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sexta-feira, 1 de maio de 2026

capítulo 19- Presente na Porta , Faca na Pia , Husky no Meio


Presente na Porta, Faca na Pia, Husky no Meio


Cleise

Nove da manhã em ponto. Batida na porta. Três toques. Secos. Ensaiados.

Antes de eu abrir, Akira Kurosawa já estava postado na sala. Sentado. Coluna ereta. Orelhas em pé. Rabo fazendo varredura no chão como detector de mentira.

Husky siberiano não late à toa. Ele julga. E ele já tinha julgado que hoje era dia de audiência.

Abri a porta com Felipe no colo. Paula na soleira, sacola cara na mão, gótica chic das nove às nove.

— Bom dia. Trouxe um presente pro Felipe.

Akira levantou. Só isso. Não rosnou. Não abanou o rabo. Levantou, olhou pra Paula por dois segundos e virou de costas. Voltou a sentar entre eu e o berço, de frente pra ela, de costas pra ela.

Recado dado. Husky não manda indireta. Manda direta sem legenda.

Paula piscou. A única rachadura na armadura desde que chegou.

— Oi, Akira... — tentou, voz de quem chama Uber.

Akira bocejou. Teatro puro. Depois deitou a cabeça no meu joelho. Meu. Não dela.

Contexto pra quem chegou agora: Akira foi o jeito que Paula encontrou de “comprar o amor do filho” anos atrás. Deu o husky pro Clayton quando ele ainda morava com a Cléo. Deu errado. Clayton não ficou. O cachorro sim. Hoje Akira mora com a Cléo, mas como advogada virou babá em tempo integral da mãe de primeira viagem, o cachorro se mudou pro meu apartamento. Temporário. Igual à paz.

Cléo apareceu na sala vindo da cozinha. De tailleur, pronta pra audiência das 11h. Viu Paula. Viu Akira de costas pra Paula. E eu juro que vi o canto da boca dela subir 2 milímetros. Vitória pequena, tribunal interno.

— Gente, senta — falei — A Carla já tá vindo com o Mateus. A gente precisa falar do batizado.

Paula ergueu a sobrancelha desenhada no CREA.

— Batizado?

Cléo cruzou os braços. 

— Católico. Apostólico. Romano. — Bateu o martelo sem madeira — A família do Clayton faz questão. Eu e Cleise também.

Akira rosnou baixinho. Não pra Cléo. Pro nome “Clayton” na boca da Paula, que ela ainda ia dizer. Husky tem memória e faro pra intenção.

Paula colocou a sacola na mesa. Tirou uma mantinha de cashmere branca.

— Trouxe pra ele usar na cerimônia. Caso eu seja convidada, claro.

Akira levantou de novo. Cheirou a mantinha de longe. Espirrou. Deitou. Veto canino registrado em ata.

Campainha. Carla e Mateus. Bolo de cenoura na mão, aliança no bolso. 

Akira foi até a porta antes de mim. Cheirou a canela da Carla, abanou o rabo. Uma vez. Cheirou o Mateus. Parou. Encarou. Mateus deu um passo pra trás. Akira sentou. Liberação concedida, mas em condicional. Cachorro é melhor que detector de traição.

— A gente trouxe o bolo pra comemorar os padrinhos — Mateus tentou.

Paula virou pra Carla com sorriso nota de três:

— Que lindo, Carla. Você perdoando traição. Tão... católico da sua parte.

Akira rosnou. Alto. Seco. Pra Paula. Pela primeira vez em 10 minutos ele reconheceu a existência dela. Pra discordar.

Cléo segurou o riso com a mão. Perdeu. Deu pra ouvir.

Carla respirou fundo, modo psicóloga:

— Paula, eu e Mateus estamos reconstruindo. — Olhou pra Akira — E pelo visto vamos ter que reconstruir com o júri também.

Clayton apareceu do ateliê. Camiseta manchada, violão na mão. Akira saiu de perto de mim na hora. Foi postar-se entre o Clayton e o Felipe. Entre o Clayton e eu. Formação de segurança. Porque husky protege a matilha, não o dono.

— Bom dia... — Clayton avaliou a sala — Já começaram sem mim?

Paula mirou nele:

— Clayton. Meu filho. Me diz: sua mãe biológica não tem direito de assistir o batizado do neto?

Akira deitou no pé do berço. Corpo inteiro bloqueando o acesso. Resposta não verbal número três.

Cléo entrou:

— Direito tem. Convite é outra coisa. — Virou pra mim — Cleise, como mãe, a decisão final é sua. Jornalista ou mãe, quem fala agora?

