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domingo, 28 de junho de 2026

Eu, o pai.



Clayton

Entrei no quarto . Ainda não estou dormindo aqui, com a Cleise. Um passo de cada vez. O beijo já foi. A cama vem depois , no seu tempo.

  Felipe finalmente dormiu e Cleise foi escrever, pra relaxar. Coisa de jornalista . Eu não tenho essa vibe não , prefiro pintar .

Seis horas de cólicas . Eu e Cleise revezamos na massagem indiana que Cleise disse que se chamava " Shantala". Essa massagem tem uns movimentos rítmicos, com deslizamentos e alongamentos.

Tive até que rir quando ele acertou um jato de xixi na Cleise no meio da massagem que ela fazia.

Mas quando Felipe fez o número dois sem fralda, no meio da tal massagem, eu me arrependi de ter zoado o xixi.Era menos pior.

— Como tá indo o blog Trollados?

— Bem. Ficou com esse tom mais confessional , sem o ar mais jornalístico de antes . Mas eu gostei e pelos comentários e número de visualizações , acredito que é esse o caminho.

— Ah! Entendi.

Ela arqueou uma sobrancelha.

— É que escrevi um texto. Minha contribuição para o blog. Veja o que acha .

"Pai de repente".

Cleise deu um meio sorriso mas voltou a ler.

"Quem me conhece sabe da minha história. De técnico em agropecuária. É que assumiu uma nova profissão quando passei a morar com as minhas mães .

 Minha mãe do coração, Cléo, me incentivou a fazer unhas artísticas quando viu as canecas com pintura artística que fiz para arrecadar dinheiro para as obras da igreja que minha avó Lizete frequenta.

Quando o YouTube passou a ter vídeos do tipo tutorial, lá pelo ano de 2007, já dava pra aprender muita coisa com vídeos de pessoas gravando com suas webcam. Eram vídeos bem amadores, mas davam conta do recado.

Aprendi várias técnicas e rápido eu passei a ter várias clientes. Mulheres em sua maioria, muitas amigas da minha mãe Cleo, que não tinham preconceito em serem terem um homem fazendo as unhas delas.

Tive muitos clientes. Alguns vieram por intermédio da minha mãe, pois conhecia muita gente no escritório de advocacia.

 Algumas mulheres estavam se divorciando e para se sentir dando a volta por cima , investiam na própria beleza.
 Melhor pra mim.

No meio do caminho reencontrei uma amiga de infância e com um pouquinho de ajuda do destino, a amizade virou morar junto. Ainda não casamos, mas tá na lista.

Só que no meio do caminho tinha um filho. Tinha um filho no meio do caminho.

O trocadilho foi inevitável. A Cleise vive recitando esse poema . Não tenho certeza, mas 
Acho que é do Carlos Drumond de Andrade. Vai saber.

Eu não sabia nada de bebês. Cleise ainda leu, naquele monte de revistas de bebê . Até em sites, afinal também tem vídeo para ensinar a cuidar de bebê!  🍼 🤱🏻

Confesso que foi difícil no começo. Eu estava com ciúme . Cara, e como senti ciúme.

O nome é esse mesmo, as terapias de casal deve tá surtindo efeito, afinal, porque já consigo dar nome pra essa raiva que eu sentia sempre que olhava pra Cleise e ela estava com o bebê no colo e não olhava pra mim.

Cara, e a raiva era tanta que passei dois meses para conseguir falar de novo com ela, e também para aceitar a cuidar do bebê.

No início eu aproveitava momentos que a Cleise finalmente dormia exausta , e tirava fotos do nosso filho, que me ajudava para ter a imagem dele como modelo para as minhas telas, sem que Cleise soubesse o que eu fazia.

Mas isso são águas passadas.

Quero deixar registrado para os leitores desse blog que quem,  como eu,  tiver descobrindo as alegrias e dificuldades de ser pai, que a tal massagem indiana Shantala é um santo remédio para as cólicas.

E se prepare para as cólicas .
Não tem horário certo nem fim de semana. É todo dia. Às vezes, o dia inteiro. Ou quase. Pelo menos, é o que o ouvido e a impaciência acham.

Por enquanto é isso. Porque todos dia é diferente, um novo aprendizado. Para Felipe. Para Cleise . Para mim.

Quero que meu filho sabe que se eu fui um cuzão quando ele nasceu, hoje eu não sei ser Clayton sem que ele esteja no berço , ou no meu colo, graças ao sling.

Viu como estou por dentro desse universo.

Me desejem sorte nessa viagem de ser pai ."


Percebi que os olhos dela estavam marejados . Será que fiz algo errado ?

— Está ótimo , Clay. 

— Espero que o blog faça tanto sucesso quanto antes. 

— Que Deus te ouça . 

