história. De técnico em agropecuária. É que assumiu uma nova profissão quando passei a morar com as minhas mães .

 Minha mãe do coração, Cléo, me incentivou a fazer unhas artísticas quando viu as canecas com pintura artística que fiz para arrecadar dinheiro para as obras da igreja que minha avó Lizete frequenta.

Quando o YouTube passou a ter vídeos do tipo tutorial, lá pelo ano de 2007, já dava pra aprender muita coisa com vídeos de pessoas gravando com suas webcam. Eram vídeos bem amadores, mas davam conta do recado.

Aprendi várias técnicas e rápido eu passei a ter várias clientes. Mulheres em sua maioria, muitas amigas da minha mãe Cleo, que não tinham preconceito em serem terem um homem fazendo as unhas delas.

Tive muitos clientes. Alguns vieram por intermédio da minha mãe, pois conhecia muita gente no escritório de advocacia.

 Algumas mulheres estavam se divorciando e para se sentir dando a volta por cima , investiam na própria beleza.
 Melhor pra mim.

No meio do caminho reencontrei uma amiga de infância e com um pouquinho de ajuda do destino, a amizade virou morar junto. Ainda não casamos, mas tá na lista.

Só que no meio do caminho tinha um filho. Tinha um filho no meio do caminho.

O trocadilho foi inevitável. A Cleise vive recitando esse poema . Não tenho certeza, mas 
Acho que é do Carlos Drumond de Andrade. Vai saber.

Eu não sabia nada de bebês. Cleise ainda leu, naquele monte de revistas de bebê . Até em sites, afinal também tem vídeo para ensinar a cuidar de bebê!  🍼 🤱🏻

Confesso que foi difícil no começo. Eu estava com ciúme . Cara, e como senti ciúme.

O nome é esse mesmo, as terapias de casal deve tá surtindo efeito, afinal, porque já consigo dar nome pra essa raiva que eu sentia sempre que olhava pra Cleise e ela estava com o bebê no colo e não olhava pra mim.

Cara, e a raiva era tanta que passei dois meses para conseguir falar de novo com ela, e também para aceitar a cuidar do bebê.

No início eu aproveitava momentos que a Cleise finalmente dormia exausta , e tirava fotos do nosso filho, que me ajudava para ter a imagem dele como modelo para as minhas telas, sem que Cleise soubesse o que eu fazia.

Mas isso são águas passadas.

Quero deixar registrado para os leitores desse blog que quem,  como eu,  tiver descobrindo as alegrias e dificuldades de ser pai, que a tal massagem indiana Shantala é um santo remédio para as cólicas.

E se prepare para as cólicas .
Não tem horário certo nem fim de semana. É todo dia. Às vezes, o dia inteiro. Ou quase. Pelo menos, é o que o ouvido e a impaciência acham.

Por enquanto é isso. Porque todos dia é diferente, um novo aprendizado. Para Felipe. Para Cleise . Para mim.

Quero que meu filho sabe que se eu fui um cuzão quando ele nasceu, hoje eu não sei ser Clayton sem que ele esteja no berço , ou no meu colo, graças ao sling.

Viu como estou por dentro desse universo.

Me desejem sorte nessa viagem de ser pai ."


Percebi que os olhos dela estavam marejados . Será que fiz algo errado ?

— Está ótimo , Clay. 

— Espero que o blog faça tanto sucesso quanto antes. 

— Que Deus te ouça . 

— Fecho a porta?

— Não precisa.

Deixei a  porta aberta e voltei para o ateliê com a alma leve.

sábado, 27 de junho de 2026

Depois de tudo


Capítulo "Depois de tudo"  
Cleise

Pensei que já tinha acontecido coisa o bastante pra várias sessões de terapia. Era coisa que não acabava mais. Já me via com meses de sessão pela frente... 

Me enganei redondamente.

Como numa novela mexicana, Paula veio até aqui em casa atrás da Cléo pra continuar a DR. Me senti a própria Maria do Bairro. Rir pra não chorar.

Mas a Thalia ao menos já criou os dois filhos dela e, mesmo com 54 anos, ainda está lindíssima. Aposto que não tem essa barriga flácida que eu exibo pro meu desespero.

As famigeradas estrias, então! As linhas brancas tomaram não só a bunda como a barriga flácida e surgiram logo após o parto. Não adiantou usar cinta nem fazer dieta pra voltar ao peso.

Ainda tentei os óleos de rosa mosqueta, de uva, de amêndoas. Tudo com promessa de zero estria. Funcionou... só que não!

Só as indústrias cosméticas devem ter se dado bem e enriquecido graças a moi.

Dessa vez o ring não era na antiga casa delas. Talvez assim, num campo neutro, a briga fosse menor.

