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segunda-feira, 13 de julho de 2026

Restaurante


Restaurante
Ele bate na porta do quarto já de terno. Azul marinho, ombro alinhado, gravata que não usava desde o casamento do primo em 99. O cabelo castanho penteado pra trás, cheiro de gel e desespero.

Eu termino de passar o batom. Vermelho. Porque se é pra sangrar, que seja na boca.

O vestido largo cai sobre o corpo. Chique, dizia a etiqueta. Saída de maternidade, dizia o espelho. Preto, pra disfarçar a barriga que a cinta não disfarça. Manga morcego pra esconder o braço que amamenta de três em três horas.

Meu cabelo avermelhado briga com o zíper. Volumoso, ondas armadas de quem não dorme e não tem tempo de escova. Não é crespo, não é liso. É o meio termo que ninguém sabe nomear. Igual eu, agora.

Ele para na porta. Olha primeiro pro cabelo. Depois pro vestido. Depois pro chão.

— Ficou bonito, ele diz.

Bonito. Adjetivo de tia de batizado. Bonito é bolo de padaria. Bonito é centro de mesa.

Não diz gostosa. Não diz linda. Não diz que sente falta.

Ajeito uma onda do cabelo atrás da orelha. O brinco de argola pesa. Tudo pesa.

— Seu terno também, respondo.

Protocolo. A gente tá ótimo no protocolo.

Ele entra dois passos. Não chega perto. O quarto cheira a leite azedo e pomada pra rachadura no bico do peito. Chique demais pro terno dele.

— O táxi já deve estar chegando.

Assinto. Pego a bolsa. Grande, cabe uma fralda e um absorvente de seio. A bolsa de antigamente não cabe mais nada meu.

Passo por ele na porta. Ele segura meu braço, leve. Dedo no tecido largo do vestido. Não encosta na pele.

— Cleise.

Paro. Não viro. O cabelo vermelho cobre meu rosto. Melhor assim. Ele não vê que eu já tô chorando antes da entrada do Adegão.

— Vamos tentar, ele fala pro meu cabelo.

Respiro. A cinta deixa ir só até a metade.

— Vamos, respondo.

Ele solta meu braço. Desço na frente. O salto baixo faz barulho na escada do prédio de Vila Isabel. O cabelo balança. Volumoso, vermelho, vivo. A única parte de mim que ainda não pediu desculpa por existir.

Entramos no táxi.

Reconheço o caminho. Nunca estive lá. Chique demais para meu bolso.

O Adegão Português era ali, em São Cristóvão. Um pulo de táxi saindo do nosso apartamento em Vila Isabel. Caro, mas ele insiste.

— Voltaremos de táxi também.  
Não era uma pergunta. Ele explica:  
— Tem vinhos maravilhosos aqui. Hoje merecemos.

Quis dizer que não podia beber. Balancei a cabeça, concordando.

Ele me olha. Responde o que não perguntei.  
— Foi seu pai. Ele viu o neto quando chegou da Galeria. Margarida dava mamadeira pro Felipe. Quis ajudar, Cleise! Depois eu prometo que acerto com ele. Esquece isso.

A saliva sobe ao invés de descer. Engulo o ar.

— Certo.

Melhor calar.

O maître se aproxima, de terno, no melhor estilo formal alinhado. Confere a reserva na recepção e nos leva até a mesa.

Lugar classudo, dois salões enormes. Cadeiras de madeira escura. Quadros com paisagem de Portugal na parede. Família grande na mesa do lado, criança chorando. 2002 e o Adegão continua o mesmo: barulho e toalha branca.

Ainda observava um quadro quando o garçom se aproxima. Seguro. Com certeza, veterano.

Clayton se adianta. Nervoso. Eu sei.

— Vamos querer uma travessa de Bacalhau à Lagareiro.

— Você gosta de bacalhau.

— É. Não como bacalhau há muito tempo. Nem lembro da última vez. Mas nunca comi um prato desses.

— Quando estive aqui, em 2000, adorei o lagareiro — ele fala rápido, tropeçando nas palavras. — A posta vem assada, muito azeite, alho, cebola. Dá pra dois. Vem com Batata ao Murro.  
— O que é isso?  
— São batatas esmurradas e assadas. E ainda tem arroz de brócolis.

Como ele sabia de tudo isso?

De repente vejo que não conheço Clayton. Ele mudou muito nos oito anos que ficamos separados. No ano 2000, quando ele e Carla vieram morar no meu apartamento, Clayton pouco falava de si. Quando ele começou a se abrir e me permitiu entrar, eu engravidei de Felipe. Aí veio o ciúme. Ele piorou na gravidez. E agora...

O garçom se aproxima com a carta de vinhos. De couro. Tudo muito chique.

— O que sugere? — Clayton entrega a carta. Ele não tinha a menor ideia do que pedir. Vinhos que ele nem sabia que existiam. E que eu só ouvi falar.

— Vinho verde branco Português. Casal Garcia. Creio que será do agrado de vocês.  
— Certo.  
— Quero um suco. De laranja.

O garçom sorri.  
— Claro, senhora.

Anota no caderno. Se afasta.

Olho pro relógio de pulso. Minha mãe deve estar colocando o Felipe pra dormir agora. Ninguém pra ligar e perguntar se tá tudo bem. 2002 não tem disso.

— Como foi com sua mãe?  
— Tudo bem.  
— Pena que Cléo não pode ficar. Surgiu um cliente extra. Cléo estava aposentada. Mas já quebrou tanto galho que acho que ela já considerou um retorno da aposentadoria.  
— A cara da Cléo. Ela sempre foi muito responsável.  
— Você gosta dela, né?  
— Muito. A mãe que minha mãe não quis ser.  
— Eu sei, Cleise. Nossas histórias não são muito diferentes. Eu tenho uma mãe que não me quis. Você teve uma mãe que não soube querer.

Admirei a súbita maturidade daquela frase. Ponto pra terapeuta.

Ele estica a mão para encontrar a minha sobre a mesa. Retiro para colocar o guardanapo no colo. Ele não insiste mais.

A comida chega. E as bebidas.

Era muito vinho pra Clayton. Agora entendi ele querer voltar de táxi. Ele sabia que eu não podia beber e respeitou isso sem eu lembrar. Esse Clayton eu ainda não conheço. Posso me apaixonar por ele! Devo?

A raiva pelo distanciamento de um ano sobe, o suco não quer descer.

Não posso. Não devo. Quero. Não devo!

— Não podemos demorar muito.

— Temos que fazer isso, Cleise. Não consegue fazer um movimento por nós?

— E agora a culpa é minha? Você que se afasta de mim, de nosso filho que mal nasceu. Dois anos separados, Clay. Dois meses de Felipe. Não me olha, não me toca. Sei que não tô gostosa. Tô uma merda. Mas é o que eu tenho pra dar.

O garçom chega antes que ele responda. Entrega para Clayton a carta, capa de couro. Conta no interior. Leva o cartão e some. Aqueles dois minutos de silêncio enquanto a maquininha não volta são uma eternidade.

Clayton paga, levanta. Vai até a cadeira em que estou sentada, me dá a mão para eu levantar. Sorrio. Protocolo.

Entramos no carro e voltamos num silêncio atroz. A cinta aperta. O silêncio aperta mais.

A psicóloga que lute pra resolver.

domingo, 12 de julho de 2026

"Parceira , Não mulher"


A terceira sessão começou como sempre. Respirei aliviada quando a recepcionista mandou a gente entrar. Eu não gostava de aguardar na recepção. Aqueles olhares dos outros casais, cheios de culpa. Aquele sentimento de inadequação. 

Talvez fosse só imaginação minha. Eles nem me olhavam, consumidos pela vergonha de ter que assumir que precisavam de terapia de casal. Talvez fosse Transferência. Pesquisei pro blog. Me descobri ali, vendo culpa nos outros porque era a minha que transbordava.

Descobri mais. O meu medo, que grita. O medo do Clayton, que cala. Tenho pena dele. Pena da gente. Raiva também.

Tomada de raiva, eu entro no consultório. Não aceito o gesto de Clayton para que eu entrasse primeiro. Não é disso que eu sinto falta, Clayton!

— Olá, como foi a semana? — a voz da Dr. Marta era de paisagem. Neutra.
— Bem.
Olhei pra ele com raiva. Muita raiva.
— É mesmo? — eu disse entre dentes.

Na semana passada, a Dr. Marta mandou a gente ter um encontro. Só nós dois. Sem falar de filho, de contas, de culpa. O tal do “exercício de reconexão”. Fiz uma lista do que aconteceu como se fizesse a lista do supermercado.

— Primeiro: ele me beijou. Depois disse que foi sem querer. Então a gente fez todo um arranjo pra poder ir no bendito restaurante fazer a merda do exercício. Me humilhei pedindo pra minha mãe ficar com o Felipe. Ela fez bolo, chamou as vizinhas, contou pra igreja que a gente ia “reacender a chama”. Só faltou soltar fogos. Na porta, ela disse que me amava quando eu saí do apartamento onde morei um dia. Eu não respondi. Não queria dizer “eu também”. Não era verdade.

— Reconexão porra nenhuma! — disse olhando pra Dr. Marta. Um olhar cheio de raiva. Ela sustentou meu olhar.
— Só discutimos. Voltamos brigados. Ou melhor, em silêncio. Uma sombra sobre nós.

Dr. Marta, impassível. Nenhuma contração no rosto. Levantar de sobrancelha. Nada. Que vontade de arrancar aquele caderninho da mão dela. Onde ela anota o que eu não sei.

— E você, Clayton. Como se sente ouvindo sua parceira dizer isso?

A psicóloga disse parceira. Não mulher. Como se fôssemos sócios de uma empresa falida. O que isso significa?

Clayton mexeu na aliança. Depois tirou e colocou no braço da poltrona. 

— Eu tentei. Pedi dinheiro emprestado pro meu sogro. Sei que ele não vai cobrar, mas terei que vender várias telas pra pagar o empréstimo. Escolhi o melhor restaurante. O melhor terno. O melhor pedido. O vinho verde que me deixou tonto e com gosto de derrota. Ela não me quer. Quer o filho. Não a mim.

— Tem razão, Clayton — cuspi o nome dele. — Não quero você. Não quero me sentir assim. Não quero esse filho.

O silêncio caiu como um tijolo. 

Percebi tarde demais o que disse. Não era verdade. Ou era? A Carla tinha me avisado sobre isso quando sugeriu a terapia. Falou de depressão pós-parto. De mulher que não quer olhar pro filho. Que até se torna violenta. Eu não estou com depressão. Não mesmo. Eu saberia se estivesse. Não é?

— Não é justo eu dizer isso. Não é verdade. Eu amo sim... — engasguei. — ...o meu filho.

Clayton me olhou. Não estava assustado. Nem com raiva. Ele tinha compaixão no olhar.

— Cleise! Por que você nunca me disse nada disso? A gente era amigo desde que eu tinha quatro anos e você disse que eu tinha olho de Pires. Daquela história que sua mãe contava pra nós quando a gente era pequeno e eu ia à sua casa. Você lembra?