— Fecho a porta?

— Não precisa.

Deixei a  porta aberta e voltei para o ateliê com a alma leve.

sábado, 27 de junho de 2026

Depois de tudo


Capítulo "Depois de tudo"  
Cleise

Pensei que já tinha acontecido coisa o bastante pra várias sessões de terapia. Era coisa que não acabava mais. Já me via com meses de sessão pela frente... 

Me enganei redondamente.

Como numa novela mexicana, Paula veio até aqui em casa atrás da Cléo pra continuar a DR. Me senti a própria Maria do Bairro. Rir pra não chorar.

Mas a Thalia ao menos já criou os dois filhos dela e, mesmo com 54 anos, ainda está lindíssima. Aposto que não tem essa barriga flácida que eu exibo pro meu desespero.

As famigeradas estrias, então! As linhas brancas tomaram não só a bunda como a barriga flácida e surgiram logo após o parto. Não adiantou usar cinta nem fazer dieta pra voltar ao peso.

Ainda tentei os óleos de rosa mosqueta, de uva, de amêndoas. Tudo com promessa de zero estria. Funcionou... só que não!

Só as indústrias cosméticas devem ter se dado bem e enriquecido graças a moi.

Dessa vez o ring não era na antiga casa delas. Talvez assim, num campo neutro, a briga fosse menor.

Ok. A minha casa, transformada em ring pra duas se degladiarem, nem era um ambiente tão neutro assim. Mas nem tanto quanto seria na casa da Cléo no condomínio do Recreio, onde moraram juntas por 25 anos.

Fui pro quarto e deixei a cozinha pras duas se acertarem. Desde que não colocassem fogo na cozinha, tudo bem.

Olhei pra Felipe. Ele sorriu pra mim.

Sei que neonatologista diria que é reflexo. Que com sessenta dias é cedo demais pra sorrir de verdade. Mas mãe é mãe. Não me contive e sorri de volta. E Clay entrou no quarto nesse minuto.

Tinha que ser justo agora?  
Depois de tudo o que ele disse. Do que eu disse. Depois do "te beijei sem querer, Cleise"?

— Oi!  
— Oi.

Um diálogo inteiro num "Oi". Mas se isso não serve nem pra post do blog, quem dirá pra nós dois.

Quebrei a tensão. Ainda com o grito de PENTACAMPEÃO preso na garganta:

— Brasil finalmente foi pentacampeão!  
— Só levou 7 anos e 353 dias. Mas quem é que está contando?

Eu ri. Ele riu também. Fazia tempo que a gente não ria junto. Doeu e aliviou no mesmo segundo.

— Precisamos marcar o batizado.  
— É. — Ele olhou pro Felipe, não pra mim. — Depois que as duas ali se acertarem. Ou não. Não sei. Que não seja preciso outra briga. Mas elas são avós, precisam estar no batizado.

— É, Cleise. Eu sei. — A voz dele baixou. — Não queria a Paula lá, mas não tenho como dizer não.

— Não é justo.

Ele sorriu. De canto. Essa era minha frase preferida. Ele sabia. Eu sabia que ele sabia.

— É justo! — confirmou. E doeu igual.

Silêncio. Felipe fez um barulhinho entre nós dois.

— Precisa chamar também o Roberto e a Dona Margarida, sua mãe.  
— É. — Ele passou a mão no rosto. — Também vou precisar de um ring. Seria muito pedir também por um campo neutro? Nem eu me humilhando a minha mãe baixou a guarda. Nem o Felipe conseguiu abrandar o coração dela. Bendito ciúme.

— É.

Putz, Cleise, mal começaram a conversar e você se sai com essa?

— Não foi indireta, Clay.  
— Eu sei. — Ele me olhou de verdade, pela primeira vez. — Você não costuma ser cruel.

Mereci essa. Mas não desisti de conversar. A terapia é terça. Hoje ainda é domingo. Ainda somos nós dois e um bebê de sessenta dias.

— Temos que marcar também o nosso encontro no restaurante. Vou falar com a Cléo e ver quando ela pode ficar com Felipe. Não quero ter que pedir pra minha mãe.  
— E pedir pra Paula, nem em sonho, é uma opção.

Não sabia como chamar Lizete e Paulo, avós do Clay. Preferi a verdade, era mais fácil manter.

— Seus... avós, talvez?  
— Estão idosos, e minha avó ainda tem os trabalhos da igreja. — Ele respirou fundo. — Talvez mais fácil pedir pra Cléo.

— Talvez. Segunda seria uma boa. Podemos ir num restaurante, né. Mas tem que ser antes da terapia na terça.  
— Deixa que eu falo com minha mãe Cleo .

Voz branda, conciliadora. Aquela que ele usava quando a gente ainda se entendia sem manual.