Ok. A minha casa, transformada em ring pra duas se degladiarem, nem era um ambiente tão neutro assim. Mas nem tanto quanto seria na casa da Cléo no condomínio do Recreio, onde moraram juntas por 25 anos.

Fui pro quarto e deixei a cozinha pras duas se acertarem. Desde que não colocassem fogo na cozinha, tudo bem.

Olhei pra Felipe. Ele sorriu pra mim.

Sei que neonatologista diria que é reflexo. Que com sessenta dias é cedo demais pra sorrir de verdade. Mas mãe é mãe. Não me contive e sorri de volta. E Clay entrou no quarto nesse minuto.

Tinha que ser justo agora?  
Depois de tudo o que ele disse. Do que eu disse. Depois do "te beijei sem querer, Cleise"?

— Oi!  
— Oi.

Um diálogo inteiro num "Oi". Mas se isso não serve nem pra post do blog, quem dirá pra nós dois.

Quebrei a tensão. Ainda com o grito de PENTACAMPEÃO preso na garganta:

— Brasil finalmente foi pentacampeão!  
— Só levou 7 anos e 353 dias. Mas quem é que está contando?

Eu ri. Ele riu também. Fazia tempo que a gente não ria junto. Doeu e aliviou no mesmo segundo.

— Precisamos marcar o batizado.  
— É. — Ele olhou pro Felipe, não pra mim. — Depois que as duas ali se acertarem. Ou não. Não sei. Que não seja preciso outra briga. Mas elas são avós, precisam estar no batizado.

— É, Cleise. Eu sei. — A voz dele baixou. — Não queria a Paula lá, mas não tenho como dizer não.

— Não é justo.

Ele sorriu. De canto. Essa era minha frase preferida. Ele sabia. Eu sabia que ele sabia.

— É justo! — confirmou. E doeu igual.

Silêncio. Felipe fez um barulhinho entre nós dois.

— Precisa chamar também o Roberto e a Dona Margarida, sua mãe.  
— É. — Ele passou a mão no rosto. — Também vou precisar de um ring. Seria muito pedir também por um campo neutro? Nem eu me humilhando a minha mãe baixou a guarda. Nem o Felipe conseguiu abrandar o coração dela. Bendito ciúme.

— É.

Putz, Cleise, mal começaram a conversar e você se sai com essa?

— Não foi indireta, Clay.  
— Eu sei. — Ele me olhou de verdade, pela primeira vez. — Você não costuma ser cruel.

Mereci essa. Mas não desisti de conversar. A terapia é terça. Hoje ainda é domingo. Ainda somos nós dois e um bebê de sessenta dias.

— Temos que marcar também o nosso encontro no restaurante. Vou falar com a Cléo e ver quando ela pode ficar com Felipe. Não quero ter que pedir pra minha mãe.  
— E pedir pra Paula, nem em sonho, é uma opção.

Não sabia como chamar Lizete e Paulo, avós do Clay. Preferi a verdade, era mais fácil manter.

— Seus... avós, talvez?  
— Estão idosos, e minha avó ainda tem os trabalhos da igreja. — Ele respirou fundo. — Talvez mais fácil pedir pra Cléo.

— Talvez. Segunda seria uma boa. Podemos ir num restaurante, né. Mas tem que ser antes da terapia na terça.  
— Deixa que eu falo com minha mãe Cleo .

Voz branda, conciliadora. Aquela que ele usava quando a gente ainda se entendia sem manual.

Pegou Felipe no colo. O menino pareceu se encaixar no colo do pai como se fosse hábito. E era. Eu só não sabia disso.

— Pode tomar banho se quiser. Fico com ele.

Ele colocou o sling. Coisa de pai que já aprendeu sozinho, enquanto eu sangrava e aprendia a ser mãe.

Ele saiu do quarto deixando a porta aberta. Seria um sinal dos astros? Ou só mais uma porta que nenhum de nós dois tem coragem de fechar?

Da cozinha, a voz da Paula. Do berço, o cheiro de leite. Da porta, as costas do Clay.

— Vamos passar um café pra mamãe, filhão?

foi sem querer



Carla 
 junho de 2002. Domingo de final de Copa do Mundo.

A sala cheirava a pipoca queimada e ansiedade. Na TV, Galvão Bueno já estava rouco de tanto gritar. Brasil 2 x 0 Alemanha, 42 do segundo tempo. 

Na beira do campo, Luiz Felipe Scolari andava de um lado pro outro igual leão enjaulado, mastigando o mesmo chiclete desde o primeiro tempo. Na beira do sofá, Clayton fazia igual. 27 anos, camiseta amarela suada colada no corpo, joelho batendo sem parar. Adultescente em estado puro.

O apito final veio como uma explosão.  
“É PENTA! É PENTA!” 