Felipe resolveu vomitar no meu ombro. Akira levantou na hora, cheirou o ar, lambeu minha mão. Checagem de bem-estar. Depois voltou pro posto no berço. 

Limpei com a fraldinha. A que a Paula dobrou em triângulo. Akira bufou. Até ele achava aquela fraldinha suspeita.

— O batizado vai ser na Igreja da Matriz. Sábado que vem. Às dez. — Falei — A Carla e o Mateus são os padrinhos. A família toda tá convidada.

Pausa.

— E eu quero uma foto no altar. Com as duas avós. Uma de cada lado do Felipe. Sorrindo. Pelo menos na foto.

Akira bocejou de novo. Tédio ou deboche, nunca sei.

Paula me olhou. Cléo me olhou. Não se olharam. Akira olhou pra Felipe. Só pra Felipe.

Clayton começou a dedilhar Evidências. Akira uivou junto no refrão. Afinado. Julgamento estético também é com ele.

Carla cortou o bolo. Mateus colocou a aliança. Tremendo. Akira farejou a mão dele depois. Assentiu com a cabeça. Contrato de condicional assinado.

E eu sentei na cadeira de balanço com Felipe. Akira deitado no meu pé, olhos na porta, olhos na Paula, olhos em todo mundo.

Guerra declarada. Café fresquinho. Bolo de cenoura. Husky na tribuna.

Que o santo seja forte. Porque o Akira já é.

capítulo 18


---


"A casa ficando vazia*

carla 

Carla acordou com o choro do Felipe às 5:47 da manhã. O corpo dela, acostumado a madrugadas de plantão, respondeu antes do cérebro.

Cleise já estava de pé, encostada no batente da janela, com o bebê no colo. Não ninava. Só segurava, olhando pro jardim como se esperasse alguém voltar.

— Te acordei? — Cleise perguntou sem tirar os olhos lá de fora.

— Profissionalmente, eu chamo isso de “ser chamada” — Carla sentou na cama, catando o cabelo num coque. — Posso?

Cleise assentiu e passou o Lucas pra ela. O alívio nos braços da amiga foi imediato e visível. Um detalhe que Carla anotou sem julgar.

O silêncio da casa era diferente hoje. Mais oco.

— A Cleo já saiu — Cleise disse, como se respondesse a pergunta que Carla ainda não tinha feito. — Foi resolver a mudança dela. Disse que não pode adiar mais. Volta de tarde só pra buscar as últimas caixas. E o Akira.

Akira Kurosawa. O husky siberiano que uivava pra lua e derrubava a gente de alegria na porta. Era do Clayton, filho da Cleo de consideração. Mas ficou com ela porque o apartamento de Cleise era pequeno demais pra um cachorro que foi feito pra puxar trenó.

— Ele vai sentir falta daqui — Carla comentou, testando o terreno. O Felipe cheirava a leite e sono na curva do pescoço dela. — E vocês dele.

— É — Cleise deu de ombros. Um gesto mínimo que doeu mais que frase inteira. — A casa da Cleo no Recreio é gigante. Lá ele pode correr. Aqui... aqui tá tudo pequeno demais ultimamente.

Carla entendeu o subtexto. Não era sobre metragem. Era sobre fôlego.

Ela esperou o Felipe arrotar no ombro dela, deu duas batidinhas, e só então perguntou, casual:

— E o Roberto?

O nome do marido bateu no ar e ficou lá, suspenso, como poeira. Cleise fechou a cara por um segundo. Não de raiva. De cansaço.

— Trancado no ateliê desde que o Lucas nasceu — ela respondeu, mexendo no próprio cabelo, puxando um fio. — Diz que “precisa criar”. Que a cabeça dele tá “um caos fértil”. Ontem eu bati na porta. Três vezes. Ele nem abriu. Só passou um bilhete por baixo: “Esquenta uma marmita pra mim”.

Carla sentiu o maxilar travar. Como psicóloga, ela conhecia o discurso. Isolamento criativo. Como amiga da Cleise, ela conhecia a palavra certa: abandono.

— Ele já pegou o bebê no colo alguma vez? — Carla perguntou. Precisava saber o tamanho do buraco.

Cleise demorou pra responder. Quando respondeu, foi olhando pro chão.

— No hospital. Pra foto.

Pronto. O segundo dominó tinha caído. Primeiro foi o medo verbalizado na noite anterior. Agora era a confirmação do isolamento. A rede de apoio não estava só furada. Estava sendo desmontada peça por peça.