Pegou Felipe no colo. O menino pareceu se encaixar no colo do pai como se fosse hábito. E era. Eu só não sabia disso.

— Pode tomar banho se quiser. Fico com ele.

Ele colocou o sling. Coisa de pai que já aprendeu sozinho, enquanto eu sangrava e aprendia a ser mãe.

Ele saiu do quarto deixando a porta aberta. Seria um sinal dos astros? Ou só mais uma porta que nenhum de nós dois tem coragem de fechar?

Da cozinha, a voz da Paula. Do berço, o cheiro de leite. Da porta, as costas do Clay.

— Vamos passar um café pra mamãe, filhão?

foi sem querer



Carla 
 junho de 2002. Domingo de final de Copa do Mundo.

A sala cheirava a pipoca queimada e ansiedade. Na TV, Galvão Bueno já estava rouco de tanto gritar. Brasil 2 x 0 Alemanha, 42 do segundo tempo. 

Na beira do campo, Luiz Felipe Scolari andava de um lado pro outro igual leão enjaulado, mastigando o mesmo chiclete desde o primeiro tempo. Na beira do sofá, Clayton fazia igual. 27 anos, camiseta amarela suada colada no corpo, joelho batendo sem parar. Adultescente em estado puro.

O apito final veio como uma explosão.  
“É PENTA! É PENTA!” 

Clayton pulou do sofá, derrubou o copo de guaraná, socou o ar e berrou tão alto que o Akira levantou as orelhas quando o cachorro da vizinha latiu de volta.  

Foi nesse segundo de euforia cega que Cleise, de cabelo molhado,  entrou na sala e sentou do lado dele, rindo do escândalo.

Ele virou pra ela, olhos brilhando, coração na boca, e sem pensar — sem pensar MESMO — segurou o rosto dela e beijou. 

Um beijo rápido, atrapalhado, com gosto de guaraná e desespero de campeão do mundo.

O silêncio que veio depois foi mais alto que o gol do Ronaldo.

Cleise congelou. Os olhos arregalados, a mão no peito, o batom borrado. Por dentro: um carnaval. Por fora: estátua. 

Clayton recuou como se tivesse levado um choque. Passou a mão na boca, gaguejou:
“Foi mal. Foi... foi sem querer.”

Sem querer.

Duas palavras que desmontaram Cleise mais que o beijo. O “sem querer” dela vinha com um sorriso escondido que ela tentou segurar mordendo o lábio. O “sem querer” dele vinha com pânico.

O que passou na cabeça do Clayton naquela hora:

Pai. A palavra ecoou igual bomba. Cleise mãe . De um filho meu. Um filho! A gente não planejou.Foi por acaso.Igual eu.

Porque  também fui um “acidente”. Nasci no meio do caos: Paula, minha mãe biológica, tinha 16 anos quando o pai dela flagrou ela aos beijos com Cléo. Foi expulsa de casa na mesma noite, de roupa do corpo. Foi morar com Cléo. As duas, duas meninas assustadas, me criaram  juntas.

Por 25 anos foram família. Até que Paula, já na menopausa, surtou e traiu Cléo. A casa virou campo minado.

Pior:  Só descobri a verdade aos 15. Achava que Paula era minha irmã mais velha. Meus avós tinham registrado como filho deles pra “abafar” o escândalo do relacionamento das duas. Quando o “flagra” veio à tona, tudo desabou,  saí de casa com uma mochila e um pôster do Romário.

Desde então, virei isso: como o adultescente, tal como a psicóloga me chamou. Um adultescente de 27 anos. 

Corpo de homem, emocional de moleque. 
Toda vez que a vida me encosta na parede,  ajo assim. Faço piada. Fico agressivo. Nego.

 Porque se eu admitir que senti, que quis, que amei... aí viro gente grande. E gente grande vira pai. E pai apanha da vida.

Por isso o “foi sem querer”. 

Era  armadura . 

Negar primeiro, sentir depois. Se é que ia sentir.

Cleise levantou devagar, ajeitou o cabelo, e sem olhar pra mim, soltou:
“Pentacampeão, hein...” 

E saiu da sala com o coração batendo no ritmo de escola de samba e a maior vontade de voltar e dizer: “mente que eu gosto”.

Fiquei ali, sozinho, com a TV repetindo o gol, o guaraná escorrendo pelo chão e a certeza de que, pela primeira vez em 27 anos, tinha feito algo 100% querendo... e morrendo de medo do que isso significava.

capítulo 23- Rumo ao penta

Carla 
— Repete pra mim: como foi mesmo que você me convenceu a vir pra essa furada ?

Ri, mas não dei o braço a torcer.

