Protocolo
Clayton
O táxi cortava a noite carioca de volta para a Zona Norte, e o silêncio lá dentro era atroz. Do meu lado, Cleise olhava fixamente para a janela, com o queixo rígido e os braços cruzados sobre o peito. Ela estava furiosa. Dava para sentir a vibração daquela raiva no espaço milimétrico que nos separava no banco de trás.
Eu não conseguia olhar para ela. Em vez disso, olhei para as minhas próprias mãos repousadas sobre os joelhos. Mãos que ganharam a vida desenhando detalhes milimétricos em unhas artísticas, mas que já tinham carregado muito peso na terra. E que hoje pintam em telas aquilo que não consigo dizer em palavras.
O balanço do carro me empurrou para trás, para o hiato de oito anos que passei longe do Rio. Oito anos em Minas Gerais, pisando no barro, trabalhando como técnico em agropecuária na empresa pesqueira do meu tio. Eu achei que aquele isolamento me daria um futuro, mas só me deu fantasmas. Fechei os olhos e a lembrança incômoda do meu primo mais velho me atingiu como um tapa. O jeito como ele me olhava, as investidas disfarçadas de piada, a respiração perto demais no galpão. Foi ali que descobri o homossexualismo dele — um segredo sufocante que nossos tios nem sonhavam, mas que se transformou em um mal-estar tão insuportável que me expulsou de Minas. Aguentei o quanto pude, arrastando os dias até o casamento do outro primo. Assim que o altar foi desmontado, eu arrumei as malas e fugi de volta para o Rio.
Na volta, tentei me limpar do passado. Ia com a minha avó ajudar nas obras da Igreja, carregando canecas marmorizadas sob o sol escaldante, buscando uma redenção que eu nem sabia se merecia. Foi nessa época que descobri meu talento com o pincel. Comecei a trabalhar com unhas artísticas. No início, as pessoas olhavam torto, um homem fazendo aquilo, mas o talento falou mais alto e logo a agenda estava lotada. Ganhei clientes, ganhei meu próprio dinheiro, mas perdi a paz em casa.
Viver sob o mesmo teto que Cléo, a mãe do meu coração, e Paula, a minha mãe biológica, era um inferno diário. Eu não suportava a Paula. A presença dela me sufocava. E foi no meio daquele desespero para sair dali que a Cleise apareceu.
Mal tínhamos começado a namorar e ela engravidou.
Uma onda de raiva quente subiu pelo meu pescoço enquanto o táxi passava por São Cristóvão. Eu estava com raiva. De mim, da situação, do destino. E agora, como se um filho não bastasse para amarrar nossas vidas, ela me inventa essa palhaçada de terapia de casal. Para tentar "salvar" o que nem tínhamos construído direito.
Olhei de relance para a fachada iluminada do Adegão Português sumindo na distância. Eu tinha feito tudo certo, ou pelo menos o que achei que era certo. Engoli meu orgulho e pedi dinheiro emprestado para o pai dela só para podermos jantar naquele lugar chique. Queria impressionar. Queria ser o homem que eles esperavam que eu fosse. Pedi o Bacalhau à Lagareiro, o vinho caro no balde de gelo... e para quê?
Cleise passou o jantar inteiro com o pensamento em outro lugar. Ela só pensa no filho. Cada palavra, cada gesto, cada plano dela gira em torno daquela barriga. Ela não me quer ali como homem; ela quer um pai funcional, uma engrenagem na vidinha perfeita que desenhou na cabeça.
O táxi freou brusco no sinal. O motorista nem imaginava o drama no banco de trás. Olhei mais uma vez para Cleise, a mulher com quem eu dividi uma cama e um futuro forçado.O gosto amargo do vinho verde ainda estava na minha boca. Eu sabia perfeitamente o que ela queria. Mas eu? Eu olhava para o asfalto escuro da Zona Norte e só conseguia sentir o peso do vazio.
Eu não sabia o que queria. E isso era o que mais me apavorava.
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