— Eu tinha só 8 anos, Clayton. Nem lembrava disso! Como você se lembra?! Era tão pequeno.

— Eu me lembro de você. Sempre. E lembro de nós. Onde a gente se perdeu?

— Sua vez, Clayton — a Dr. Marta interrompeu, sem tirar os olhos do caderno. — Mas antes, alguém quer água?

Fiquei orgulhosa do que ouvi. Olhei pra Clayton e dei um sorriso tímido. Ele sorriu de volta. Ponto para a terapeuta.

Percebi um risco de caneta a mais no caderninho da Dr. Marta ao deixarmos o consultório naquela tarde. Só isso. Mas pra mim, foi quase um sorriso.

Protocolo



Protocolo 


Clayton 

O táxi cortava a noite carioca de volta para a Zona Norte, e o silêncio lá dentro era atroz. Do meu lado, Cleise olhava fixamente para a janela, com o queixo rígido e os braços cruzados sobre o peito. Ela estava furiosa. Dava para sentir a vibração daquela raiva no espaço milimétrico que nos separava no banco de trás.
Eu não conseguia olhar para ela. Em vez disso, olhei para as minhas próprias mãos repousadas sobre os joelhos. Mãos que  ganharam a vida desenhando detalhes milimétricos em unhas artísticas, mas que já tinham carregado muito peso na terra. E que hoje pintam em telas aquilo que não consigo dizer em palavras.
O balanço do carro me empurrou para trás, para o hiato de oito anos que passei longe do Rio. Oito anos em Minas Gerais, pisando no barro, trabalhando como técnico em agropecuária na empresa pesqueira do meu tio. Eu achei que aquele isolamento me daria um futuro, mas só me deu fantasmas. Fechei os olhos e a lembrança incômoda do meu primo mais velho me atingiu como um tapa. O jeito como ele me olhava, as investidas disfarçadas de piada, a respiração perto demais no galpão. Foi ali que descobri o homossexualismo dele — um segredo sufocante que nossos tios nem sonhavam, mas que se transformou em um mal-estar tão insuportável que me expulsou de Minas. Aguentei o quanto pude, arrastando os dias até o casamento do outro primo. Assim que o altar foi desmontado, eu arrumei as malas e fugi de volta para o Rio.
Na volta, tentei me limpar do passado. Ia com a minha avó ajudar nas obras da Igreja, carregando canecas marmorizadas sob o sol escaldante, buscando uma redenção que eu nem sabia se merecia. Foi nessa época que descobri meu talento com o pincel. Comecei a trabalhar com unhas artísticas. No início, as pessoas olhavam torto, um homem fazendo aquilo, mas o talento falou mais alto e logo a agenda estava lotada. Ganhei clientes, ganhei meu próprio dinheiro, mas perdi a paz em casa.
Viver sob o mesmo teto que Cléo, a mãe do meu coração, e Paula, a minha mãe biológica, era um inferno diário. Eu não suportava a Paula. A presença dela me sufocava. E foi no meio daquele desespero para sair dali que a Cleise apareceu.
Mal tínhamos começado a namorar e ela engravidou.
Uma onda de raiva quente subiu pelo meu pescoço enquanto o táxi passava por São Cristóvão. Eu estava com raiva. De mim, da situação, do destino. E agora, como se um filho não bastasse para amarrar nossas vidas, ela me inventa essa palhaçada de terapia de casal. Para tentar "salvar" o que nem tínhamos construído direito.
Olhei de relance para a fachada iluminada do Adegão Português sumindo na distância. Eu tinha feito tudo certo, ou pelo menos o que achei que era certo. Engoli meu orgulho e pedi dinheiro emprestado para o pai dela só para podermos jantar naquele lugar chique. Queria impressionar. Queria ser o homem que eles esperavam que eu fosse. Pedi o Bacalhau à Lagareiro, o vinho caro no balde de gelo... e para quê?
Cleise passou o jantar inteiro com o pensamento em outro lugar. Ela só pensa no filho. Cada palavra, cada gesto, cada plano dela gira em torno daquela barriga. Ela não me quer ali como homem; ela quer um pai funcional, uma engrenagem na vidinha perfeita que desenhou na cabeça.
O táxi freou brusco no sinal. O motorista nem imaginava o drama no banco de trás. Olhei mais uma vez para Cleise, a mulher com quem eu dividi uma cama e um futuro forçado.O gosto amargo do vinho verde ainda estava na minha boca. Eu sabia perfeitamente o que ela queria. Mas eu? Eu olhava para o asfalto escuro da Zona Norte e só conseguia sentir o peso do vazio.
Eu não sabia o que queria. E isso era o que mais me apavorava.



sexta-feira, 10 de julho de 2026

Margarida

"Margarida"

Quase não acredito quando o porteiro avisa pelo interfone:  
— Dona Margarida, a Cleise e o bebê estão aqui na portaria. Eu bem que disse que, sendo menina de casa, ela podia subir direto, mas ela pediu pra eu interfonar avisando.  

Suspirei. Deixei passar a intromissão. Ainda tenho que dar um jeito na geladeira que não gela direito, e o seu Zé vive com um amigo conserta-tudo pra indicar.

Vi a Cleise pelo olho mágico, empurrando o carrinho. Ela ainda não perdeu o peso da gravidez. Mancha de leite seca na alça da bolsa.

— Lembrou que tem mãe?  
— Oi, mãe. Pode antes me dar um copo d’água? Lá fora tá um calor de matar.  

Entreguei o copo. Ela bebeu em três goles, com sede de quem amamenta.  
— Antes de quê?  
— De me alfinetar como sempre! Estava até com saudades disso.  
— O que você faz aqui a essa hora? Além, é claro, de bancar a adolescente malcriada que você era enquanto morava aqui?  

Cleise fez um gesto com as mãos, como quem espanta fumaça.  
— Tudo bem, mãe, desculpa. É que você...  

Esperei ela terminar. Ela engoliu o que ia dizer e olhou pro menino, adormecido no carrinho.  
— Preciso que fique com ele pra mim.  
— E a sua mãe de plantão, a Cléo? Eu bem devia imaginar que aquela lá ia me apunhalar pelas costas. Ela nunca gostou da minha amizade com a Paula.  
— Isso não é verdade! A Cléo não apunhalou ninguém, mãe! Foi a Paula, a sua amiga do peito, a Paula, quem traiu a Cléo.  
— Tá muito saidinha, Cleise, pra quem vem me pedir ajuda.  
— Mãe... Eu vim te pedir ajuda! Ajuda! Porque você não entende isso? Você é minha mãe!  

Olhei pra ela e passou um filme diante dos meus olhos.  
Cleise pequena, correndo pra mim em lágrimas depois do último encontro com o pai. Ela tinha 10 anos. Nunca mais quis vê-lo. Foi quando passou a chamar o Roberto de pai.  
Cleise gritando feliz, jornal na mão, o nome "Cleisemir dos Santos" em primeiro lugar no vestibular para jornalismo na UERJ.  
Tantos momentos... Mas lembrei de Cleise saindo com a Paula da maternidade. Se fosse só isso... Mas a Cléo também estava lá, cheia de salamaleques com a minha filha. Minha filha. Não a filha dela.  
Minha filha... Filha.

— Filha. Ainda sou sua mãe e é claro que posso ajudar. Você pretende ficar fora quanto tempo?  
— Não sei... A reserva do jantar é às 22h. Uma hora ou duas, no máximo.  

Olhei curiosa. Ela respondeu o que não perguntei:  
— É pra terapia de casal. Foi um exercício que a psicóloga passou. A gente precisa sair só nós dois, sem o bebê, pra tentar se acertar... pra se reconectar.  

— Entendi. Filha, quer conversar sobre isso?  
— Mãe, é que eu... o Clayton... a gente...  

Pigarreou. Ajeitou a manta do Felipe no carrinho.  
— Preciso ir. Tem anos que não pinto as unhas. Já viraram cascos desbotados.  
— Pede pra pôr aquele esmalte "Vamp". O vermelho-escuro profundo combina com o tom do seu cabelo.  
— Nem me fala do cabelo... Nunca caiu tanto!  
— Normal, filha. Quando eu tive você, meu cabelo ficou fino e bem frágil por meses. Tive até que mudar a alimentação. Vai passar.  
— Eu sei... Tudo passa, né? Você sempre dizia que se o que é bom passa...  
— ...o mal também há de passar!  

Sorri.  

— Tchau, mãe! Realmente preciso ir.  
— Fique tranquila, o Felipe ficará bem, filha.  
— Filha?  
Ela já estava com a mão na maçaneta e virou de volta.  
— Oi, mãe! — disse antes de fechar a porta.  
— Eu te amo. Não se esqueça disso.


domingo, 28 de junho de 2026

Eu, o pai.



Clayton

Entrei no quarto . Ainda não estou dormindo aqui, com a Cleise. Um passo de cada vez. O beijo já foi. A cama vem depois , no seu tempo.

  Felipe finalmente dormiu e Cleise foi escrever, pra relaxar. Coisa de jornalista . Eu não tenho essa vibe não , prefiro pintar .

Seis horas de cólicas . Eu e Cleise revezamos na massagem indiana que Cleise disse que se chamava " Shantala". Essa massagem tem uns movimentos rítmicos, com deslizamentos e alongamentos.

Tive até que rir quando ele acertou um jato de xixi na Cleise no meio da massagem que ela fazia.

Mas quando Felipe fez o número dois sem fralda, no meio da tal massagem, eu me arrependi de ter zoado o xixi.Era menos pior.

— Como tá indo o blog Trollados?

— Bem. Ficou com esse tom mais confessional , sem o ar mais jornalístico de antes . Mas eu gostei e pelos comentários e número de visualizações , acredito que é esse o caminho.

— Ah! Entendi.

Ela arqueou uma sobrancelha.

— É que escrevi um texto. Minha contribuição para o blog. Veja o que acha .

"Pai de repente".

Cleise deu um meio sorriso mas voltou a ler.

"Quem me conhece sabe da minha história. De técnico em agropecuária. É que assumiu uma nova profissão quando passei a morar com as minhas mães .

 Minha mãe do coração, Cléo, me incentivou a fazer unhas artísticas quando viu as canecas com pintura artística que fiz para arrecadar dinheiro para as obras da igreja que minha avó Lizete frequenta.

Quando o YouTube passou a ter vídeos do tipo tutorial, lá pelo ano de 2007, já dava pra aprender muita coisa com vídeos de pessoas gravando com suas webcam. Eram vídeos bem amadores, mas davam conta do recado.

Aprendi várias técnicas e rápido eu passei a ter várias clientes. Mulheres em sua maioria, muitas amigas da minha mãe Cleo, que não tinham preconceito em serem terem um homem fazendo as unhas delas.

Tive muitos clientes. Alguns vieram por intermédio da minha mãe, pois conhecia muita gente no escritório de advocacia.

 Algumas mulheres estavam se divorciando e para se sentir dando a volta por cima , investiam na própria beleza.
 Melhor pra mim.