Lá embaixo, ouviram o portão. Depois, um uivo longo e grave que subiu pelas escadas. Akira Kurosawa tinha sentido a Cleo chegar.

— Ela veio buscar ele — Cleise sussurrou. E pela primeira vez desde que o Felipe nasceu, duas lágrimas desceram, rápidas. Não era pelo cachorro. Era por tudo que o cachorro representava: barulho, vida, visita, uma desculpa pra abrir a porta de casa.

Carla devolveu a criança pra Cleise, mas dessa vez ficou com a mão no braço dela. Âncora.

— Cleo — Carla chamou quando ouviram os passos dela na escada —, espera um segundo antes de descer com ele?

Cleo apareceu na porta do quarto. Mulher de uns sessenta, cabelo curto, argolas grandes. Tinha olheiras de quem também não dormia, mas era de preocupação, não de puerpério. Segurava a guia do Akira na mão.

— Oi, Carla — ela forçou um sorriso. — Já tô indo. Não quero atrapalhar.

— Você não atrapalha — Carla disse, firme. — Você segura. E a gente tá precisando de quem segura.

Cleo entrou. Akira veio atrás, um trator de pelo branco e cinza, e enfiou o focinho gelado na perna de Cleise. Ela se desmanchou. Choro de verdade, agora, enterrando os dedos no pelo do cachorro.

— Ai, meu filho — Cleo se ajoelhou também, abraçando os dois. — Eu não queria ir agora. Mas a casa já tá alugada, e o Clayton...

— Eu sei — Cleise soluçou. — Eu sei. Desculpa. É que quando você for, vai ficar só...

Ela não completou. Não precisava. “Só eu e o fantasma do Roberto no ateliê”.

Carla respirou fundo. Hora de usar a técnica, mas com afeto.

— Certo — ela bateu uma palma, leve, chamando as duas pro plano. — A gente não vai resolver a vida toda hoje. Hoje a gente resolve as próximas seis horas. Cleo, você pode adiar o Akira em uma semana? Só uma. A gente paga o pet shop, o que for. Cleise, você e eu vamos tomar café. Um café decente, com pão na chapa. E depois — ela ergueu o dedo, olhando pra porta do corredor, onde ficava o ateliê — a gente vai bater naquela porta. Juntas.

— Ele não vai abrir — Cleise disse, automática.

— Pra você, talvez não — Carla deu de ombros, imitando o gesto dela de mais cedo. — Mas pra fome, ele abre. E pra uma psicóloga amiga da esposa dele com um husky siberiano de 30kg arranhando a porta, ele abre também.

Cleo soltou uma risada de surpresa. A primeira da manhã.

— Você é doida, Carla.

— Sou — Carla piscou. — E tô de plantão.

Akira latiu, uma vez, como se votasse a favor. Felipe, no colo da mãe, abriu um olho, julgou a bagunça toda, e voltou a dormir.

Pela janela, o sol de manhã batia no jardim. A casa ainda ia ficar vazia. Mas não hoje. Hoje, eles tinham comprado mais um dia. E às vezes, no puerpério, um dia é um país inteiro.

---

*

Carla acordou com o choro do Felipe às 5:47 da manhã. O corpo dela, acostumado a madrugadas de plantão, respondeu antes do cérebro. 

Cleise já estava de pé, encostada no batente da janela, com o bebê no colo. Não ninava. Só segurava, olhando pro jardim como se esperasse alguém voltar.

— Te acordei? — Cleise perguntou sem tirar os olhos lá de fora.

— Profissionalmente, eu chamo isso de “ser chamada” — Carla sentou na cama, catando o cabelo num coque. — Posso?

Cleise assentiu e passou o Felipe  pra ela. O alívio nos braços da amiga foi imediato e visível. Um detalhe que Carla anotou sem julgar.

O silêncio da casa era diferente hoje. Mais oco.

— A Cleo já saiu — Cleise disse, como se respondesse a pergunta que Carla ainda não tinha feito. — Foi resolver a mudança dela. Disse que não pode adiar mais. Volta de tarde só pra buscar as últimas caixas. E o Akira.

Akira Kurosawa. O husky siberiano que uivava pra lua e derrubava a gente de alegria na porta. Era do Clayton, filho da Cleo de consideração. Mas ficou com ela porque o apartamento de Cleise era pequeno demais pra um cachorro que foi feito pra puxar trenó.

