Cleise
O padre Waldir tinha batizado o Felipe dez minutos antes com três avós e nenhum avô na certidão. Ele olhou pra pia ainda molhada, pro Felipe fazendo bico no colo da Cléo, e disse:
— Já que vocês já estragaram todos os planos mesmo. Já que a menino já nasceu, já foi batizado, já fez xixi na avó. Vocês não querem casar logo de uma vez?
O meu padrasto, o Roberto, que me criou desde os 10, colocou a mão no ombro da Margarida.
— Deixa, Margarida. A festa é eles ficarem.
No altar, no lugar da mãe que morreu e do pai que não existe, estavam a Cléo segurando o Felipe e a Dona Lizete, a avó do Clayton que foi mãe dele no papel pra esconder o mau passo da filha perfeita. Senhor Paulo, não disse uma só palavra. Nem precisava, a presença dele já dizia tudo.
Duas senhoras que começaram iguais no Instituto de Educação, no curso Normal, junto com a minha mãe e com a Gisela, mãe da Carla. Naquela época toda mulher tinha que ser professora, mesmo sem vocação. Só a minha mãe seguiu. A Gisela virou dona de casa, a Paula virou dondoca gótica, a Cléo virou advogada. Quatro meninas iguais e quatro destinos diferentes. Igual a gente agora.
No segundo banco, a Carla chorava sozinha.
Sozinha. Sem o Mateus.
O Mateus, o engenheiro da Bahia que ela conheceu quando o pai militar foi transferido, com quem ela foi morar apaixonada, que os pais não aprovaram. O Mateus que veio a tiracolo pro Rio quando ela voltou pra apagar meu incêndio, porque eu estava depressiva. Eu via a minha depressão e ela não via quem era o Mateus. Ela, psicóloga formada, ficou noiva dele mesmo assim. Contraditória que só ela.
E agora ela estava sozinha na igreja. Sem aliança. Sem precisar explicar nada.
Eu vi. Ela viu que eu vi. Eu não comentei. Não perguntei onde estava o Mateus, nem por que ela tirou a aliança. Pela primeira vez eu não fiz a lista de supermercado do ressentimento da amiga.
Eu só estiquei a mão e apertei a mão dela por cima do banco.
Ela apertou de volta. Forte. Como se eu é que fosse a psicóloga naquele instante. Como se agradecesse por eu não ter perguntado.
O Clayton estava na minha frente, de calça jeans e com a aliança que eu tinha deixado na carteira.
— Você quer casar comigo sem querer ou querendo? — eu perguntei.
— Querendo. Pela primeira vez querendo sem ser sem querer.
A gente beijou. O Felipe chorou alto.
Na saída, a Carla veio tirar a foto torta na escada, com o Felipe no colo da Cléo, com a Dona Lizete e o senhor Paulo, com a Margarida com o Roberto ao lado e com a Dra. Marta ao fundo.
Ela olhou pro meu celular, onde eu escrevia a legenda pro blog.
Ela olhou para o meu celular, acompanhando o bipe agudo que cada tecla fazia enquanto eu rascunhava a legenda do blog na tela azulada.
— Que Projeto Fraldas, Cleise? O nome do seu blog é Trollados.
Eu respondi por ela. Pela primeira vez sem raiva.
— Era Trollados, Carla. A gente trocou para Projeto Fraldas. O difícil não era trocar fralda. O difícil era trocar de plano. E a gente trocou.
A Carla sorriu. Um sorriso de quem também tinha trocado de plano naquela manhã, sozinha, sem precisar explicar para ninguém.
Ela deu as costas e caminhou até o degrau da igreja, onde os outros esperavam. Do meu bolso, tirei a Cyber-shot. A lente se estendeu com um zunido mecânico. Dei um passo à frente, passei o braço pelo pescoço da Carla e virei a câmera contra nós duas, esticando o braço ao máximo. Fiquei semicerrando os olhos, tentando adivinhar pelo reflexo do vidro da lente se o topo da cabeça do bebê não ia sair cortado.
— Olha para cá! — avisei, tateando o botão às cegas.
O bipe eletrônico disparou com o estalo do flash, congelando a Carla de jeans, esporte fino e nós três espremidos num enquadramento torto.
Horas depois, no computador de casa, postei a foto exatamente daquele jeito. Direto da máquina, sem nem tirar o olho vermelho do flash."