No meio do caminho reencontrei uma amiga de infância e com um pouquinho de ajuda do destino, a amizade virou morar junto. Ainda não casamos, mas tá na lista.

Só que no meio do caminho tinha um filho. Tinha um filho no meio do caminho.

O trocadilho foi inevitável. A Cleise vive recitando esse poema . Não tenho certeza, mas 
Acho que é do Carlos Drumond de Andrade. Vai saber.

Eu não sabia nada de bebês. Cleise ainda leu, naquele monte de revistas de bebê . Até em sites, afinal também tem vídeo para ensinar a cuidar de bebê!  🍼 🤱🏻

Confesso que foi difícil no começo. Eu estava com ciúme . Cara, e como senti ciúme.

O nome é esse mesmo, as terapias de casal deve tá surtindo efeito, afinal, porque já consigo dar nome pra essa raiva que eu sentia sempre que olhava pra Cleise e ela estava com o bebê no colo e não olhava pra mim.

Cara, e a raiva era tanta que passei dois meses para conseguir falar de novo com ela, e também para aceitar a cuidar do bebê.

No início eu aproveitava momentos que a Cleise finalmente dormia exausta , e tirava fotos do nosso filho, que me ajudava para ter a imagem dele como modelo para as minhas telas, sem que Cleise soubesse o que eu fazia.

Mas isso são águas passadas.

Quero deixar registrado para os leitores desse blog que quem,  como eu,  tiver descobrindo as alegrias e dificuldades de ser pai, que a tal massagem indiana Shantala é um santo remédio para as cólicas.

E se prepare para as cólicas .
Não tem horário certo nem fim de semana. É todo dia. Às vezes, o dia inteiro. Ou quase. Pelo menos, é o que o ouvido e a impaciência acham.

Por enquanto é isso. Porque todos dia é diferente, um novo aprendizado. Para Felipe. Para Cleise . Para mim.

Quero que meu filho sabe que se eu fui um cuzão quando ele nasceu, hoje eu não sei ser Clayton sem que ele esteja no berço , ou no meu colo, graças ao sling.

Viu como estou por dentro desse universo.

Me desejem sorte nessa viagem de ser pai ."


Percebi que os olhos dela estavam marejados . Será que fiz algo errado ?

— Está ótimo , Clay. 

— Espero que o blog faça tanto sucesso quanto antes. 

— Que Deus te ouça . 

— Fecho a porta?

— Não precisa.

Deixei a  porta aberta e voltei para o ateliê com a alma leve.

sábado, 27 de junho de 2026

Depois de tudo


Capítulo "Depois de tudo"  
Cleise

Pensei que já tinha acontecido coisa o bastante pra várias sessões de terapia. Era coisa que não acabava mais. Já me via com meses de sessão pela frente... 

Me enganei redondamente.

Como numa novela mexicana, Paula veio até aqui em casa atrás da Cléo pra continuar a DR. Me senti a própria Maria do Bairro. Rir pra não chorar.

Mas a Thalia ao menos já criou os dois filhos dela e, mesmo com 54 anos, ainda está lindíssima. Aposto que não tem essa barriga flácida que eu exibo pro meu desespero.

As famigeradas estrias, então! As linhas brancas tomaram não só a bunda como a barriga flácida e surgiram logo após o parto. Não adiantou usar cinta nem fazer dieta pra voltar ao peso.

Ainda tentei os óleos de rosa mosqueta, de uva, de amêndoas. Tudo com promessa de zero estria. Funcionou... só que não!

Só as indústrias cosméticas devem ter se dado bem e enriquecido graças a moi.

Dessa vez o ring não era na antiga casa delas. Talvez assim, num campo neutro, a briga fosse menor.

Ok. A minha casa, transformada em ring pra duas se degladiarem, nem era um ambiente tão neutro assim. Mas nem tanto quanto seria na casa da Cléo no condomínio do Recreio, onde moraram juntas por 25 anos.

Fui pro quarto e deixei a cozinha pras duas se acertarem. Desde que não colocassem fogo na cozinha, tudo bem.

Olhei pra Felipe. Ele sorriu pra mim.

Sei que neonatologista diria que é reflexo. Que com sessenta dias é cedo demais pra sorrir de verdade. Mas mãe é mãe. Não me contive e sorri de volta. E Clay entrou no quarto nesse minuto.

Tinha que ser justo agora?  
Depois de tudo o que ele disse. Do que eu disse. Depois do "te beijei sem querer, Cleise"?

— Oi!  
— Oi.

Um diálogo inteiro num "Oi". Mas se isso não serve nem pra post do blog, quem dirá pra nós dois.

Quebrei a tensão. Ainda com o grito de PENTACAMPEÃO preso na garganta:

— Brasil finalmente foi pentacampeão!  
— Só levou 7 anos e 353 dias. Mas quem é que está contando?

Eu ri. Ele riu também. Fazia tempo que a gente não ria junto. Doeu e aliviou no mesmo segundo.

— Precisamos marcar o batizado.  
— É. — Ele olhou pro Felipe, não pra mim. — Depois que as duas ali se acertarem. Ou não. Não sei. Que não seja preciso outra briga. Mas elas são avós, precisam estar no batizado.

— É, Cleise. Eu sei. — A voz dele baixou. — Não queria a Paula lá, mas não tenho como dizer não.

— Não é justo.

Ele sorriu. De canto. Essa era minha frase preferida. Ele sabia. Eu sabia que ele sabia.

— É justo! — confirmou. E doeu igual.

Silêncio. Felipe fez um barulhinho entre nós dois.

— Precisa chamar também o Roberto e a Dona Margarida, sua mãe.  
— É. — Ele passou a mão no rosto. — Também vou precisar de um ring. Seria muito pedir também por um campo neutro? Nem eu me humilhando a minha mãe baixou a guarda. Nem o Felipe conseguiu abrandar o coração dela. Bendito ciúme.

— É.

Putz, Cleise, mal começaram a conversar e você se sai com essa?

— Não foi indireta, Clay.  
— Eu sei. — Ele me olhou de verdade, pela primeira vez. — Você não costuma ser cruel.

Mereci essa. Mas não desisti de conversar. A terapia é terça. Hoje ainda é domingo. Ainda somos nós dois e um bebê de sessenta dias.

— Temos que marcar também o nosso encontro no restaurante. Vou falar com a Cléo e ver quando ela pode ficar com Felipe. Não quero ter que pedir pra minha mãe.  
— E pedir pra Paula, nem em sonho, é uma opção.

Não sabia como chamar Lizete e Paulo, avós do Clay. Preferi a verdade, era mais fácil manter.

— Seus... avós, talvez?  
— Estão idosos, e minha avó ainda tem os trabalhos da igreja. — Ele respirou fundo. — Talvez mais fácil pedir pra Cléo.

— Talvez. Segunda seria uma boa. Podemos ir num restaurante, né. Mas tem que ser antes da terapia na terça.  
— Deixa que eu falo com minha mãe Cleo .

Voz branda, conciliadora. Aquela que ele usava quando a gente ainda se entendia sem manual.

Pegou Felipe no colo. O menino pareceu se encaixar no colo do pai como se fosse hábito. E era. Eu só não sabia disso.

— Pode tomar banho se quiser. Fico com ele.

Ele colocou o sling. Coisa de pai que já aprendeu sozinho, enquanto eu sangrava e aprendia a ser mãe.

Ele saiu do quarto deixando a porta aberta. Seria um sinal dos astros? Ou só mais uma porta que nenhum de nós dois tem coragem de fechar?

Da cozinha, a voz da Paula. Do berço, o cheiro de leite. Da porta, as costas do Clay.

— Vamos passar um café pra mamãe, filhão?

foi sem querer



Carla 
 junho de 2002. Domingo de final de Copa do Mundo.

A sala cheirava a pipoca queimada e ansiedade. Na TV, Galvão Bueno já estava rouco de tanto gritar. Brasil 2 x 0 Alemanha, 42 do segundo tempo. 

Na beira do campo, Luiz Felipe Scolari andava de um lado pro outro igual leão enjaulado, mastigando o mesmo chiclete desde o primeiro tempo. Na beira do sofá, Clayton fazia igual. 27 anos, camiseta amarela suada colada no corpo, joelho batendo sem parar. Adultescente em estado puro.

O apito final veio como uma explosão.  
“É PENTA! É PENTA!” 

Clayton pulou do sofá, derrubou o copo de guaraná, socou o ar e berrou tão alto que o Akira levantou as orelhas quando o cachorro da vizinha latiu de volta.  

Foi nesse segundo de euforia cega que Cleise, de cabelo molhado,  entrou na sala e sentou do lado dele, rindo do escândalo.

Ele virou pra ela, olhos brilhando, coração na boca, e sem pensar — sem pensar MESMO — segurou o rosto dela e beijou. 

Um beijo rápido, atrapalhado, com gosto de guaraná e desespero de campeão do mundo.

O silêncio que veio depois foi mais alto que o gol do Ronaldo.

Cleise congelou. Os olhos arregalados, a mão no peito, o batom borrado. Por dentro: um carnaval. Por fora: estátua. 

Clayton recuou como se tivesse levado um choque. Passou a mão na boca, gaguejou:
“Foi mal. Foi... foi sem querer.”

Sem querer.

Duas palavras que desmontaram Cleise mais que o beijo. O “sem querer” dela vinha com um sorriso escondido que ela tentou segurar mordendo o lábio. O “sem querer” dele vinha com pânico.

O que passou na cabeça do Clayton naquela hora:

Pai. A palavra ecoou igual bomba. Cleise mãe . De um filho meu. Um filho! A gente não planejou.Foi por acaso.Igual eu.

Porque  também fui um “acidente”. Nasci no meio do caos: Paula, minha mãe biológica, tinha 16 anos quando o pai dela flagrou ela aos beijos com Cléo. Foi expulsa de casa na mesma noite, de roupa do corpo. Foi morar com Cléo. As duas, duas meninas assustadas, me criaram  juntas.

Por 25 anos foram família. Até que Paula, já na menopausa, surtou e traiu Cléo. A casa virou campo minado.

Pior:  Só descobri a verdade aos 15. Achava que Paula era minha irmã mais velha. Meus avós tinham registrado como filho deles pra “abafar” o escândalo do relacionamento das duas. Quando o “flagra” veio à tona, tudo desabou,  saí de casa com uma mochila e um pôster do Romário.

Desde então, virei isso: como o adultescente, tal como a psicóloga me chamou. Um adultescente de 27 anos. 

Corpo de homem, emocional de moleque. 
Toda vez que a vida me encosta na parede,  ajo assim. Faço piada. Fico agressivo. Nego.

 Porque se eu admitir que senti, que quis, que amei... aí viro gente grande. E gente grande vira pai. E pai apanha da vida.

Por isso o “foi sem querer”. 

Era  armadura . 

Negar primeiro, sentir depois. Se é que ia sentir.

Cleise levantou devagar, ajeitou o cabelo, e sem olhar pra mim, soltou:
“Pentacampeão, hein...” 