— Ele vai sentir falta daqui — Carla comentou, testando o terreno. O Felipe cheirava a leite e sono na curva do pescoço dela. — E vocês dele.

— É — Cleise deu de ombros. Um gesto mínimo que doeu mais que frase inteira. — A casa da Cleo no Recreio é gigante. Lá ele pode correr. Aqui... aqui tá tudo pequeno demais ultimamente.

Carla entendeu o subtexto. Não era sobre metragem. Era sobre fôlego.

Ela esperou o bebê  arrotar no ombro dela, deu duas batidinhas, e só então perguntou, casual:

— E o Clayton?

O nome do marido bateu no ar e ficou lá, suspenso, como poeira. Cleise fechou a cara por um segundo. Não de raiva. De cansaço.

— Trancado no ateliê desde que o Felipe nasceu — ela respondeu, mexendo no próprio cabelo, puxando um fio. — Diz que “precisa criar”. Que a cabeça dele tá “um caos fértil”. Ontem eu bati na porta. Três vezes. Ele nem abriu. Só passou um bilhete por baixo: “Esquenta uma marmita pra mim”.

Carla sentiu o maxilar travar. Como psicóloga, ela conhecia o discurso. Isolamento criativo. Como amiga da Cleise, ela conhecia a palavra certa: abandono.

— Ele já pegou o Felipe no colo alguma vez? — Carla perguntou. Precisava saber o tamanho do buraco.

Cleise demorou pra responder. Quando respondeu, foi olhando pro chão.

— No hospital. Pra foto. 

Pronto. O segundo dominó tinha caído. Primeiro foi o medo verbalizado na noite anterior. Agora era a confirmação do isolamento. A rede de apoio não estava só furada. Estava sendo desmontada peça por peça.

Lá embaixo, ouviram o portão. Depois, um uivo longo e grave que subiu pelas escadas. Akira Kurosawa tinha sentido a Cleo chegar.

— Ela veio buscar ele — Cleise sussurrou. E pela primeira vez desde que o Felipe nasceu, duas lágrimas desceram, rápidas. Não era pelo cachorro. Era por tudo que o cachorro representava: barulho, vida, visita, uma desculpa pra abrir a porta de casa.

Carla devolveu o " embrulhimho cheirando a talco e leite " pra Cleise, mas dessa vez ficou com a mão no braço dela. Âncora.

— Cleo — Carla chamou quando ouviram os passos dela na escada —, espera um segundo antes de descer com ele?

Cleo apareceu na porta do quarto. Mulher de uns sessenta, cabelo curto, argolas grandes. Tinha olheiras de quem também não dormia, mas era de preocupação, não de puerpério. Segurava a guia do Akira na mão.

— Oi, Carla — ela forçou um sorriso. — Já tô indo. Não quero atrapalhar. 

— Você não atrapalha — Carla disse, firme. — Você segura. E a gente tá precisando de quem segura.

Cleo entrou. Akira veio atrás, um trator de pelo branco e cinza, com olhos azuis como céu, e enfiou o focinho gelado na perna de Cleise. Ela se desmanchou. Choro de verdade, agora, enterrando os dedos no pelo do cachorro.

— Ai, meu filho — Cleo se ajoelhou também, abraçando os dois. — Eu não queria ir agora. Mas a casa já tá apertada , e o Clayton...

— Eu sei — Cleise soluçou. — Eu sei. Desculpa. É que quando você for, vai ficar só... 

Ela não completou. Não precisava. “Só eu e o fantasma do Clay no ateliê”.

Carla respirou fundo. Hora de usar a técnica, mas com afeto.

— Certo — ela bateu uma palma, leve, chamando as duas pro plano. — A gente não vai resolver a vida toda hoje. Hoje a gente resolve as próximas seis horas. Cleo, você pode adiar o Akira em uma semana? Só uma. A gente paga o pet shop, o que for. Cleise, você e eu vamos tomar café. Um café decente, com pão na chapa. E depois — ela ergueu o dedo, olhando pra porta do corredor, onde ficava o ateliê — a gente vai bater naquela porta. Juntas.

— Ele não vai abrir — Cleise disse, automática.

— Pra você, talvez não — Carla deu de ombros, imitando o gesto dela de mais cedo. — Mas pra fome, ele abre. E pra uma psicóloga amiga da esposa dele com um husky siberiano de 30kg arranhando a porta, ele abre também.

Cleo soltou uma risada de surpresa. A primeira da manhã.

— Você é doida, Carla.

— Sou — Carla piscou. — E tô de plantão.