Clayton pulou do sofá, derrubou o copo de guaraná, socou o ar e berrou tão alto que o Akira levantou as orelhas quando o cachorro da vizinha latiu de volta.  

Foi nesse segundo de euforia cega que Cleise, de cabelo molhado,  entrou na sala e sentou do lado dele, rindo do escândalo.

Ele virou pra ela, olhos brilhando, coração na boca, e sem pensar — sem pensar MESMO — segurou o rosto dela e beijou. 

Um beijo rápido, atrapalhado, com gosto de guaraná e desespero de campeão do mundo.

O silêncio que veio depois foi mais alto que o gol do Ronaldo.

Cleise congelou. Os olhos arregalados, a mão no peito, o batom borrado. Por dentro: um carnaval. Por fora: estátua. 

Clayton recuou como se tivesse levado um choque. Passou a mão na boca, gaguejou:
“Foi mal. Foi... foi sem querer.”

Sem querer.

Duas palavras que desmontaram Cleise mais que o beijo. O “sem querer” dela vinha com um sorriso escondido que ela tentou segurar mordendo o lábio. O “sem querer” dele vinha com pânico.

O que passou na cabeça do Clayton naquela hora:

Pai. A palavra ecoou igual bomba. Cleise mãe . De um filho meu. Um filho! A gente não planejou.Foi por acaso.Igual eu.

Porque  também fui um “acidente”. Nasci no meio do caos: Paula, minha mãe biológica, tinha 16 anos quando o pai dela flagrou ela aos beijos com Cléo. Foi expulsa de casa na mesma noite, de roupa do corpo. Foi morar com Cléo. As duas, duas meninas assustadas, me criaram  juntas.

Por 25 anos foram família. Até que Paula, já na menopausa, surtou e traiu Cléo. A casa virou campo minado.

Pior:  Só descobri a verdade aos 15. Achava que Paula era minha irmã mais velha. Meus avós tinham registrado como filho deles pra “abafar” o escândalo do relacionamento das duas. Quando o “flagra” veio à tona, tudo desabou,  saí de casa com uma mochila e um pôster do Romário.

Desde então, virei isso: como o adultescente, tal como a psicóloga me chamou. Um adultescente de 27 anos. 

Corpo de homem, emocional de moleque. 
Toda vez que a vida me encosta na parede,  ajo assim. Faço piada. Fico agressivo. Nego.

 Porque se eu admitir que senti, que quis, que amei... aí viro gente grande. E gente grande vira pai. E pai apanha da vida.

Por isso o “foi sem querer”. 

Era  armadura . 

Negar primeiro, sentir depois. Se é que ia sentir.

Cleise levantou devagar, ajeitou o cabelo, e sem olhar pra mim, soltou:
“Pentacampeão, hein...” 

E saiu da sala com o coração batendo no ritmo de escola de samba e a maior vontade de voltar e dizer: “mente que eu gosto”.

Fiquei ali, sozinho, com a TV repetindo o gol, o guaraná escorrendo pelo chão e a certeza de que, pela primeira vez em 27 anos, tinha feito algo 100% querendo... e morrendo de medo do que isso significava.

capítulo 23- Rumo ao penta

Carla 
— Repete pra mim: como foi mesmo que você me convenceu a vir pra essa furada ?

Ri, mas não dei o braço a torcer.

— Adianta ir à psicóloga e não fazer o que ela pediu ?
Cinco minutos sozinha , Cleise. Sem filho , só um tempo para ser a mulher Cleise.
Pense pelo lado positivo: o jogo já está  no segundo tempo e... 

Ronaldo Fenômeno fez outro gol!!! Estou ouvindo daqui ! Olha os fogos, que lindo! 

Vamos descer para ver o replay do gol e comemorar com os outros !
— Quero é que acabe isso logo para eu ir buscar o Felipe na minha mãe- falou, com azedume.
— Você nem comentou sobre como foi esse encontro com sua mãe, após tanto tempo...Ela nem mesmo conhecia  o neto !
— Pra você ver como são as coisas: até a cobra da Paula já pegou o meu filho no colo , e a minha mãe demorou 2 meses...
Dois meses inteiros, Carla ! Só porque eu me humilhei e fui até minha antiga casa e praticamente implorei para minha mãe tomar conta dele.
— Ele está com a avó, Cleise. Relaxa ! 
Vamos descer! Esquece um pouco tudo isso e faz um esforço para se divertir! 

Até o cabeça dura do Clayton veio para ver o jogo da Seleção e deixou aquela catacumba que chama de ateliê.