E saiu da sala com o coração batendo no ritmo de escola de samba e a maior vontade de voltar e dizer: “mente que eu gosto”.

Fiquei ali, sozinho, com a TV repetindo o gol, o guaraná escorrendo pelo chão e a certeza de que, pela primeira vez em 27 anos, tinha feito algo 100% querendo... e morrendo de medo do que isso significava.

capítulo 23- Rumo ao penta

Carla 
— Repete pra mim: como foi mesmo que você me convenceu a vir pra essa furada ?

Ri, mas não dei o braço a torcer.

— Adianta ir à psicóloga e não fazer o que ela pediu ?
Cinco minutos sozinha , Cleise. Sem filho , só um tempo para ser a mulher Cleise.
Pense pelo lado positivo: o jogo já está  no segundo tempo e... 

Ronaldo Fenômeno fez outro gol!!! Estou ouvindo daqui ! Olha os fogos, que lindo! 

Vamos descer para ver o replay do gol e comemorar com os outros !
— Quero é que acabe isso logo para eu ir buscar o Felipe na minha mãe- falou, com azedume.
— Você nem comentou sobre como foi esse encontro com sua mãe, após tanto tempo...Ela nem mesmo conhecia  o neto !
— Pra você ver como são as coisas: até a cobra da Paula já pegou o meu filho no colo , e a minha mãe demorou 2 meses...
Dois meses inteiros, Carla ! Só porque eu me humilhei e fui até minha antiga casa e praticamente implorei para minha mãe tomar conta dele.
— Ele está com a avó, Cleise. Relaxa ! 
Vamos descer! Esquece um pouco tudo isso e faz um esforço para se divertir! 

Até o cabeça dura do Clayton veio para ver o jogo da Seleção e deixou aquela catacumba que chama de ateliê.

— Que exagero, Carla, não é pra tanto ! . Impossível não sorrir.
— Agora sim , você parece com a chata da Cleise de sempre !
— Ei! Não sou chata , sou organizada, só isso!
— Até parece ! Amiga, você é como toda libriana: quando os pratos da balança estão desequilibrados, sai de baixo!
— Tá bem, tá bem. Vem , Akira, vamos descer .

Nem precisava chamar. Assim que Cleise se levantou da cadeira, Akira colocou as orelhas em pé e em seguida, leventou e a seguiu.

Desci na frente para me garantir que o terreno estivesse amistoso.

Qualquer palavra mais ríspida ou olhar inquisidor poderia colocar tudo a perder.

Diante da TV estava Clay , roendo as unhas de nervoso ..Tal como o Técnico , Luis Felipe Scolari , que estava bastante agitado na lateral do campo, agitando os braços , ansioso, mas mesmo assim , orientando os jogadores . Apito Final .

No fundo da sala, sem ligar para os fogos pipocando e a zoeira que irrompeu no condomínio , evaporando o ar quase monástico que imperava ali , com toda aquela vegetação ao redor .

As antigas amantes , Cléo é Paula ,  na maior  DR . O que há muito estava mesmo precisando acontecer ! 

Nem me aproximei do fundo da sala onde as duas tentaram se esconder , para não interromper a conversa.

Cleise desceu atrás de mim, com Akira logo atrás,como um guarda- costas.
Ela se sentou no sofá ao lado de Clay. 

Vidrado , ele, sem perceber o que fazia , a abraçou para comemorar o pentacampeonato conquistado  e deu um beijo rápido em Cleise.

"Que belo gol, amiga ! ".


capítulo 24- Tudo sobre nós dois.

Cleise 

### *Capítulo: Tudo sobre nós* 

O consultório cheirava a café frio e jasmim. Eu cheirava a leite e noite mal dormida.

— O que os trouxe aqui hoje? — a psicóloga perguntou, caneta na mão.

— Não sei, na verdade — respondi, ajeitando a alça do sutiã de amamentação por baixo da blusa. — Pelo menos no que diz respeito a mim. Vim por sugestão da Carla. Ela é psicóloga também.

A psicóloga assentiu e virou pra ele.  
— Certo. E você, senhor... Clayton?

Ele nem levantou o olho do celular.  
— Só Clay.

— Muito bem, Clay. — A caneta dela riscou o papel. — O que te trouxe aqui hoje?

— Não sei.

Soltei sem filtro, igual quando o Felipe acorda pela terceira vez na madrugada:  
— Você não sabe de muita coisa ultimamente, né, Clayton?

A psicóloga não reagiu. Só anotou. Eu passei a mão no pescoço e senti cheiro de talco de bebê no meu pulso. Hábito novo.

Clay ergueu a cara, ferido.  
— O que quer dizer com isso, Cleise?

A verdade saiu antes do freio:  
— Olha, ele fala! A última vez que falou comigo foi na consulta com a obstetra. O médico disse que a gente podia "voltar a brincar". Mal sabe ele que eu não sei o que é isso há meses. Entre mamada, troca de fralda e choro às três da manhã, "brincar" sumiu do meu dicionário.

Percebi tarde demais o estrago. Mas bebê não espera, e eu também não.

Clay fechou a cara. A voz saiu baixa, infantil:  
— Nem me passou pela cabeça que você ainda gostasse de sexo. Você virou mãe. 24 horas por dia. E eu não quero outra mãe em casa. Já tenho duas: uma de verdade e outra, um acidente biológico que me colocou no mundo.

Meu peito queimou. Não de raiva. De cansaço.  
A psicóloga interveio, neutra demais:  
— Quer falar mais sobre isso, Clay?

— Sobre o quê? — ele sibilou. — A falta de sexo? Ou como a Cleise me trocou pelo Felipe?

— Reparou que estou aqui? — cortei, dura. — Fala de mim olhando na minha cara.

— Acalmem-se, por favor — pediu a psicóloga. — Clayton, repita olhando pra sua mulher.

— Não somos casados — corrigi, automática.

Esperei ironia. Ele me deu um olhar tão triste que me desarmou. Pela primeira vez desde que o Felipe nasceu, eu vi o menino de 27 anos.

— Desculpa, Clay. Sei que isso é complicado pra você.

Ele respirou fundo, igual faz quando o Felipe chora e ele não sabe o que fazer.  
— Minha mãe foi traída pela minha mãe biológica. Ela trocou a Cléo por um cara chamado Gustavo. Não quero padrasto na minha casa.

— Sei como é ter padrasto, Clay — falei mais baixo.

— Ah! O seu Roberto cuida de você desde os 10 anos. Ele até me ajudou quando comecei a pintar quadros pro shopping.

— Verdade. O Roberto é muito mais que padrasto. Ele é meu pai.

Clay engoliu seco. Os dedos apertaram o celular.  
— E a Cléo é a minha mãe. A Paula só me teve por um erro. Eu sou um erro dela.

A psicóloga fechou a pasta. Hora acabou.  
— Nossa sessão está encerrando. Foi um primeiro encontro produtivo, com muitos assuntos pra trabalhar. Cleise, quer dizer mais algo?

Eu não saberia por onde começar. Então só balancei a cabeça. Negativa.

— E você, Clay?

— Estou bem — mentiu.

O Clay da briga evaporou. Sobrou o mutismo dos últimos meses. O mesmo mutismo dele quando o Felipe acorda e ele finge que dorme.

Na saída ele segurou a porta do elevador. Cavalheiro até na dor.  
— Obrigada — falei, achando que era começo de conversa.

Ele entrou no carro, manobrou e saímos do estacionamento. O celular dele apitou no Bluetooth. Era a babá eletrônica.  
Imagem do Felipe dormindo, boca aberta, babando no travesseiro.  
Mensagem da minha sogra: "Igualzinho ao pai quando dorme 😍"

Sorri sem querer.  
Clay viu pelo canto do olho. Apertou o volante até os nós dos dedos ficarem brancos.  
— Ele nem tem dente ainda — murmurou.

Virei pra ele, exausta e terna:  
— E você tá com ciúme de um desdentado, Clayton?

Ele não respondeu. Mas pela primeira vez na sessão, não fingiu que tava bem. Só dirigiu. E eu fiquei ali, dividida entre mãe e mulher, sem saber pra qual dos dois dar colo primeiro.

Sabe-se lá por quanto tempo isso vai durar. Até a gente se acertar. Ou não.

---





Reflexos



CLAYTON - ATELIÊ

A madeira cheira a terebintina e fralda suja. Transferi o ateliê pra cá achando que era só temporário. Mentira. Eu trouxe a fuga pra dentro da casa dela. Da mãe que eu escolhi.

A DR delas atravessa a porta como cupim. 
"Você nunca soube dividir, né? Nem filho, nem homem." A voz da mãe. Da minha mãe de verdade. 
"Ele só tá magoado, igual você quando eu..." A voz da outra. Da que me criou.

Akira rosna baixo cada vez que a biológica fala. Irmão de alma. Se eu pudesse rosnar, rosnava também.

A porta abre com o pé. Cleise. Cabelo preso de qualquer jeito, olheira de quem não dorme há um ano, Felipe berrando no colo.

"Resolve com teu irmão de ciúme aí." Ela joga nosso filho no meu colo como quem devolve um boleto. "Tua vez. A Carla disse cinco minutos. Eu vou ter cinco minutos pra ser só a mãe do Felipe. Não a sua. Escolhe."

A porta bate. 

Ficamos nós três: eu, um bebê que não planejei, e um cachorro que me entende melhor que minha própria mãe.
• * * 

Voltei da Bahia há três meses. Rodrigo disse que eu era idiota de largar os pacientes pra "salvar amigo". Ele não entendeu. Eu vi esses dois se apaixonarem no meu sofá, dividindo miojo e conta de luz. Eu segurei a mão da Cleise quando o teste deu positivo e o Clayton travou. Eu não ia assistir de longe eles se destruírem.

A primeira sessão de verdade foi ontem. Na casa deles. Antiético? Talvez. Necessário? Com certeza.

"Ele compete com o Felipe," Cleise disse, com o próprio Felipe mamando no peito. "Eu virei mãe de dois. Um chora de fome. O outro se tranca no ateliê quando não é o centro das atenções."

Clayton olhou pro chão. "Eu não sei ser isso. Pai. Marido. Adulto."
"Você sabe amar, Clayton," eu falei. "Você só não sabe demonstrar sem fazer birra. É igual quando o Henrique terminou comigo. Eu voltei pro Rio e me enfiei no quarto de vocês por um ano inteiro. Lembra? Vocês me deixaram quebrar até eu lembrar como se monta."

Ele assentiu. Primeira vez que não fugiu no meio.

No final, falei pra Cleise: "Começa com cinco minutos. Cinco minutos por dia em que você é só mãe do Felipe. Não dele. Não da casa. Não da culpa. Só mãe. Ele que segure o tranco. Ou aprende, ou perde."

Não imaginei que ela ia usar os cinco minutos como granada. Mas olhando pra DR daquelas duas ali no fundo, e pro Akira rosnando na porta do ateliê, acho que granada era o que essa família precisava.