Akira latiu, uma vez, como se votasse a favor. Felipe , no colo da mãe, abriu um olho, julgou a bagunça toda, e voltou a dormir. 

Pela janela, o sol de manhã batia no jardim. A casa ainda ia ficar vazia. Mas não hoje. Hoje, eles tinham comprado mais um dia. E às vezes, no puerpério, um dia é um país inteiro.



*

17 -o elefante na sala

Carla 

"Paula foi embora e Cleo foi atender a um antigo cliente. Embora aposentada , ela não podia dizer não a quem pedisse socorro , e foi o que ele fez: implorou um socorro urgente.
Clayton por sua vez ,ainda com comportamento de depressão pós parto masculina ...
Coitada da minha amiga ..."
Terminei de arrumar a cozinha .
Pensei que ia sair uma guerra , mas a tapioca com requeijão e carne seca só fez todo mundo ficar de boca cheia e não falar besteira.
Fui em silêncio até o quarto da Cleise e bati na porta devagar .
Ela falou entra bem baixinho e entendi , o anjinho estava dormindo , finalmente.
Coisa boa essa fase , pelo menos ainda não começaram as cólicas ...
Olhei pra Cleise." É,amiga , nem imagina o que te aguarda"
A irmã do Mateus também está com bebê recém nascido...Mais uma razão para eu vir ver a Cleise.
**
O quarto cheirava a lenço umedecido e leite. Carla não perguntou nada. Só empurrou a porta com o quadril porque as duas mãos seguravam uma caneca fumegante.
 — Trouxe chá. Sem cafeína. E roubei um pedaço daquela goiabada que você escondeu da sua mãe — ela sorriu, colocando a caneca na mesinha. — Pra gente. Não pro bebê.

 Cleise estava na poltrona de amamentação, mas o bebê dormia no berço. Ela olhava pro vazio.

— Não vejo minha mãe faz um tempo...e ela nem gosta de goiabada .
Carla riu .
— Falei da sua mãe de consideração...a Cléo, vejo a relação de vocês duas ...é mais que carinho de avó...sabe disso !

 Carla se sentou na beirada da cama, não na poltrona de frente. Lado a lado é menos confronto.

— O puerpério é um país estranho, né? — Carla disse baixo. — Dizem que é amor à primeira vista, mas esquecem de avisar que a gente chega lá depois de uma guerra, sem dormir e sangrando.
 
Cleise deu uma risada curta, que virou soluço. 

 — É exatamente isso.

 Carla pegou o chá pra Cleise, esquentando as mãos dela com a caneca. 

 — Sabe, na faculdade a gente estuda uma coisa chamada ‘baby blues’. Atinge tipo 80% das mães. É o corpo despencando de hormônio, é o susto, é o medo. Dá uma tristeza do nada, um choro... dura uns 15 dias. É esperado.

 Ela fez uma pausa, olhando pro berço. 
 — O que me preocupa, como sua amiga, não como psicóloga, é quando passa de 15 dias e a gente continua se sentindo no fundo do poço. Quando o amor pelo bebê vem com uma culpa gigante junto. Ou quando a gente começa a ter uns pensamentos que assustam.

 Carla olhou pra Cleise. Não era pergunta. Era uma porta aberta.


 Cleise não respondeu. Os dedos dela alisaram a borda da caneca, sem parar. Uma, duas, dez vezes. Quando falou, a voz saiu arranhada:
 
 — E se eu... se eu me arrepender?

 O coração da Carla apertou. Diagnóstico não era a palavra da hora. A palavra era “eu tô aqui”.

 — Então a gente fala sobre esse arrependimento — Carla disse, simples. — Sem julgamento. Sem chamar a polícia da maternidade perfeita. Só você e eu, com esse chá ruim.
 
Ela não tocou no termo “depressão pós-parto”. Mas já estava pensando em 2 coisas: 1. Tirar a Cleise do isolamento. 2. Sugerir uma consulta com a obstetra + psicóloga perinatal, “só pra checar os hormônios e o sono”.

 — Se é verdade ou não eu não sei — Cleise repetiu a frase que o avô dela vivia dizendo, olhando pro bebê —, mas eu ando com medo de ficar sozinha com ele. 

— Então você não vai ficar. Hoje eu durmo aqui. A gente vê a madrugada juntas. E amanhã a gente liga pra Dra. Sônia, tá? Não porque você tá “doente”. Porque você acabou de fazer um humano. E isso merece uma equipe.