— Que exagero, Carla, não é pra tanto ! . Impossível não sorrir.
— Agora sim , você parece com a chata da Cleise de sempre !
— Ei! Não sou chata , sou organizada, só isso!
— Até parece ! Amiga, você é como toda libriana: quando os pratos da balança estão desequilibrados, sai de baixo!
— Tá bem, tá bem. Vem , Akira, vamos descer .

Nem precisava chamar. Assim que Cleise se levantou da cadeira, Akira colocou as orelhas em pé e em seguida, leventou e a seguiu.

Desci na frente para me garantir que o terreno estivesse amistoso.

Qualquer palavra mais ríspida ou olhar inquisidor poderia colocar tudo a perder.

Diante da TV estava Clay , roendo as unhas de nervoso ..Tal como o Técnico , Luis Felipe Scolari , que estava bastante agitado na lateral do campo, agitando os braços , ansioso, mas mesmo assim , orientando os jogadores . Apito Final .

No fundo da sala, sem ligar para os fogos pipocando e a zoeira que irrompeu no condomínio , evaporando o ar quase monástico que imperava ali , com toda aquela vegetação ao redor .

As antigas amantes , Cléo é Paula ,  na maior  DR . O que há muito estava mesmo precisando acontecer ! 

Nem me aproximei do fundo da sala onde as duas tentaram se esconder , para não interromper a conversa.

Cleise desceu atrás de mim, com Akira logo atrás,como um guarda- costas.
Ela se sentou no sofá ao lado de Clay. 

Vidrado , ele, sem perceber o que fazia , a abraçou para comemorar o pentacampeonato conquistado  e deu um beijo rápido em Cleise.

"Que belo gol, amiga ! ".


capítulo 24- Tudo sobre nós dois.

Cleise 

### *Capítulo: Tudo sobre nós* 

O consultório cheirava a café frio e jasmim. Eu cheirava a leite e noite mal dormida.

— O que os trouxe aqui hoje? — a psicóloga perguntou, caneta na mão.

— Não sei, na verdade — respondi, ajeitando a alça do sutiã de amamentação por baixo da blusa. — Pelo menos no que diz respeito a mim. Vim por sugestão da Carla. Ela é psicóloga também.

A psicóloga assentiu e virou pra ele.  
— Certo. E você, senhor... Clayton?

Ele nem levantou o olho do celular.  
— Só Clay.

— Muito bem, Clay. — A caneta dela riscou o papel. — O que te trouxe aqui hoje?

— Não sei.

Soltei sem filtro, igual quando o Felipe acorda pela terceira vez na madrugada:  
— Você não sabe de muita coisa ultimamente, né, Clayton?

A psicóloga não reagiu. Só anotou. Eu passei a mão no pescoço e senti cheiro de talco de bebê no meu pulso. Hábito novo.

Clay ergueu a cara, ferido.  
— O que quer dizer com isso, Cleise?

A verdade saiu antes do freio:  
— Olha, ele fala! A última vez que falou comigo foi na consulta com a obstetra. O médico disse que a gente podia "voltar a brincar". Mal sabe ele que eu não sei o que é isso há meses. Entre mamada, troca de fralda e choro às três da manhã, "brincar" sumiu do meu dicionário.

Percebi tarde demais o estrago. Mas bebê não espera, e eu também não.

Clay fechou a cara. A voz saiu baixa, infantil:  
— Nem me passou pela cabeça que você ainda gostasse de sexo. Você virou mãe. 24 horas por dia. E eu não quero outra mãe em casa. Já tenho duas: uma de verdade e outra, um acidente biológico que me colocou no mundo.

Meu peito queimou. Não de raiva. De cansaço.  
A psicóloga interveio, neutra demais:  
— Quer falar mais sobre isso, Clay?

— Sobre o quê? — ele sibilou. — A falta de sexo? Ou como a Cleise me trocou pelo Felipe?

— Reparou que estou aqui? — cortei, dura. — Fala de mim olhando na minha cara.

— Acalmem-se, por favor — pediu a psicóloga. — Clayton, repita olhando pra sua mulher.

— Não somos casados — corrigi, automática.

Esperei ironia. Ele me deu um olhar tão triste que me desarmou. Pela primeira vez desde que o Felipe nasceu, eu vi o menino de 27 anos.

— Desculpa, Clay. Sei que isso é complicado pra você.

Ele respirou fundo, igual faz quando o Felipe chora e ele não sabe o que fazer.  
— Minha mãe foi traída pela minha mãe biológica. Ela trocou a Cléo por um cara chamado Gustavo. Não quero padrasto na minha casa.

— Sei como é ter padrasto, Clay — falei mais baixo.

— Ah! O seu Roberto cuida de você desde os 10 anos. Ele até me ajudou quando comecei a pintar quadros pro shopping.

— Verdade. O Roberto é muito mais que padrasto. Ele é meu pai.