Tomo um gole do café que a mãe afetiva do Clayton fez pra mim. "Vai dar merda antes de dar certo," digo pra ela, que só concorda com a cabeça. Ela sabe. Psicóloga ou não, tem coisa que só mãe entende.
• * * 
CLEISE - BANHEIRO

Cinco minutos. A psicóloga disse cinco minutos. E a Carla também disse. É isso. Um começo. Talvez.

Abro o chuveiro e não entro. Só deixo a água cair pra abafar o som da DR e do choro. Se ele não der conta, eu vou embora mesmo. Não com o Felipe. Comigo.

Casei com Clayton achando que adulto de 24 anos era adulto. Descobri que casei com o primeiro filho da casa. O segundo a gente fez sem querer.

Escuto o silêncio. O Felipe parou de chorar. 

Ou ele fugiu pela janela do ateliê, ou a Carla tava certa e ele só precisava de um tranco.

Cinco minutos. Rezo pra serem suficientes.
• * * 
AS MÃES - SALA

"Ele me odeia!" A biológica. Minha ex. Mãe do meu filho de coração. 

"Não odeia. Tá com ciúme. Igual você ficou quando eu trouxe o Gustavo pra jantar pela primeira vez, lembra?" Eu, a afetiva. A que ficou. "A diferença é que você tinha 40 anos. Ele tem 24 e um bebê que chora mais que você."

Ela me olha com aquele olhar de cachorro abandonado. Irônico, já que o cachorro que ela deu pra fazer as pazes agora rosna pra ela.

A psicóloga amiga deles me encara da poltrona. "Trauma de abandono gera competição, não afeto," ela diz, baixo. "Ele acha que se não for o bebê da casa, perde o lugar."

Engulo seco. Merda. A culpa é minha também, então.

Um barulho na porta do ateliê. As duas calamos a boca ao mesmo tempo. 25 anos juntas ensina isso.
• * * 
AKIRA

Cheiros: Terebintina. Leite azedo. Medo. Homem-filho. Bebê-filho. Mulher-terapia.

Mulher-barulho está na porta. Entrega Bebê-filho e fala "Carla disse". Rosno. Não pra ela. Pro outro barulho, da Mulher-que-deu-biscoito-mas-não-faz-carinho.

Homem-filho segura Bebê-filho desajeitado. Bebê-filho para de fazer barulho de angústia. Encosta no peito. Coração de Homem-filho bate rápido, igual quando tem trovão.

Lambe mão de Bebê-filho. Gosto de novo. De futuro. 

Homem-filho olha pra mim. Entendo. 

"É, Akira. A gente é dois idiotas, né?"

Levanta. Abre porta. Eu vou na frente. Mulher-terapia está na sala. Cheiro de café e de pessoa que conserta gente. Ela não rosna. Ela espera.

Se Mulher-que-deu-biscoito tentar morder, eu mordo primeiro. Mas ela não vai. Cachorro entende cachorro. E gente quebrada também.
• * * 
CLAYTON - SALA

Saio do ateliê com Felipe no colo. Akira na frente, guarda-costas de quatro patas.

Elas param a DR no meio. Carla tá na poltrona, sem anotar nada. Só olhando. Testemunha.

Pela primeira vez em um ano, não tenho pra onde fugir. O ateliê ficou pequeno demais pra três: eu, ele, e o homem que eu não sabia se conseguia ser.

Felipe agarra minha camisa. Por  reflexo  Baba no meu pescoço. Não planejei ele. Não planejei nada disso. Mas a Carla disse que eu sei amar. Só não sei mostrar.

"Desculpa, cara," sussurro pro meu filho, baixinho pra só ele ouvir. "Acho que eu tô sendo um cuzão."

Cleo sorri de canto. A biológica começa a chorar. Carla só assente, mínimo. Tipo "viu? Você consegue".

Cleise aparece na porta do banheiro, de toalha, cabelo pingando. Me encara. Eu encaro de volta. Não fujo.

Ela olha pra Carla. Carla olha pra mim. Eu olho pro Felipe.

"Cinco minutos acabaram," Cleise fala. "E agora?"

Não respondo com palavra. Só ajeito o Felipe no colo e sento no sofá. No meio das duas mães. No meio da merda toda. 

Pela primeira vez, fico.

Akira deita no meio da sala, entre eu e a Carla. Entre o passado e a terapia. 

Rosna uma vez, baixinho, só pra garantir. Depois suspira e fecha os olhos.

A DR acabou. A sessão, não.

sexta-feira, 26 de junho de 2026

segunda seção .


### *Capítulo: Sessão dois*  

Cleise 

Sete dias depois. Mesma sala, mesmo cheiro de jasmim. Eu diferente: olheira nova, blusa com mancha de vômito de bebê disfarçada com cardigã.

O Felipe não veio. Deixei com a Cleo. Foi a segunda vez que saí de casa sem ele no colo em 60 dias. Minhas mãos coçaram o caminho inteiro. 

A psicóloga sorriu, profissional.  
— Boa tarde, casal. Como foi a semana?

Silêncio. Clay olhou pro relógio.  
— Produtiva — disse ele por fim.

— Produtiva como? — ela insistiu.

— Dormimos. Eu no ateliê, ela na cama com o bebê.

Ela anotou. Devagar. De propósito.  
— Clay, na sessão passada você disse algo que eu queria voltar. Você falou "não quero outra mãe em casa". E depois: "eu não sei mais onde eu entro nisso".

Ele encolheu o ombro. Defesa de adolescente pego no flagra.  
— Falei muita coisa. Tava nervoso.

— Mas era verdade, não era? — a psicóloga não piscou. — Onde você entra nisso, Clay? Onde o Clayton, marido, pai, homem, entra nessa nova casa que vocês montaram?

Clay abriu a boca. Fechou. Olhou pra mim como se eu tivesse a resposta.

Eu não tinha. Só tinha peito empedrado e sono atrasado.

— Ele entra se trancando no ateliê. Sequer entra no nosso quarto para ver nosso filho...ou me ver.

Virei pra ele. Falei baixo:  
— O problema aqui é que você entrou. Só que entrou competindo com ele. E o Felipe tem 60 dias, Clay. Ele não sabe jogar esse jogo ainda.

Clay mordeu a bochecha. O músculo da mandíbula pulou.  
— Você não entende — resmungou. — A casa cheira a leite. As fotos são dele. As conversas são dele. Até quando faço café, você tá com ele no canguru.

A psicóloga inclinou a cabeça.  
— Então você sente falta de ser visto, Clay. Não de sexo. De presença.

Ele não negou. Também não confirmou. Adultescente clássico: morre, mas não admite.

A psicóloga virou pra mim.  
— E você, Cleise? Onde a mulher entra nessa nova mãe?

Quase ri. Quase chorei.  
— Ela não entra. Ela espreme um espacinho entre uma mamada e outra. Às vezes esquece como era antes. Às vezes tem medo de nunca mais voltar a ser.

Fiz pausa. Olhei pro Clay.  
— Mas eu queria que ele entrasse comigo. Não na disputa. No time.

O ar pesou. Clay pegou o celular. Destravou. Bloqueou. Destravou de novo.  
Por fim, mostrou a tela pra mim. Sem falar nada.

Era o álbum do celular dele. 347 fotos. Todas do Felipe.  
Na última, tirada às 4:12 da manhã, ele mesmo segurava o bebê no colo. Sei quando ele tirou essa foto pelo horário da foto : foi no período quando,  por um milagre , Felipe dormiu três horas seguidas antes da próxima mamada das 6 da manhã e eu aproveitei para cochilar . Como Cléo diz :
— Durma quando ele dormir ! Queria saber que santo fez esse milagre providencial...
Agora já sei o nome do santo! 

Olhei com ternura para a foto...e então ,  vi.

O olho do Clayton estava fechado de sono. Boca aberta igual a do filho. Legenda que ele nunca postou: "Não sei fazer direito. Mas tô aqui".

Meu nariz ardeu.

A psicóloga fechou a pasta de novo.  
— Tarefa pra casa: Clay, você vai tirar uma foto por dia que não seja do Felipe. Uma foto sua. Fazendo qualquer coisa que te lembre que você existe além de pai.  
Cleise, sua tarefa é escolher 5 minutos por dia que não sejam da mãe. 5 minutos só da mulher. Nem que seja pra passar batom e olhar no espelho.

— E nós dois? — perguntei.

— Vocês dois vão jantar juntos uma vez essa semana. Sem celular. Sem falar do bebê nos primeiros 15 minutos.

Clay bufou.  
— Impossível.

— Adultescente acha tudo impossível até tentar — ela sorriu.

Saímos em silêncio. No elevador, Clay quebrou primeiro:  
— Eu não sei tirar foto de mim. Fico esquisito.

Soltei, automática:  
— Fica não, Clayton. Fica parecido com o pai do Felipe.

Ele me olhou. De verdade. Pela primeira vez em semanas, não era o menino birrento. Era o homem assustado tentando aprender a ser os dois.

A porta abriu. E pela primeira vez, eu pensei: talvez dê pra gente se acertar.



terça-feira, 9 de junho de 2026

capítulo 21 - abelha- rainha


Sogra vs. Nora: O que as abelhas de verdade têm a nos ensinar sobre esse "climão" familiar?

"Quem nunca ouviu uma piada de sogra? Ou aquele comentário torto de que "duas mulheres na mesma cozinha não dá certo"? O senso comum adora aplicar o famoso "Mito da Abelha Rainha" nas nossas relações familiares. É aquela velha história: a mulher mais velha (a sogra) quer dominar o território, enquanto a mais jovem (a nora) chega para "roubar" o trono e o coração do filho."
Dei um meio sorriso quando ela arregalou os olhos e exclamou ;
— Carla!
— Só continue a ler, Cleise! 
— ok...- disse , e fingiu ajeitar a manta em torno do Felipe,  antes de dizer:
— Vamos ver onde isso vai dar !
Ela se sentou na cadeira de balanço e começou o movimento de vai e vem enquanto lia :
" Mas e se a gente te contar que essa história de rivalidade feminina é uma baita farsa? E pior: que a biologia real das abelhas prova que a dinâmica de uma família deveria ser exatamente o oposto disso?
Para desconstruir esse mito e entender onde a gente errou na metáfora, vamos olhar para o que realmente acontece dentro de uma colmeia. As contradições são de cair o queixo! "
Ela parou o movimento da cadeira e , com os pés bem apoiados no chão , aproximou os olhos do texto :
— Contradição 1: Quem manda no pedaço? (Spoiler: Ninguém manda sozinha!)
A gente cresce achando que a "mãe da casa" é uma abelha rainha autoritária, que dita todas as regras e não aceita os costumes que a nora traz de fora."
Ela suspirou ao ler o trecho, e a reação dela não me passou despercebida.
"Era exatamente o que queria provocar! Ponto pra mim".