— Adianta ir à psicóloga e não fazer o que ela pediu ?
Cinco minutos sozinha , Cleise. Sem filho , só um tempo para ser a mulher Cleise.
Pense pelo lado positivo: o jogo já está  no segundo tempo e... 

Ronaldo Fenômeno fez outro gol!!! Estou ouvindo daqui ! Olha os fogos, que lindo! 

Vamos descer para ver o replay do gol e comemorar com os outros !
— Quero é que acabe isso logo para eu ir buscar o Felipe na minha mãe- falou, com azedume.
— Você nem comentou sobre como foi esse encontro com sua mãe, após tanto tempo...Ela nem mesmo conhecia  o neto !
— Pra você ver como são as coisas: até a cobra da Paula já pegou o meu filho no colo , e a minha mãe demorou 2 meses...
Dois meses inteiros, Carla ! Só porque eu me humilhei e fui até minha antiga casa e praticamente implorei para minha mãe tomar conta dele.
— Ele está com a avó, Cleise. Relaxa ! 
Vamos descer! Esquece um pouco tudo isso e faz um esforço para se divertir! 

Até o cabeça dura do Clayton veio para ver o jogo da Seleção e deixou aquela catacumba que chama de ateliê.

— Que exagero, Carla, não é pra tanto ! . Impossível não sorrir.
— Agora sim , você parece com a chata da Cleise de sempre !
— Ei! Não sou chata , sou organizada, só isso!
— Até parece ! Amiga, você é como toda libriana: quando os pratos da balança estão desequilibrados, sai de baixo!
— Tá bem, tá bem. Vem , Akira, vamos descer .

Nem precisava chamar. Assim que Cleise se levantou da cadeira, Akira colocou as orelhas em pé e em seguida, leventou e a seguiu.

Desci na frente para me garantir que o terreno estivesse amistoso.

Qualquer palavra mais ríspida ou olhar inquisidor poderia colocar tudo a perder.

Diante da TV estava Clay , roendo as unhas de nervoso ..Tal como o Técnico , Luis Felipe Scolari , que estava bastante agitado na lateral do campo, agitando os braços , ansioso, mas mesmo assim , orientando os jogadores . Apito Final .

No fundo da sala, sem ligar para os fogos pipocando e a zoeira que irrompeu no condomínio , evaporando o ar quase monástico que imperava ali , com toda aquela vegetação ao redor .

As antigas amantes , Cléo é Paula ,  na maior  DR . O que há muito estava mesmo precisando acontecer ! 

Nem me aproximei do fundo da sala onde as duas tentaram se esconder , para não interromper a conversa.

Cleise desceu atrás de mim, com Akira logo atrás,como um guarda- costas.
Ela se sentou no sofá ao lado de Clay. 

Vidrado , ele, sem perceber o que fazia , a abraçou para comemorar o pentacampeonato conquistado  e deu um beijo rápido em Cleise.

"Que belo gol, amiga ! ".


capítulo 24- Tudo sobre nós dois.

Cleise 

### *Capítulo: Tudo sobre nós* 

O consultório cheirava a café frio e jasmim. Eu cheirava a leite e noite mal dormida.

— O que os trouxe aqui hoje? — a psicóloga perguntou, caneta na mão.

— Não sei, na verdade — respondi, ajeitando a alça do sutiã de amamentação por baixo da blusa. — Pelo menos no que diz respeito a mim. Vim por sugestão da Carla. Ela é psicóloga também.

A psicóloga assentiu e virou pra ele.  
— Certo. E você, senhor... Clayton?

Ele nem levantou o olho do celular.  
— Só Clay.

— Muito bem, Clay. — A caneta dela riscou o papel. — O que te trouxe aqui hoje?

— Não sei.

Soltei sem filtro, igual quando o Felipe acorda pela terceira vez na madrugada:  
— Você não sabe de muita coisa ultimamente, né, Clayton?

A psicóloga não reagiu. Só anotou. Eu passei a mão no pescoço e senti cheiro de talco de bebê no meu pulso. Hábito novo.

Clay ergueu a cara, ferido.  
— O que quer dizer com isso, Cleise?

A verdade saiu antes do freio:  
— Olha, ele fala! A última vez que falou comigo foi na consulta com a obstetra. O médico disse que a gente podia "voltar a brincar". Mal sabe ele que eu não sei o que é isso há meses. Entre mamada, troca de fralda e choro às três da manhã, "brincar" sumiu do meu dicionário.

Percebi tarde demais o estrago. Mas bebê não espera, e eu também não.

Clay fechou a cara. A voz saiu baixa, infantil:  
— Nem me passou pela cabeça que você ainda gostasse de sexo. Você virou mãe. 24 horas por dia. E eu não quero outra mãe em casa. Já tenho duas: uma de verdade e outra, um acidente biológico que me colocou no mundo.