Clay engoliu seco. Os dedos apertaram o celular.  
— E a Cléo é a minha mãe. A Paula só me teve por um erro. Eu sou um erro dela.

A psicóloga fechou a pasta. Hora acabou.  
— Nossa sessão está encerrando. Foi um primeiro encontro produtivo, com muitos assuntos pra trabalhar. Cleise, quer dizer mais algo?

Eu não saberia por onde começar. Então só balancei a cabeça. Negativa.

— E você, Clay?

— Estou bem — mentiu.

O Clay da briga evaporou. Sobrou o mutismo dos últimos meses. O mesmo mutismo dele quando o Felipe acorda e ele finge que dorme.

Na saída ele segurou a porta do elevador. Cavalheiro até na dor.  
— Obrigada — falei, achando que era começo de conversa.

Ele entrou no carro, manobrou e saímos do estacionamento. O celular dele apitou no Bluetooth. Era a babá eletrônica.  
Imagem do Felipe dormindo, boca aberta, babando no travesseiro.  
Mensagem da minha sogra: "Igualzinho ao pai quando dorme 😍"

Sorri sem querer.  
Clay viu pelo canto do olho. Apertou o volante até os nós dos dedos ficarem brancos.  
— Ele nem tem dente ainda — murmurou.

Virei pra ele, exausta e terna:  
— E você tá com ciúme de um desdentado, Clayton?

Ele não respondeu. Mas pela primeira vez na sessão, não fingiu que tava bem. Só dirigiu. E eu fiquei ali, dividida entre mãe e mulher, sem saber pra qual dos dois dar colo primeiro.

Sabe-se lá por quanto tempo isso vai durar. Até a gente se acertar. Ou não.

---





Reflexos



CLAYTON - ATELIÊ

A madeira cheira a terebintina e fralda suja. Transferi o ateliê pra cá achando que era só temporário. Mentira. Eu trouxe a fuga pra dentro da casa dela. Da mãe que eu escolhi.

A DR delas atravessa a porta como cupim. 
"Você nunca soube dividir, né? Nem filho, nem homem." A voz da mãe. Da minha mãe de verdade. 
"Ele só tá magoado, igual você quando eu..." A voz da outra. Da que me criou.

Akira rosna baixo cada vez que a biológica fala. Irmão de alma. Se eu pudesse rosnar, rosnava também.

A porta abre com o pé. Cleise. Cabelo preso de qualquer jeito, olheira de quem não dorme há um ano, Felipe berrando no colo.

"Resolve com teu irmão de ciúme aí." Ela joga nosso filho no meu colo como quem devolve um boleto. "Tua vez. A Carla disse cinco minutos. Eu vou ter cinco minutos pra ser só a mãe do Felipe. Não a sua. Escolhe."

A porta bate. 

Ficamos nós três: eu, um bebê que não planejei, e um cachorro que me entende melhor que minha própria mãe.
• * * 

Voltei da Bahia há três meses. Rodrigo disse que eu era idiota de largar os pacientes pra "salvar amigo". Ele não entendeu. Eu vi esses dois se apaixonarem no meu sofá, dividindo miojo e conta de luz. Eu segurei a mão da Cleise quando o teste deu positivo e o Clayton travou. Eu não ia assistir de longe eles se destruírem.

A primeira sessão de verdade foi ontem. Na casa deles. Antiético? Talvez. Necessário? Com certeza.

"Ele compete com o Felipe," Cleise disse, com o próprio Felipe mamando no peito. "Eu virei mãe de dois. Um chora de fome. O outro se tranca no ateliê quando não é o centro das atenções."

Clayton olhou pro chão. "Eu não sei ser isso. Pai. Marido. Adulto."
"Você sabe amar, Clayton," eu falei. "Você só não sabe demonstrar sem fazer birra. É igual quando o Henrique terminou comigo. Eu voltei pro Rio e me enfiei no quarto de vocês por um ano inteiro. Lembra? Vocês me deixaram quebrar até eu lembrar como se monta."

Ele assentiu. Primeira vez que não fugiu no meio.

No final, falei pra Cleise: "Começa com cinco minutos. Cinco minutos por dia em que você é só mãe do Felipe. Não dele. Não da casa. Não da culpa. Só mãe. Ele que segure o tranco. Ou aprende, ou perde."

Não imaginei que ela ia usar os cinco minutos como granada. Mas olhando pra DR daquelas duas ali no fundo, e pro Akira rosnando na porta do ateliê, acho que granada era o que essa família precisava.

Tomo um gole do café que a mãe afetiva do Clayton fez pra mim. "Vai dar merda antes de dar certo," digo pra ela, que só concorda com a cabeça. Ela sabe. Psicóloga ou não, tem coisa que só mãe entende.
• * * 
CLEISE - BANHEIRO

Cinco minutos. A psicóloga disse cinco minutos. E a Carla também disse. É isso. Um começo. Talvez.