" A realidade da colmeia: Na natureza, a rainha não é uma ditadora. Quem toma as decisões mais importantes do grupo — como a hora de mudar ou de abrir espaço para uma nova geração — são as abelhas operárias, de forma coletiva.
Na vida real, quando rola aquela faísca entre sogra e nora, o problema quase nunca é o "santo que não bateu". O buraco é mais embaixo. A sociedade joga nas costas das mulheres toda a responsabilidade pelo cuidado e bem-estar da casa. Quando o espaço parece pequeno para duas mulheres brilharem, a estrutura força uma competição que nem deveria existir em primeiro lugar.
Contradição 2: O desapego e o direito de voar
O maior clichê de todos: a sogra que não desapega do filho e vê a nora como uma "ameaça" que veio para desestruturar a família.
A realidade da colmeia: Sabe o que a abelha rainha antiga faz quando a colmeia fica cheia e uma nova rainha está para nascer? Ela não sabota a jovem. Pelo contrário! A rainha antiga junta metade do grupo e voa para fundar uma nova colônia, deixando a casa original prontinha e estruturada para a nova líder que está chegando.
Na biologia, maturidade significa entender que o crescimento da família não é uma perda de território, mas sim uma expansão do reino. Há amor, espaço e respeito para que as duas colônias existam e prosperem.
Contradição 3: A receita da "Geleia Real"
Existe um mito de que sogras guardam os segredos da família a sete chaves para manter o controle, e que noras não aceitam conselhos por puro orgulho.
A realidade da colmeia: Para uma nova rainha nascer, o grupo inteiro se une para alimentá-la com o melhor banquete possível: a geleia real. Elas gastam tempo e energia para fazer a nova integrante crescer forte. Elas não veem o sucesso da nova líder como uma ameaça, mas como a única garantia de que a família vai continuar viva e saudável no futuro.
Acolher a nora e dar a ela a nossa "geleia real" (afeto, espaço, validação) é o que garante que a história da família continue sendo escrita com harmonia e leveza.
Menos rivalidade, mais colmeia
O "Mito da Abelha Rainha" na vida familiar só serve para isolar as mulheres e criar barreiras onde deveria existir apoio. Quando sogras e noras se enxergam como rivais, todo mundo perde. Mas quando entendem que fazem parte da mesma colmeia — onde o papel de uma não anula o brilho da outra —, a estrutura inteira fica muito mais forte.
Não precisamos disputar o topo da mesa. A natureza nos ensina que há espaço para todas as rainhas voarem juntas.

Vamos conversar?
Agora eu quero saber de você que está lendo:
  • Você já sentiu, na pele ou vendo de fora, essa pressão invisível para que sogra e nora disputem o "trono" da família?
  • Como você acha que a gente pode quebrar esse ciclo e transformar essa relação em uma parceria de "geleia real"?
Deixe sua história e sua opinião aqui nos comentários! Vamos conversar!

— Quando pedi um texto sobre Dia das mães , eu esperava que viesse algo cheio de babados e jargões próprios desse dia. O que foi isso aqui ?
Não dei o braço a torcer .
— o que achou ? Está bom para o blogTrollados?
— Bem ..De fato , tem tudo a ver com a proposta do Blog...
Mas fala aí , isso foi uma indireta?
— Eu não dou indiretas , Cleise , me conhece há tanto tempo e ainda tem dúvidas ? Claro que foi uma direta , amiga!
Acho que passou da hora de você se posicionar nessa família.

20- Pingos nos is


Carla 

Agora que Mateus já tinha deixado o apartamento, Cléo tinha ido para o tal cliente inesperado e Paula , pra sorte de todos , foi embora antes que o veneno dela fizesse mas mal do que já tinha feito, imaginei que não poderia escapar daquela conversa.

E , de fato, entrei no quarto que seria do casal , e que agora estava ocupado apenas por Cleise, o Felipe, e tudo quanto é tipo apetrecho de bebê. 

Cleise colocou o filho adormecido no berço, sentou na cadeira de balanço e , com estudada formalidade, disse:
— Senta .
Sem outro lugar , sentei na beirada da cama .
Dependendo da situação, seria mais fácil para levantar e ir embora. Esperava que não fosse preciso.
Cleise que eu conhecia não faria isso.

Mas ela estava.. Diferente.
— Como foi na Baía?
" Mingau se come quente ! Por isso , começamos a comer pelas beiradas..."
Essa frase evasiva veio à mente. Respondi no mesmo tom: 
— Foi bom ficar lá. Mas é aquilo , mesmo tendo morado tanto tempo e parecer uma baiana de nascimento, sou mesmo carioca.
Sempre bom voltar pra casa . E o Rio é a minha casa .
— É...

 E,  depois de um tempo, quando ela  parecia estudar as palavras, continuou  :
— E o seu pai , Carlos, ele está melhor? Sei que o caso dele é complicado...
Mas como ele está ? E a tia Gisela , como está lidando com o Alzheimer do marido ?

— Não tem muito o que fazer.
Ele está na fase que  pergunta o que terá no jantar cinco minutos depois de ter ajudado a arrumar a mesa. Ele lembra com clareza de detalhes da infância, mas não lembra que o aconteceu na tarde anterior. 
Também já  vestiu  um casaco pesado em um dia de sol forte , imaginou que era inverno, como quando ele morou em outro país, anos antes de conhecer a mamãe ..ou esqueceu o caminho de volta da padaria da esquina.
— Que chato , Carla . E deve estar difícil custear o tratamento, né ?
— Eu até ajudo como posso, sabe ? Mas sou família. Não só posso como não devo cuidar dele ...não é ético .
— Entendo.
— Mas o dinheiro tem sido um problema– desabafou- Mamãe não sabe muito bem mexer com dinheiro, sempre foi o pai quem fez isso.
E agora ele , que sempre foi bom em finanças, começou a atrasar as contas ou se atrapalha ao calcular o troco. Vira e mexe descobrimos que ele não pagou uma conta porque tivemos algo cortado...
Ele ainda se confunde e chama a "caneta" de "aquela coisa de escrever" porque a palavra exata fugiu da mente...É tanta coisa ao mesmo tempo ...- disse, a frase sumindo aos poucos.

Cleise olhou para mim, com expressão pesarosa.

Mas ela também sentia que eu, sua amiga de infância, a quem conhecia tão bem como se fôssemos  irmãs, ainda queria chegar em algum lugar com aquela conversa toda, por mais que Cleise realmente quisesse saber dos meus pais.

— E quando foi que o Mateus entrou nessa história? - perguntou de supetão .
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Bingo! Como imaginei.
Brinquei com o bebê que estava acordado e mexendo braços e perninhas , como se pudesse realmente tocar o mobile .
Dei corda e começou a tocar "Berceuse"...
Ótimo fundo musical para acalmar os ânimos ! 😜
— Então ...ensaiei .
O que dizer agora ?! 
— Quando cheguei à Baia, a solidão voltou 
Tudo bem que havia a faculdade e tanta coisa pra estudar.
Mas ali não conhecia ninguém, e tudo era tão diferente do que lembrava ...
Eu nasci lá , afinal de contas ! E morei bastante tempo ...
Cresci lá . Mas quando cheguei , não tinha mais as referências que eu conhecia .
Lojas haviam fechados , outras abriram no lugar...
Lembra daquela vez que a gente quis ir à Oceano e o piano bar havia fechado ?

Claro que Cleise lembraria.
Foi quando reencontramos o Clayton depois de tantos anos , na fila da lanchonete nos esperando com aquele " ar Blasé", que me fazia lembrar do Olhar 43 , do RPM.

" E pra você ,
Eu deixo apenas 
Meu olhar 43, aquele assim.
Meio de lado, já saindo embora 
Louco por você , princesa"

Cleise ficou com olhar perdido , com certeza lembrando daqueles tempos felizes, muito mais calmos do que a maternidade  real , muito diferente do que costumam idealizar em sites e revistas especializadas .

Foram momentos especiais, regados a nascer do sol ao som do violão do Clayton. Eu também sentia falta deles...

Mas Cleise, sempre esperta, retomou o assunto principal:

— Agora vamos retomar você e o Mateus! Amiga, ele te traiu ! Como você perdoou isso?

Não tinha mais como evitar .
Abri os braços ,como dissesse abraçar o mundo...ou a mim mesma.

— Tudo que posso dizer é que eu me senti sozinha! Era tanta coisa acontecendo, em casa...
Eu não tinha um minuto de paz .

Saber a teoria é muito diferente de estar no meio do problema, Cleise.
A teoria se esvai quando a solidão bate.

Cleise olhou e me deu um sorriso cumplice . 

Como ela entendia o que significava solidão , pois estava cercada por pessoas e terrivelmente só.

— E como Mateus entrou na história?

— Era uma festa para os calouros, para comemorar o final daquele período.
Eu queria me enturmar , quem sabe ?! Então , reuni coragem e fui.

Havia veteranos por lá , não só do curso de  Psicologia ,como também veteranos , tanto de Psicologia quanto de outros cursos
.
Por coincidência, Mateus estava fazendo pós-graduação lá na faculdade, e também foi à festa. 

— Sozinho?

— Claro né ! - ri - sou doida mas não sou louca!

Cleise riu também. Eu tinha uns ditados muito meus , e Cleise sempre os achou divertido.
Eu tinha saudade de ver Cleise sorrindo .
" Pensando bem...Ainda não tinha visto Cleise sorrir desde que cheguei. Isso é estranho..."

—... E olha que nem é escritora , que fiz  faculdade de jornalismo! 

Perdi o fio da meada pois estava perdida em pensamento. Então fiz um providencial:
— Humhum!

E emendei um assunto antes que ela percebesse que divaguei e não ouvi uma palavra do que disse: 

— Ele se aproximou . Eu tinha bebido um pouquinho mais ,sabe como é. Quando eu o vi parece que tudo voltou , foda- se o bom senso! Quando dei por mim, a gente estava se beijando!

— E depois? – Ela falou baixinho porque Felipe resmungou no berço, para que ele continuasse dormindo.

— Depois a gente teve que conversar. Foi inevitável colocar os pingos nos is...
— E ele ?
— Ele pediu perdão .
Na boa, Cleide  ? O que eu tinha a perder né?
Fui curtir um pouco. Confesso que,no início , eu o estava usando e,  provavelmente, ele fazia o mesmo !

Eu queria sair da solidão e ele, queria ter uma garota para desfilar para os amigos .

Eles já estavam na casa dos 30 anos,né ?
A maioria ali,  ou estava noivo, ou casado - embora as puladas de cerca também aconteciam...é claro ! Mas isso é um outro assunto...

O que importa é que a gente se acertou e ao longo dos meses ele se mostrou mais maduro, mais amigo... Principalmente quando a barra lá em casa passou a pesar demais .

— Entendi...Isso entendi. Mas precisava ficar noiva dele ? De novo, amiga?!

—Olha, amiga...Não tenho explicação. A não ser que eu o amo, e estou apostando que vai dar certo...dessa vez.

Cleise , sem que desse conta do que fazia, desviou o olhar em direção ao quarto , transformado eu ateliê.

— Eu também, Carla ! 