Meu peito queimou. Não de raiva. De cansaço.  
A psicóloga interveio, neutra demais:  
— Quer falar mais sobre isso, Clay?

— Sobre o quê? — ele sibilou. — A falta de sexo? Ou como a Cleise me trocou pelo Felipe?

— Reparou que estou aqui? — cortei, dura. — Fala de mim olhando na minha cara.

— Acalmem-se, por favor — pediu a psicóloga. — Clayton, repita olhando pra sua mulher.

— Não somos casados — corrigi, automática.

Esperei ironia. Ele me deu um olhar tão triste que me desarmou. Pela primeira vez desde que o Felipe nasceu, eu vi o menino de 27 anos.

— Desculpa, Clay. Sei que isso é complicado pra você.

Ele respirou fundo, igual faz quando o Felipe chora e ele não sabe o que fazer.  
— Minha mãe foi traída pela minha mãe biológica. Ela trocou a Cléo por um cara chamado Gustavo. Não quero padrasto na minha casa.

— Sei como é ter padrasto, Clay — falei mais baixo.

— Ah! O seu Roberto cuida de você desde os 10 anos. Ele até me ajudou quando comecei a pintar quadros pro shopping.

— Verdade. O Roberto é muito mais que padrasto. Ele é meu pai.

Clay engoliu seco. Os dedos apertaram o celular.  
— E a Cléo é a minha mãe. A Paula só me teve por um erro. Eu sou um erro dela.

A psicóloga fechou a pasta. Hora acabou.  
— Nossa sessão está encerrando. Foi um primeiro encontro produtivo, com muitos assuntos pra trabalhar. Cleise, quer dizer mais algo?

Eu não saberia por onde começar. Então só balancei a cabeça. Negativa.

— E você, Clay?

— Estou bem — mentiu.

O Clay da briga evaporou. Sobrou o mutismo dos últimos meses. O mesmo mutismo dele quando o Felipe acorda e ele finge que dorme.

Na saída ele segurou a porta do elevador. Cavalheiro até na dor.  
— Obrigada — falei, achando que era começo de conversa.

Ele entrou no carro, manobrou e saímos do estacionamento. O celular dele apitou no Bluetooth. Era a babá eletrônica.  
Imagem do Felipe dormindo, boca aberta, babando no travesseiro.  
Mensagem da minha sogra: "Igualzinho ao pai quando dorme 😍"

Sorri sem querer.  
Clay viu pelo canto do olho. Apertou o volante até os nós dos dedos ficarem brancos.  
— Ele nem tem dente ainda — murmurou.

Virei pra ele, exausta e terna:  
— E você tá com ciúme de um desdentado, Clayton?

Ele não respondeu. Mas pela primeira vez na sessão, não fingiu que tava bem. Só dirigiu. E eu fiquei ali, dividida entre mãe e mulher, sem saber pra qual dos dois dar colo primeiro.

Sabe-se lá por quanto tempo isso vai durar. Até a gente se acertar. Ou não.

---





Reflexos



CLAYTON - ATELIÊ

A madeira cheira a terebintina e fralda suja. Transferi o ateliê pra cá achando que era só temporário. Mentira. Eu trouxe a fuga pra dentro da casa dela. Da mãe que eu escolhi.

A DR delas atravessa a porta como cupim. 
"Você nunca soube dividir, né? Nem filho, nem homem." A voz da mãe. Da minha mãe de verdade. 
"Ele só tá magoado, igual você quando eu..." A voz da outra. Da que me criou.

Akira rosna baixo cada vez que a biológica fala. Irmão de alma. Se eu pudesse rosnar, rosnava também.

A porta abre com o pé. Cleise. Cabelo preso de qualquer jeito, olheira de quem não dorme há um ano, Felipe berrando no colo.

"Resolve com teu irmão de ciúme aí." Ela joga nosso filho no meu colo como quem devolve um boleto. "Tua vez. A Carla disse cinco minutos. Eu vou ter cinco minutos pra ser só a mãe do Felipe. Não a sua. Escolhe."

A porta bate. 

Ficamos nós três: eu, um bebê que não planejei, e um cachorro que me entende melhor que minha própria mãe.
• * * 

Voltei da Bahia há três meses. Rodrigo disse que eu era idiota de largar os pacientes pra "salvar amigo". Ele não entendeu. Eu vi esses dois se apaixonarem no meu sofá, dividindo miojo e conta de luz. Eu segurei a mão da Cleise quando o teste deu positivo e o Clayton travou. Eu não ia assistir de longe eles se destruírem.

A primeira sessão de verdade foi ontem. Na casa deles. Antiético? Talvez. Necessário? Com certeza.