 

quarta-feira, 15 de abril de 2026

capítulo 16- café fresquinho, guerra declarada

Capítulo 16 - 

Café Fresquinho, Guerra Declarada

Cléo

A porta do quarto fechou com um clique tão baixo que só quem estava esperando por ele escutaria. Eu estava.

Encostei as costas na madeira e deixei o ar sair de uma vez só, como se eu tivesse prendido desde que Paula pisou no corredor com aquele perfume de 25 anos atrás. Um perfume que não envelhece. Diferente da gente.

Felipe dormia no berço, alheio ao fato de que tinha acabado de ser colo de campo de batalha. Anjinho.

Olhei pro violão encostado no canto do ateliê. Quer dizer, do quarto do Clayton. Quarto. Ele ainda erra. Eu não.

Peguei a fraldinha de pano que Paula dobrou. Dobrada igualzinho minha mãe fazia. As pontas em triângulo perfeito, não aquele rolinho preguiçoso que a Cleise faz. 

“Você não volta mais aqui, Paula. Nem que eu tenha que cantar Evidências em dó maior até ficar rouca.”

Falei sozinha. Alto suficiente pro espelho ouvir. Baixo suficiente pra santa da cozinha não escutar.

Cozinha, 3 minutos depois

O cheiro da tapioca da Carla brigava com o cheiro do café novo. A Carla sempre ganha. Baiana não perde briga de cheiro.

Paula já estava na minha cadeira. A de frente pra janela. A que bate sol às cinco. A minha.

— Cléo! — Cleise me viu primeiro e apontou o bule — Veio bem na hora. Carla fez café.

— Eu fiz tapioca também — Carla completou, já empurrando um prato na minha direção — De carne seca com requeijão. Da que o Clayton gosta.

Clayton mastigava e não olhava pra ninguém específico. Talento dele. Desde sempre.

Paula pegou a garrafa térmica como se fosse dona dela. Serviu meu copo primeiro. Dois dedos. Sem açúcar. Do jeito que eu bebo.

Minha vontade era jogar o café na parede. Minha boca fez outra coisa:

— Obrigada, Paula. Você lembra de tudo, né?

Ela sustentou o olhar. Sorriu aquele sorriso de nota de três reais que a Cleise descreveu tão bem. Acho que é contagioso.

— Algumas coisas a gente não esquece, Cléo. Igual andar de bicicleta. Ou dobrar fraldinha.

Cleise olhou de mim pra ela. O radar dela funcionou. Tardiamente, mas funcionou.

— Gente, o café tá ótimo — ela tentou — A gente devia repetir esses lanches. Né, Clay?

Clayton engoliu. Limpou a boca com o guardanapo de pano. Outro detalhe meu na casa.

— Devia — ele disse. — A música ontem fez bem pra todo mundo.

Pausa. Aquela pausa que pesa mais que mobília de madeira maciça.

Aí Paula fez o movimento dela. Xeque.

Colocou a xícara no pires sem fazer barulho nenhum. Coisa de gente treinada. Inclinou o corpo só um pouco na direção da Cleise, tirando eu e Carla da conversa com o ombro.

— Posso visitar o Felipe de novo amanhã, Cleise? — perguntou. Voz de mel. — Ele é tão calminho no meu colo. Parece que a gente se conhece de outras vidas.

Eu vi a Cleise vacilar. Um segundo. O segundo que separa a paz da guerra.

Porque eu conheço esse tom. Foi o mesmo que ela usou há 25 anos quando disse: “Cléo, posso dançar essa com o Clayton? Só essa.”

E foi só essa. Até não ser.

Carla, abençoada seja, quebrou o silêncio enfiando outra tapioca goela abaixo do Clayton.

— Come, meu rei. Tu tá magro.

Eu peguei meu café. Dois dedos. Sem açúcar. Gelado já. E dei o meu sorriso protocolar. Aquele que usei no capítulo passado e que agora passo pra Cleise como bastão.

— Claro que pode, Paula — eu respondi por ela — Essa casa é grande. Cabe todo mundo.

Menti. A casa tá pequena. Pequena demais pra três mulheres e um violão desafinado.

Cleise me olhou com gratidão. Coitada. Achou que eu estava sendo amiga.

Clayton olhou pro violão que tinha deixado no corredor. Depois olhou pra mim. Depois olhou pro chão. O de sempre.

E a Paula? A Paula bebeu o café devagar. Como quem tem tempo. Como quem sabe que guerra boa é guerra fria, servida em xícara de porcelana.

Fim do café.  
Começo da guerra.