Carla e Cleise se abraçaram , tendo aos pés de Cleise o fiel cão Akira, que também retornara para a casa dele pois ,onde quer que Cleise estivesse, ali era o seu lar.




sexta-feira, 1 de maio de 2026

capítulo 19- Presente na Porta , Faca na Pia , Husky no Meio


Presente na Porta, Faca na Pia, Husky no Meio


Cleise

Nove da manhã em ponto. Batida na porta. Três toques. Secos. Ensaiados.

Antes de eu abrir, Akira Kurosawa já estava postado na sala. Sentado. Coluna ereta. Orelhas em pé. Rabo fazendo varredura no chão como detector de mentira.

Husky siberiano não late à toa. Ele julga. E ele já tinha julgado que hoje era dia de audiência.

Abri a porta com Felipe no colo. Paula na soleira, sacola cara na mão, gótica chic das nove às nove.

— Bom dia. Trouxe um presente pro Felipe.

Akira levantou. Só isso. Não rosnou. Não abanou o rabo. Levantou, olhou pra Paula por dois segundos e virou de costas. Voltou a sentar entre eu e o berço, de frente pra ela, de costas pra ela.

Recado dado. Husky não manda indireta. Manda direta sem legenda.

Paula piscou. A única rachadura na armadura desde que chegou.

— Oi, Akira... — tentou, voz de quem chama Uber.

Akira bocejou. Teatro puro. Depois deitou a cabeça no meu joelho. Meu. Não dela.

Contexto pra quem chegou agora: Akira foi o jeito que Paula encontrou de “comprar o amor do filho” anos atrás. Deu o husky pro Clayton quando ele ainda morava com a Cléo. Deu errado. Clayton não ficou. O cachorro sim. Hoje Akira mora com a Cléo, mas como advogada virou babá em tempo integral da mãe de primeira viagem, o cachorro se mudou pro meu apartamento. Temporário. Igual à paz.

Cléo apareceu na sala vindo da cozinha. De tailleur, pronta pra audiência das 11h. Viu Paula. Viu Akira de costas pra Paula. E eu juro que vi o canto da boca dela subir 2 milímetros. Vitória pequena, tribunal interno.

— Gente, senta — falei — A Carla já tá vindo com o Mateus. A gente precisa falar do batizado.

Paula ergueu a sobrancelha desenhada no CREA.

— Batizado?

Cléo cruzou os braços. 

— Católico. Apostólico. Romano. — Bateu o martelo sem madeira — A família do Clayton faz questão. Eu e Cleise também.

Akira rosnou baixinho. Não pra Cléo. Pro nome “Clayton” na boca da Paula, que ela ainda ia dizer. Husky tem memória e faro pra intenção.

Paula colocou a sacola na mesa. Tirou uma mantinha de cashmere branca.

— Trouxe pra ele usar na cerimônia. Caso eu seja convidada, claro.

Akira levantou de novo. Cheirou a mantinha de longe. Espirrou. Deitou. Veto canino registrado em ata.

Campainha. Carla e Mateus. Bolo de cenoura na mão, aliança no bolso. 

Akira foi até a porta antes de mim. Cheirou a canela da Carla, abanou o rabo. Uma vez. Cheirou o Mateus. Parou. Encarou. Mateus deu um passo pra trás. Akira sentou. Liberação concedida, mas em condicional. Cachorro é melhor que detector de traição.

— A gente trouxe o bolo pra comemorar os padrinhos — Mateus tentou.

Paula virou pra Carla com sorriso nota de três:

— Que lindo, Carla. Você perdoando traição. Tão... católico da sua parte.

Akira rosnou. Alto. Seco. Pra Paula. Pela primeira vez em 10 minutos ele reconheceu a existência dela. Pra discordar.

Cléo segurou o riso com a mão. Perdeu. Deu pra ouvir.

Carla respirou fundo, modo psicóloga:

— Paula, eu e Mateus estamos reconstruindo. — Olhou pra Akira — E pelo visto vamos ter que reconstruir com o júri também.

Clayton apareceu do ateliê. Camiseta manchada, violão na mão. Akira saiu de perto de mim na hora. Foi postar-se entre o Clayton e o Felipe. Entre o Clayton e eu. Formação de segurança. Porque husky protege a matilha, não o dono.

— Bom dia... — Clayton avaliou a sala — Já começaram sem mim?

Paula mirou nele:

— Clayton. Meu filho. Me diz: sua mãe biológica não tem direito de assistir o batizado do neto?

Akira deitou no pé do berço. Corpo inteiro bloqueando o acesso. Resposta não verbal número três.

Cléo entrou:

— Direito tem. Convite é outra coisa. — Virou pra mim — Cleise, como mãe, a decisão final é sua. Jornalista ou mãe, quem fala agora?

Felipe resolveu vomitar no meu ombro. Akira levantou na hora, cheirou o ar, lambeu minha mão. Checagem de bem-estar. Depois voltou pro posto no berço. 

Limpei com a fraldinha. A que a Paula dobrou em triângulo. Akira bufou. Até ele achava aquela fraldinha suspeita.

— O batizado vai ser na Igreja da Matriz. Sábado que vem. Às dez. — Falei — A Carla e o Mateus são os padrinhos. A família toda tá convidada.

Pausa.

— E eu quero uma foto no altar. Com as duas avós. Uma de cada lado do Felipe. Sorrindo. Pelo menos na foto.

Akira bocejou de novo. Tédio ou deboche, nunca sei.

Paula me olhou. Cléo me olhou. Não se olharam. Akira olhou pra Felipe. Só pra Felipe.

Clayton começou a dedilhar Evidências. Akira uivou junto no refrão. Afinado. Julgamento estético também é com ele.

Carla cortou o bolo. Mateus colocou a aliança. Tremendo. Akira farejou a mão dele depois. Assentiu com a cabeça. Contrato de condicional assinado.

E eu sentei na cadeira de balanço com Felipe. Akira deitado no meu pé, olhos na porta, olhos na Paula, olhos em todo mundo.

Guerra declarada. Café fresquinho. Bolo de cenoura. Husky na tribuna.

Que o santo seja forte. Porque o Akira já é.

capítulo 18


---


"A casa ficando vazia*

carla 

Carla acordou com o choro do Felipe às 5:47 da manhã. O corpo dela, acostumado a madrugadas de plantão, respondeu antes do cérebro.

Cleise já estava de pé, encostada no batente da janela, com o bebê no colo. Não ninava. Só segurava, olhando pro jardim como se esperasse alguém voltar.

— Te acordei? — Cleise perguntou sem tirar os olhos lá de fora.

— Profissionalmente, eu chamo isso de “ser chamada” — Carla sentou na cama, catando o cabelo num coque. — Posso?

Cleise assentiu e passou o Lucas pra ela. O alívio nos braços da amiga foi imediato e visível. Um detalhe que Carla anotou sem julgar.

O silêncio da casa era diferente hoje. Mais oco.

— A Cleo já saiu — Cleise disse, como se respondesse a pergunta que Carla ainda não tinha feito. — Foi resolver a mudança dela. Disse que não pode adiar mais. Volta de tarde só pra buscar as últimas caixas. E o Akira.

Akira Kurosawa. O husky siberiano que uivava pra lua e derrubava a gente de alegria na porta. Era do Clayton, filho da Cleo de consideração. Mas ficou com ela porque o apartamento de Cleise era pequeno demais pra um cachorro que foi feito pra puxar trenó.

— Ele vai sentir falta daqui — Carla comentou, testando o terreno. O Felipe cheirava a leite e sono na curva do pescoço dela. — E vocês dele.

— É — Cleise deu de ombros. Um gesto mínimo que doeu mais que frase inteira. — A casa da Cleo no Recreio é gigante. Lá ele pode correr. Aqui... aqui tá tudo pequeno demais ultimamente.

Carla entendeu o subtexto. Não era sobre metragem. Era sobre fôlego.

Ela esperou o Felipe arrotar no ombro dela, deu duas batidinhas, e só então perguntou, casual:

— E o Roberto?

O nome do marido bateu no ar e ficou lá, suspenso, como poeira. Cleise fechou a cara por um segundo. Não de raiva. De cansaço.

— Trancado no ateliê desde que o Lucas nasceu — ela respondeu, mexendo no próprio cabelo, puxando um fio. — Diz que “precisa criar”. Que a cabeça dele tá “um caos fértil”. Ontem eu bati na porta. Três vezes. Ele nem abriu. Só passou um bilhete por baixo: “Esquenta uma marmita pra mim”.

Carla sentiu o maxilar travar. Como psicóloga, ela conhecia o discurso. Isolamento criativo. Como amiga da Cleise, ela conhecia a palavra certa: abandono.

— Ele já pegou o bebê no colo alguma vez? — Carla perguntou. Precisava saber o tamanho do buraco.

Cleise demorou pra responder. Quando respondeu, foi olhando pro chão.

— No hospital. Pra foto.

Pronto. O segundo dominó tinha caído. Primeiro foi o medo verbalizado na noite anterior. Agora era a confirmação do isolamento. A rede de apoio não estava só furada. Estava sendo desmontada peça por peça.

Lá embaixo, ouviram o portão. Depois, um uivo longo e grave que subiu pelas escadas. Akira Kurosawa tinha sentido a Cleo chegar.

— Ela veio buscar ele — Cleise sussurrou. E pela primeira vez desde que o Felipe nasceu, duas lágrimas desceram, rápidas. Não era pelo cachorro. Era por tudo que o cachorro representava: barulho, vida, visita, uma desculpa pra abrir a porta de casa.

Carla devolveu a criança pra Cleise, mas dessa vez ficou com a mão no braço dela. Âncora.

— Cleo — Carla chamou quando ouviram os passos dela na escada —, espera um segundo antes de descer com ele?

Cleo apareceu na porta do quarto. Mulher de uns sessenta, cabelo curto, argolas grandes. Tinha olheiras de quem também não dormia, mas era de preocupação, não de puerpério. Segurava a guia do Akira na mão.

— Oi, Carla — ela forçou um sorriso. — Já tô indo. Não quero atrapalhar.

— Você não atrapalha — Carla disse, firme. — Você segura. E a gente tá precisando de quem segura.

Cleo entrou. Akira veio atrás, um trator de pelo branco e cinza, e enfiou o focinho gelado na perna de Cleise. Ela se desmanchou. Choro de verdade, agora, enterrando os dedos no pelo do cachorro.

— Ai, meu filho — Cleo se ajoelhou também, abraçando os dois. — Eu não queria ir agora. Mas a casa já tá alugada, e o Clayton...

— Eu sei — Cleise soluçou. — Eu sei. Desculpa. É que quando você for, vai ficar só...

Ela não completou. Não precisava. “Só eu e o fantasma do Roberto no ateliê”.

Carla respirou fundo. Hora de usar a técnica, mas com afeto.

— Certo — ela bateu uma palma, leve, chamando as duas pro plano. — A gente não vai resolver a vida toda hoje. Hoje a gente resolve as próximas seis horas. Cleo, você pode adiar o Akira em uma semana? Só uma. A gente paga o pet shop, o que for. Cleise, você e eu vamos tomar café. Um café decente, com pão na chapa. E depois — ela ergueu o dedo, olhando pra porta do corredor, onde ficava o ateliê — a gente vai bater naquela porta. Juntas.