"Ele compete com o Felipe," Cleise disse, com o próprio Felipe mamando no peito. "Eu virei mãe de dois. Um chora de fome. O outro se tranca no ateliê quando não é o centro das atenções."

Clayton olhou pro chão. "Eu não sei ser isso. Pai. Marido. Adulto."
"Você sabe amar, Clayton," eu falei. "Você só não sabe demonstrar sem fazer birra. É igual quando o Henrique terminou comigo. Eu voltei pro Rio e me enfiei no quarto de vocês por um ano inteiro. Lembra? Vocês me deixaram quebrar até eu lembrar como se monta."

Ele assentiu. Primeira vez que não fugiu no meio.

No final, falei pra Cleise: "Começa com cinco minutos. Cinco minutos por dia em que você é só mãe do Felipe. Não dele. Não da casa. Não da culpa. Só mãe. Ele que segure o tranco. Ou aprende, ou perde."

Não imaginei que ela ia usar os cinco minutos como granada. Mas olhando pra DR daquelas duas ali no fundo, e pro Akira rosnando na porta do ateliê, acho que granada era o que essa família precisava.

Tomo um gole do café que a mãe afetiva do Clayton fez pra mim. "Vai dar merda antes de dar certo," digo pra ela, que só concorda com a cabeça. Ela sabe. Psicóloga ou não, tem coisa que só mãe entende.
• * * 
CLEISE - BANHEIRO

Cinco minutos. A psicóloga disse cinco minutos. E a Carla também disse. É isso. Um começo. Talvez.

Abro o chuveiro e não entro. Só deixo a água cair pra abafar o som da DR e do choro. Se ele não der conta, eu vou embora mesmo. Não com o Felipe. Comigo.

Casei com Clayton achando que adulto de 24 anos era adulto. Descobri que casei com o primeiro filho da casa. O segundo a gente fez sem querer.

Escuto o silêncio. O Felipe parou de chorar. 

Ou ele fugiu pela janela do ateliê, ou a Carla tava certa e ele só precisava de um tranco.

Cinco minutos. Rezo pra serem suficientes.
• * * 
AS MÃES - SALA

"Ele me odeia!" A biológica. Minha ex. Mãe do meu filho de coração. 

"Não odeia. Tá com ciúme. Igual você ficou quando eu trouxe o Gustavo pra jantar pela primeira vez, lembra?" Eu, a afetiva. A que ficou. "A diferença é que você tinha 40 anos. Ele tem 24 e um bebê que chora mais que você."

Ela me olha com aquele olhar de cachorro abandonado. Irônico, já que o cachorro que ela deu pra fazer as pazes agora rosna pra ela.

A psicóloga amiga deles me encara da poltrona. "Trauma de abandono gera competição, não afeto," ela diz, baixo. "Ele acha que se não for o bebê da casa, perde o lugar."

Engulo seco. Merda. A culpa é minha também, então.

Um barulho na porta do ateliê. As duas calamos a boca ao mesmo tempo. 25 anos juntas ensina isso.
• * * 
AKIRA

Cheiros: Terebintina. Leite azedo. Medo. Homem-filho. Bebê-filho. Mulher-terapia.

Mulher-barulho está na porta. Entrega Bebê-filho e fala "Carla disse". Rosno. Não pra ela. Pro outro barulho, da Mulher-que-deu-biscoito-mas-não-faz-carinho.

Homem-filho segura Bebê-filho desajeitado. Bebê-filho para de fazer barulho de angústia. Encosta no peito. Coração de Homem-filho bate rápido, igual quando tem trovão.

Lambe mão de Bebê-filho. Gosto de novo. De futuro. 

Homem-filho olha pra mim. Entendo. 

"É, Akira. A gente é dois idiotas, né?"

Levanta. Abre porta. Eu vou na frente. Mulher-terapia está na sala. Cheiro de café e de pessoa que conserta gente. Ela não rosna. Ela espera.

Se Mulher-que-deu-biscoito tentar morder, eu mordo primeiro. Mas ela não vai. Cachorro entende cachorro. E gente quebrada também.
• * * 
CLAYTON - SALA

Saio do ateliê com Felipe no colo. Akira na frente, guarda-costas de quatro patas.

Elas param a DR no meio. Carla tá na poltrona, sem anotar nada. Só olhando. Testemunha.

Pela primeira vez em um ano, não tenho pra onde fugir. O ateliê ficou pequeno demais pra três: eu, ele, e o homem que eu não sabia se conseguia ser.

Felipe agarra minha camisa. Por  reflexo  Baba no meu pescoço. Não planejei ele. Não planejei nada disso. Mas a Carla disse que eu sei amar. Só não sei mostrar.

"Desculpa, cara," sussurro pro meu filho, baixinho pra só ele ouvir. "Acho que eu tô sendo um cuzão."