Abro o chuveiro e não entro. Só deixo a água cair pra abafar o som da DR e do choro. Se ele não der conta, eu vou embora mesmo. Não com o Felipe. Comigo.

Casei com Clayton achando que adulto de 24 anos era adulto. Descobri que casei com o primeiro filho da casa. O segundo a gente fez sem querer.

Escuto o silêncio. O Felipe parou de chorar. 

Ou ele fugiu pela janela do ateliê, ou a Carla tava certa e ele só precisava de um tranco.

Cinco minutos. Rezo pra serem suficientes.
• * * 
AS MÃES - SALA

"Ele me odeia!" A biológica. Minha ex. Mãe do meu filho de coração. 

"Não odeia. Tá com ciúme. Igual você ficou quando eu trouxe o Gustavo pra jantar pela primeira vez, lembra?" Eu, a afetiva. A que ficou. "A diferença é que você tinha 40 anos. Ele tem 24 e um bebê que chora mais que você."

Ela me olha com aquele olhar de cachorro abandonado. Irônico, já que o cachorro que ela deu pra fazer as pazes agora rosna pra ela.

A psicóloga amiga deles me encara da poltrona. "Trauma de abandono gera competição, não afeto," ela diz, baixo. "Ele acha que se não for o bebê da casa, perde o lugar."

Engulo seco. Merda. A culpa é minha também, então.

Um barulho na porta do ateliê. As duas calamos a boca ao mesmo tempo. 25 anos juntas ensina isso.
• * * 
AKIRA

Cheiros: Terebintina. Leite azedo. Medo. Homem-filho. Bebê-filho. Mulher-terapia.

Mulher-barulho está na porta. Entrega Bebê-filho e fala "Carla disse". Rosno. Não pra ela. Pro outro barulho, da Mulher-que-deu-biscoito-mas-não-faz-carinho.

Homem-filho segura Bebê-filho desajeitado. Bebê-filho para de fazer barulho de angústia. Encosta no peito. Coração de Homem-filho bate rápido, igual quando tem trovão.

Lambe mão de Bebê-filho. Gosto de novo. De futuro. 

Homem-filho olha pra mim. Entendo. 

"É, Akira. A gente é dois idiotas, né?"

Levanta. Abre porta. Eu vou na frente. Mulher-terapia está na sala. Cheiro de café e de pessoa que conserta gente. Ela não rosna. Ela espera.

Se Mulher-que-deu-biscoito tentar morder, eu mordo primeiro. Mas ela não vai. Cachorro entende cachorro. E gente quebrada também.
• * * 
CLAYTON - SALA

Saio do ateliê com Felipe no colo. Akira na frente, guarda-costas de quatro patas.

Elas param a DR no meio. Carla tá na poltrona, sem anotar nada. Só olhando. Testemunha.

Pela primeira vez em um ano, não tenho pra onde fugir. O ateliê ficou pequeno demais pra três: eu, ele, e o homem que eu não sabia se conseguia ser.

Felipe agarra minha camisa. Por  reflexo  Baba no meu pescoço. Não planejei ele. Não planejei nada disso. Mas a Carla disse que eu sei amar. Só não sei mostrar.

"Desculpa, cara," sussurro pro meu filho, baixinho pra só ele ouvir. "Acho que eu tô sendo um cuzão."

Cleo sorri de canto. A biológica começa a chorar. Carla só assente, mínimo. Tipo "viu? Você consegue".

Cleise aparece na porta do banheiro, de toalha, cabelo pingando. Me encara. Eu encaro de volta. Não fujo.

Ela olha pra Carla. Carla olha pra mim. Eu olho pro Felipe.

"Cinco minutos acabaram," Cleise fala. "E agora?"

Não respondo com palavra. Só ajeito o Felipe no colo e sento no sofá. No meio das duas mães. No meio da merda toda. 

Pela primeira vez, fico.

Akira deita no meio da sala, entre eu e a Carla. Entre o passado e a terapia. 

Rosna uma vez, baixinho, só pra garantir. Depois suspira e fecha os olhos.

A DR acabou. A sessão, não.

sexta-feira, 26 de junho de 2026

segunda seção .


### *Capítulo: Sessão dois*  

Cleise 

Sete dias depois. Mesma sala, mesmo cheiro de jasmim. Eu diferente: olheira nova, blusa com mancha de vômito de bebê disfarçada com cardigã.

O Felipe não veio. Deixei com a Cleo. Foi a segunda vez que saí de casa sem ele no colo em 60 dias. Minhas mãos coçaram o caminho inteiro. 

A psicóloga sorriu, profissional.  
— Boa tarde, casal. Como foi a semana?