— Ele não vai abrir — Cleise disse, automática.

— Pra você, talvez não — Carla deu de ombros, imitando o gesto dela de mais cedo. — Mas pra fome, ele abre. E pra uma psicóloga amiga da esposa dele com um husky siberiano de 30kg arranhando a porta, ele abre também.

Cleo soltou uma risada de surpresa. A primeira da manhã.

— Você é doida, Carla.

— Sou — Carla piscou. — E tô de plantão.

Akira latiu, uma vez, como se votasse a favor. Felipe, no colo da mãe, abriu um olho, julgou a bagunça toda, e voltou a dormir.

Pela janela, o sol de manhã batia no jardim. A casa ainda ia ficar vazia. Mas não hoje. Hoje, eles tinham comprado mais um dia. E às vezes, no puerpério, um dia é um país inteiro.

---

*

Carla acordou com o choro do Felipe às 5:47 da manhã. O corpo dela, acostumado a madrugadas de plantão, respondeu antes do cérebro. 

Cleise já estava de pé, encostada no batente da janela, com o bebê no colo. Não ninava. Só segurava, olhando pro jardim como se esperasse alguém voltar.

— Te acordei? — Cleise perguntou sem tirar os olhos lá de fora.

— Profissionalmente, eu chamo isso de “ser chamada” — Carla sentou na cama, catando o cabelo num coque. — Posso?

Cleise assentiu e passou o Felipe  pra ela. O alívio nos braços da amiga foi imediato e visível. Um detalhe que Carla anotou sem julgar.

O silêncio da casa era diferente hoje. Mais oco.

— A Cleo já saiu — Cleise disse, como se respondesse a pergunta que Carla ainda não tinha feito. — Foi resolver a mudança dela. Disse que não pode adiar mais. Volta de tarde só pra buscar as últimas caixas. E o Akira.

Akira Kurosawa. O husky siberiano que uivava pra lua e derrubava a gente de alegria na porta. Era do Clayton, filho da Cleo de consideração. Mas ficou com ela porque o apartamento de Cleise era pequeno demais pra um cachorro que foi feito pra puxar trenó.

— Ele vai sentir falta daqui — Carla comentou, testando o terreno. O Felipe cheirava a leite e sono na curva do pescoço dela. — E vocês dele.

— É — Cleise deu de ombros. Um gesto mínimo que doeu mais que frase inteira. — A casa da Cleo no Recreio é gigante. Lá ele pode correr. Aqui... aqui tá tudo pequeno demais ultimamente.

Carla entendeu o subtexto. Não era sobre metragem. Era sobre fôlego.

Ela esperou o bebê  arrotar no ombro dela, deu duas batidinhas, e só então perguntou, casual:

— E o Clayton?

O nome do marido bateu no ar e ficou lá, suspenso, como poeira. Cleise fechou a cara por um segundo. Não de raiva. De cansaço.

— Trancado no ateliê desde que o Felipe nasceu — ela respondeu, mexendo no próprio cabelo, puxando um fio. — Diz que “precisa criar”. Que a cabeça dele tá “um caos fértil”. Ontem eu bati na porta. Três vezes. Ele nem abriu. Só passou um bilhete por baixo: “Esquenta uma marmita pra mim”.

Carla sentiu o maxilar travar. Como psicóloga, ela conhecia o discurso. Isolamento criativo. Como amiga da Cleise, ela conhecia a palavra certa: abandono.

— Ele já pegou o Felipe no colo alguma vez? — Carla perguntou. Precisava saber o tamanho do buraco.

Cleise demorou pra responder. Quando respondeu, foi olhando pro chão.

— No hospital. Pra foto. 

Pronto. O segundo dominó tinha caído. Primeiro foi o medo verbalizado na noite anterior. Agora era a confirmação do isolamento. A rede de apoio não estava só furada. Estava sendo desmontada peça por peça.

Lá embaixo, ouviram o portão. Depois, um uivo longo e grave que subiu pelas escadas. Akira Kurosawa tinha sentido a Cleo chegar.

— Ela veio buscar ele — Cleise sussurrou. E pela primeira vez desde que o Felipe nasceu, duas lágrimas desceram, rápidas. Não era pelo cachorro. Era por tudo que o cachorro representava: barulho, vida, visita, uma desculpa pra abrir a porta de casa.

Carla devolveu o " embrulhimho cheirando a talco e leite " pra Cleise, mas dessa vez ficou com a mão no braço dela. Âncora.

— Cleo — Carla chamou quando ouviram os passos dela na escada —, espera um segundo antes de descer com ele?

Cleo apareceu na porta do quarto. Mulher de uns sessenta, cabelo curto, argolas grandes. Tinha olheiras de quem também não dormia, mas era de preocupação, não de puerpério. Segurava a guia do Akira na mão.

— Oi, Carla — ela forçou um sorriso. — Já tô indo. Não quero atrapalhar. 

— Você não atrapalha — Carla disse, firme. — Você segura. E a gente tá precisando de quem segura.

Cleo entrou. Akira veio atrás, um trator de pelo branco e cinza, com olhos azuis como céu, e enfiou o focinho gelado na perna de Cleise. Ela se desmanchou. Choro de verdade, agora, enterrando os dedos no pelo do cachorro.

— Ai, meu filho — Cleo se ajoelhou também, abraçando os dois. — Eu não queria ir agora. Mas a casa já tá apertada , e o Clayton...

— Eu sei — Cleise soluçou. — Eu sei. Desculpa. É que quando você for, vai ficar só... 

Ela não completou. Não precisava. “Só eu e o fantasma do Clay no ateliê”.

Carla respirou fundo. Hora de usar a técnica, mas com afeto.

— Certo — ela bateu uma palma, leve, chamando as duas pro plano. — A gente não vai resolver a vida toda hoje. Hoje a gente resolve as próximas seis horas. Cleo, você pode adiar o Akira em uma semana? Só uma. A gente paga o pet shop, o que for. Cleise, você e eu vamos tomar café. Um café decente, com pão na chapa. E depois — ela ergueu o dedo, olhando pra porta do corredor, onde ficava o ateliê — a gente vai bater naquela porta. Juntas.

— Ele não vai abrir — Cleise disse, automática.

— Pra você, talvez não — Carla deu de ombros, imitando o gesto dela de mais cedo. — Mas pra fome, ele abre. E pra uma psicóloga amiga da esposa dele com um husky siberiano de 30kg arranhando a porta, ele abre também.

Cleo soltou uma risada de surpresa. A primeira da manhã.

— Você é doida, Carla.

— Sou — Carla piscou. — E tô de plantão.

Akira latiu, uma vez, como se votasse a favor. Felipe , no colo da mãe, abriu um olho, julgou a bagunça toda, e voltou a dormir. 

Pela janela, o sol de manhã batia no jardim. A casa ainda ia ficar vazia. Mas não hoje. Hoje, eles tinham comprado mais um dia. E às vezes, no puerpério, um dia é um país inteiro.



*

17 -o elefante na sala

Carla 

"Paula foi embora e Cleo foi atender a um antigo cliente. Embora aposentada , ela não podia dizer não a quem pedisse socorro , e foi o que ele fez: implorou um socorro urgente.
Clayton por sua vez ,ainda com comportamento de depressão pós parto masculina ...
Coitada da minha amiga ..."
Terminei de arrumar a cozinha .
Pensei que ia sair uma guerra , mas a tapioca com requeijão e carne seca só fez todo mundo ficar de boca cheia e não falar besteira.
Fui em silêncio até o quarto da Cleise e bati na porta devagar .
Ela falou entra bem baixinho e entendi , o anjinho estava dormindo , finalmente.
Coisa boa essa fase , pelo menos ainda não começaram as cólicas ...
Olhei pra Cleise." É,amiga , nem imagina o que te aguarda"
A irmã do Mateus também está com bebê recém nascido...Mais uma razão para eu vir ver a Cleise.
**
O quarto cheirava a lenço umedecido e leite. Carla não perguntou nada. Só empurrou a porta com o quadril porque as duas mãos seguravam uma caneca fumegante.
 — Trouxe chá. Sem cafeína. E roubei um pedaço daquela goiabada que você escondeu da sua mãe — ela sorriu, colocando a caneca na mesinha. — Pra gente. Não pro bebê.

 Cleise estava na poltrona de amamentação, mas o bebê dormia no berço. Ela olhava pro vazio.

— Não vejo minha mãe faz um tempo...e ela nem gosta de goiabada .
Carla riu .
— Falei da sua mãe de consideração...a Cléo, vejo a relação de vocês duas ...é mais que carinho de avó...sabe disso !

 Carla se sentou na beirada da cama, não na poltrona de frente. Lado a lado é menos confronto.

— O puerpério é um país estranho, né? — Carla disse baixo. — Dizem que é amor à primeira vista, mas esquecem de avisar que a gente chega lá depois de uma guerra, sem dormir e sangrando.
 
Cleise deu uma risada curta, que virou soluço. 

 — É exatamente isso.

 Carla pegou o chá pra Cleise, esquentando as mãos dela com a caneca. 

 — Sabe, na faculdade a gente estuda uma coisa chamada ‘baby blues’. Atinge tipo 80% das mães. É o corpo despencando de hormônio, é o susto, é o medo. Dá uma tristeza do nada, um choro... dura uns 15 dias. É esperado.

 Ela fez uma pausa, olhando pro berço. 
 — O que me preocupa, como sua amiga, não como psicóloga, é quando passa de 15 dias e a gente continua se sentindo no fundo do poço. Quando o amor pelo bebê vem com uma culpa gigante junto. Ou quando a gente começa a ter uns pensamentos que assustam.

 Carla olhou pra Cleise. Não era pergunta. Era uma porta aberta.


 Cleise não respondeu. Os dedos dela alisaram a borda da caneca, sem parar. Uma, duas, dez vezes. Quando falou, a voz saiu arranhada:
 
 — E se eu... se eu me arrepender?

 O coração da Carla apertou. Diagnóstico não era a palavra da hora. A palavra era “eu tô aqui”.

 — Então a gente fala sobre esse arrependimento — Carla disse, simples. — Sem julgamento. Sem chamar a polícia da maternidade perfeita. Só você e eu, com esse chá ruim.
 
Ela não tocou no termo “depressão pós-parto”. Mas já estava pensando em 2 coisas: 1. Tirar a Cleise do isolamento. 2. Sugerir uma consulta com a obstetra + psicóloga perinatal, “só pra checar os hormônios e o sono”.

 — Se é verdade ou não eu não sei — Cleise repetiu a frase que o avô dela vivia dizendo, olhando pro bebê —, mas eu ando com medo de ficar sozinha com ele. 

— Então você não vai ficar. Hoje eu durmo aqui. A gente vê a madrugada juntas. E amanhã a gente liga pra Dra. Sônia, tá? Não porque você tá “doente”. Porque você acabou de fazer um humano. E isso merece uma equipe.