Cleo sorri de canto. A biológica começa a chorar. Carla só assente, mínimo. Tipo "viu? Você consegue".

Cleise aparece na porta do banheiro, de toalha, cabelo pingando. Me encara. Eu encaro de volta. Não fujo.

Ela olha pra Carla. Carla olha pra mim. Eu olho pro Felipe.

"Cinco minutos acabaram," Cleise fala. "E agora?"

Não respondo com palavra. Só ajeito o Felipe no colo e sento no sofá. No meio das duas mães. No meio da merda toda. 

Pela primeira vez, fico.

Akira deita no meio da sala, entre eu e a Carla. Entre o passado e a terapia. 

Rosna uma vez, baixinho, só pra garantir. Depois suspira e fecha os olhos.

A DR acabou. A sessão, não.

sexta-feira, 26 de junho de 2026

segunda seção .


### *Capítulo: Sessão dois*  

Cleise 

Sete dias depois. Mesma sala, mesmo cheiro de jasmim. Eu diferente: olheira nova, blusa com mancha de vômito de bebê disfarçada com cardigã.

O Felipe não veio. Deixei com a Cleo. Foi a segunda vez que saí de casa sem ele no colo em 60 dias. Minhas mãos coçaram o caminho inteiro. 

A psicóloga sorriu, profissional.  
— Boa tarde, casal. Como foi a semana?

Silêncio. Clay olhou pro relógio.  
— Produtiva — disse ele por fim.

— Produtiva como? — ela insistiu.

— Dormimos. Eu no ateliê, ela na cama com o bebê.

Ela anotou. Devagar. De propósito.  
— Clay, na sessão passada você disse algo que eu queria voltar. Você falou "não quero outra mãe em casa". E depois: "eu não sei mais onde eu entro nisso".

Ele encolheu o ombro. Defesa de adolescente pego no flagra.  
— Falei muita coisa. Tava nervoso.

— Mas era verdade, não era? — a psicóloga não piscou. — Onde você entra nisso, Clay? Onde o Clayton, marido, pai, homem, entra nessa nova casa que vocês montaram?

Clay abriu a boca. Fechou. Olhou pra mim como se eu tivesse a resposta.

Eu não tinha. Só tinha peito empedrado e sono atrasado.

— Ele entra se trancando no ateliê. Sequer entra no nosso quarto para ver nosso filho...ou me ver.

Virei pra ele. Falei baixo:  
— O problema aqui é que você entrou. Só que entrou competindo com ele. E o Felipe tem 60 dias, Clay. Ele não sabe jogar esse jogo ainda.

Clay mordeu a bochecha. O músculo da mandíbula pulou.  
— Você não entende — resmungou. — A casa cheira a leite. As fotos são dele. As conversas são dele. Até quando faço café, você tá com ele no canguru.

A psicóloga inclinou a cabeça.  
— Então você sente falta de ser visto, Clay. Não de sexo. De presença.

Ele não negou. Também não confirmou. Adultescente clássico: morre, mas não admite.

A psicóloga virou pra mim.  
— E você, Cleise? Onde a mulher entra nessa nova mãe?

Quase ri. Quase chorei.  
— Ela não entra. Ela espreme um espacinho entre uma mamada e outra. Às vezes esquece como era antes. Às vezes tem medo de nunca mais voltar a ser.

Fiz pausa. Olhei pro Clay.  
— Mas eu queria que ele entrasse comigo. Não na disputa. No time.

O ar pesou. Clay pegou o celular. Destravou. Bloqueou. Destravou de novo.  
Por fim, mostrou a tela pra mim. Sem falar nada.

Era o álbum do celular dele. 347 fotos. Todas do Felipe.  
Na última, tirada às 4:12 da manhã, ele mesmo segurava o bebê no colo. Sei quando ele tirou essa foto pelo horário da foto : foi no período quando,  por um milagre , Felipe dormiu três horas seguidas antes da próxima mamada das 6 da manhã e eu aproveitei para cochilar . Como Cléo diz :
— Durma quando ele dormir ! Queria saber que santo fez esse milagre providencial...
Agora já sei o nome do santo! 

Olhei com ternura para a foto...e então ,  vi.

O olho do Clayton estava fechado de sono. Boca aberta igual a do filho. Legenda que ele nunca postou: "Não sei fazer direito. Mas tô aqui".

Meu nariz ardeu.

A psicóloga fechou a pasta de novo.  
— Tarefa pra casa: Clay, você vai tirar uma foto por dia que não seja do Felipe. Uma foto sua. Fazendo qualquer coisa que te lembre que você existe além de pai.  
Cleise, sua tarefa é escolher 5 minutos por dia que não sejam da mãe. 5 minutos só da mulher. Nem que seja pra passar batom e olhar no espelho.