Silêncio. Clay olhou pro relógio.  
— Produtiva — disse ele por fim.

— Produtiva como? — ela insistiu.

— Dormimos. Eu no ateliê, ela na cama com o bebê.

Ela anotou. Devagar. De propósito.  
— Clay, na sessão passada você disse algo que eu queria voltar. Você falou "não quero outra mãe em casa". E depois: "eu não sei mais onde eu entro nisso".

Ele encolheu o ombro. Defesa de adolescente pego no flagra.  
— Falei muita coisa. Tava nervoso.

— Mas era verdade, não era? — a psicóloga não piscou. — Onde você entra nisso, Clay? Onde o Clayton, marido, pai, homem, entra nessa nova casa que vocês montaram?

Clay abriu a boca. Fechou. Olhou pra mim como se eu tivesse a resposta.

Eu não tinha. Só tinha peito empedrado e sono atrasado.

— Ele entra se trancando no ateliê. Sequer entra no nosso quarto para ver nosso filho...ou me ver.

Virei pra ele. Falei baixo:  
— O problema aqui é que você entrou. Só que entrou competindo com ele. E o Felipe tem 60 dias, Clay. Ele não sabe jogar esse jogo ainda.

Clay mordeu a bochecha. O músculo da mandíbula pulou.  
— Você não entende — resmungou. — A casa cheira a leite. As fotos são dele. As conversas são dele. Até quando faço café, você tá com ele no canguru.

A psicóloga inclinou a cabeça.  
— Então você sente falta de ser visto, Clay. Não de sexo. De presença.

Ele não negou. Também não confirmou. Adultescente clássico: morre, mas não admite.

A psicóloga virou pra mim.  
— E você, Cleise? Onde a mulher entra nessa nova mãe?

Quase ri. Quase chorei.  
— Ela não entra. Ela espreme um espacinho entre uma mamada e outra. Às vezes esquece como era antes. Às vezes tem medo de nunca mais voltar a ser.

Fiz pausa. Olhei pro Clay.  
— Mas eu queria que ele entrasse comigo. Não na disputa. No time.

O ar pesou. Clay pegou o celular. Destravou. Bloqueou. Destravou de novo.  
Por fim, mostrou a tela pra mim. Sem falar nada.

Era o álbum do celular dele. 347 fotos. Todas do Felipe.  
Na última, tirada às 4:12 da manhã, ele mesmo segurava o bebê no colo. Sei quando ele tirou essa foto pelo horário da foto : foi no período quando,  por um milagre , Felipe dormiu três horas seguidas antes da próxima mamada das 6 da manhã e eu aproveitei para cochilar . Como Cléo diz :
— Durma quando ele dormir ! Queria saber que santo fez esse milagre providencial...
Agora já sei o nome do santo! 

Olhei com ternura para a foto...e então ,  vi.

O olho do Clayton estava fechado de sono. Boca aberta igual a do filho. Legenda que ele nunca postou: "Não sei fazer direito. Mas tô aqui".

Meu nariz ardeu.

A psicóloga fechou a pasta de novo.  
— Tarefa pra casa: Clay, você vai tirar uma foto por dia que não seja do Felipe. Uma foto sua. Fazendo qualquer coisa que te lembre que você existe além de pai.  
Cleise, sua tarefa é escolher 5 minutos por dia que não sejam da mãe. 5 minutos só da mulher. Nem que seja pra passar batom e olhar no espelho.

— E nós dois? — perguntei.

— Vocês dois vão jantar juntos uma vez essa semana. Sem celular. Sem falar do bebê nos primeiros 15 minutos.

Clay bufou.  
— Impossível.

— Adultescente acha tudo impossível até tentar — ela sorriu.

Saímos em silêncio. No elevador, Clay quebrou primeiro:  
— Eu não sei tirar foto de mim. Fico esquisito.

Soltei, automática:  
— Fica não, Clayton. Fica parecido com o pai do Felipe.

Ele me olhou. De verdade. Pela primeira vez em semanas, não era o menino birrento. Era o homem assustado tentando aprender a ser os dois.

A porta abriu. E pela primeira vez, eu pensei: talvez dê pra gente se acertar.



terça-feira, 9 de junho de 2026

capítulo 21 - abelha- rainha


Sogra vs. Nora: O que as abelhas de verdade têm a nos ensinar sobre esse "climão" familiar?

"Quem nunca ouviu uma piada de sogra? Ou aquele comentário torto de que "duas mulheres na mesma cozinha não dá certo"? O senso comum adora aplicar o famoso "Mito da Abelha Rainha" nas nossas relações familiares. É aquela velha história: a mulher mais velha (a sogra) quer dominar o território, enquanto a mais jovem (a nora) chega para "roubar" o trono e o coração do filho."
Dei um meio sorriso quando ela arregalou os olhos e exclamou ;
— Carla!
— Só continue a ler, Cleise! 
— ok...- disse , e fingiu ajeitar a manta em torno do Felipe,  antes de dizer:
— Vamos ver onde isso vai dar !
Ela se sentou na cadeira de balanço e começou o movimento de vai e vem enquanto lia :
" Mas e se a gente te contar que essa história de rivalidade feminina é uma baita farsa? E pior: que a biologia real das abelhas prova que a dinâmica de uma família deveria ser exatamente o oposto disso?
Para desconstruir esse mito e entender onde a gente errou na metáfora, vamos olhar para o que realmente acontece dentro de uma colmeia. As contradições são de cair o queixo! "
Ela parou o movimento da cadeira e , com os pés bem apoiados no chão , aproximou os olhos do texto :
— Contradição 1: Quem manda no pedaço? (Spoiler: Ninguém manda sozinha!)
A gente cresce achando que a "mãe da casa" é uma abelha rainha autoritária, que dita todas as regras e não aceita os costumes que a nora traz de fora."
Ela suspirou ao ler o trecho, e a reação dela não me passou despercebida.
"Era exatamente o que queria provocar! Ponto pra mim".

" A realidade da colmeia: Na natureza, a rainha não é uma ditadora. Quem toma as decisões mais importantes do grupo — como a hora de mudar ou de abrir espaço para uma nova geração — são as abelhas operárias, de forma coletiva.
Na vida real, quando rola aquela faísca entre sogra e nora, o problema quase nunca é o "santo que não bateu". O buraco é mais embaixo. A sociedade joga nas costas das mulheres toda a responsabilidade pelo cuidado e bem-estar da casa. Quando o espaço parece pequeno para duas mulheres brilharem, a estrutura força uma competição que nem deveria existir em primeiro lugar.
Contradição 2: O desapego e o direito de voar
O maior clichê de todos: a sogra que não desapega do filho e vê a nora como uma "ameaça" que veio para desestruturar a família.
A realidade da colmeia: Sabe o que a abelha rainha antiga faz quando a colmeia fica cheia e uma nova rainha está para nascer? Ela não sabota a jovem. Pelo contrário! A rainha antiga junta metade do grupo e voa para fundar uma nova colônia, deixando a casa original prontinha e estruturada para a nova líder que está chegando.
Na biologia, maturidade significa entender que o crescimento da família não é uma perda de território, mas sim uma expansão do reino. Há amor, espaço e respeito para que as duas colônias existam e prosperem.
Contradição 3: A receita da "Geleia Real"
Existe um mito de que sogras guardam os segredos da família a sete chaves para manter o controle, e que noras não aceitam conselhos por puro orgulho.
A realidade da colmeia: Para uma nova rainha nascer, o grupo inteiro se une para alimentá-la com o melhor banquete possível: a geleia real. Elas gastam tempo e energia para fazer a nova integrante crescer forte. Elas não veem o sucesso da nova líder como uma ameaça, mas como a única garantia de que a família vai continuar viva e saudável no futuro.
Acolher a nora e dar a ela a nossa "geleia real" (afeto, espaço, validação) é o que garante que a história da família continue sendo escrita com harmonia e leveza.
Menos rivalidade, mais colmeia
O "Mito da Abelha Rainha" na vida familiar só serve para isolar as mulheres e criar barreiras onde deveria existir apoio. Quando sogras e noras se enxergam como rivais, todo mundo perde. Mas quando entendem que fazem parte da mesma colmeia — onde o papel de uma não anula o brilho da outra —, a estrutura inteira fica muito mais forte.
Não precisamos disputar o topo da mesa. A natureza nos ensina que há espaço para todas as rainhas voarem juntas.

Vamos conversar?
Agora eu quero saber de você que está lendo:
  • Você já sentiu, na pele ou vendo de fora, essa pressão invisível para que sogra e nora disputem o "trono" da família?
  • Como você acha que a gente pode quebrar esse ciclo e transformar essa relação em uma parceria de "geleia real"?
Deixe sua história e sua opinião aqui nos comentários! Vamos conversar!

— Quando pedi um texto sobre Dia das mães , eu esperava que viesse algo cheio de babados e jargões próprios desse dia. O que foi isso aqui ?
Não dei o braço a torcer .
— o que achou ? Está bom para o blogTrollados?
— Bem ..De fato , tem tudo a ver com a proposta do Blog...
Mas fala aí , isso foi uma indireta?
— Eu não dou indiretas , Cleise , me conhece há tanto tempo e ainda tem dúvidas ? Claro que foi uma direta , amiga!
Acho que passou da hora de você se posicionar nessa família.