— E nós dois? — perguntei.

— Vocês dois vão jantar juntos uma vez essa semana. Sem celular. Sem falar do bebê nos primeiros 15 minutos.

Clay bufou.  
— Impossível.

— Adultescente acha tudo impossível até tentar — ela sorriu.

Saímos em silêncio. No elevador, Clay quebrou primeiro:  
— Eu não sei tirar foto de mim. Fico esquisito.

Soltei, automática:  
— Fica não, Clayton. Fica parecido com o pai do Felipe.

Ele me olhou. De verdade. Pela primeira vez em semanas, não era o menino birrento. Era o homem assustado tentando aprender a ser os dois.

A porta abriu. E pela primeira vez, eu pensei: talvez dê pra gente se acertar.



terça-feira, 9 de junho de 2026

capítulo 21 - abelha- rainha


Sogra vs. Nora: O que as abelhas de verdade têm a nos ensinar sobre esse "climão" familiar?

"Quem nunca ouviu uma piada de sogra? Ou aquele comentário torto de que "duas mulheres na mesma cozinha não dá certo"? O senso comum adora aplicar o famoso "Mito da Abelha Rainha" nas nossas relações familiares. É aquela velha história: a mulher mais velha (a sogra) quer dominar o território, enquanto a mais jovem (a nora) chega para "roubar" o trono e o coração do filho."
Dei um meio sorriso quando ela arregalou os olhos e exclamou ;
— Carla!
— Só continue a ler, Cleise! 
— ok...- disse , e fingiu ajeitar a manta em torno do Felipe,  antes de dizer:
— Vamos ver onde isso vai dar !
Ela se sentou na cadeira de balanço e começou o movimento de vai e vem enquanto lia :
" Mas e se a gente te contar que essa história de rivalidade feminina é uma baita farsa? E pior: que a biologia real das abelhas prova que a dinâmica de uma família deveria ser exatamente o oposto disso?
Para desconstruir esse mito e entender onde a gente errou na metáfora, vamos olhar para o que realmente acontece dentro de uma colmeia. As contradições são de cair o queixo! "
Ela parou o movimento da cadeira e , com os pés bem apoiados no chão , aproximou os olhos do texto :
— Contradição 1: Quem manda no pedaço? (Spoiler: Ninguém manda sozinha!)
A gente cresce achando que a "mãe da casa" é uma abelha rainha autoritária, que dita todas as regras e não aceita os costumes que a nora traz de fora."
Ela suspirou ao ler o trecho, e a reação dela não me passou despercebida.
"Era exatamente o que queria provocar! Ponto pra mim".

" A realidade da colmeia: Na natureza, a rainha não é uma ditadora. Quem toma as decisões mais importantes do grupo — como a hora de mudar ou de abrir espaço para uma nova geração — são as abelhas operárias, de forma coletiva.
Na vida real, quando rola aquela faísca entre sogra e nora, o problema quase nunca é o "santo que não bateu". O buraco é mais embaixo. A sociedade joga nas costas das mulheres toda a responsabilidade pelo cuidado e bem-estar da casa. Quando o espaço parece pequeno para duas mulheres brilharem, a estrutura força uma competição que nem deveria existir em primeiro lugar.
Contradição 2: O desapego e o direito de voar
O maior clichê de todos: a sogra que não desapega do filho e vê a nora como uma "ameaça" que veio para desestruturar a família.
A realidade da colmeia: Sabe o que a abelha rainha antiga faz quando a colmeia fica cheia e uma nova rainha está para nascer? Ela não sabota a jovem. Pelo contrário! A rainha antiga junta metade do grupo e voa para fundar uma nova colônia, deixando a casa original prontinha e estruturada para a nova líder que está chegando.
Na biologia, maturidade significa entender que o crescimento da família não é uma perda de território, mas sim uma expansão do reino. Há amor, espaço e respeito para que as duas colônias existam e prosperem.
Contradição 3: A receita da "Geleia Real"
Existe um mito de que sogras guardam os segredos da família a sete chaves para manter o controle, e que noras não aceitam conselhos por puro orgulho.
A realidade da colmeia: Para uma nova rainha nascer, o grupo inteiro se une para alimentá-la com o melhor banquete possível: a geleia real. Elas gastam tempo e energia para fazer a nova integrante crescer forte. Elas não veem o sucesso da nova líder como uma ameaça, mas como a única garantia de que a família vai continuar viva e saudável no futuro.
Acolher a nora e dar a ela a nossa "geleia real" (afeto, espaço, validação) é o que garante que a história da família continue sendo escrita com harmonia e leveza.
Menos rivalidade, mais colmeia
O "Mito da Abelha Rainha" na vida familiar só serve para isolar as mulheres e criar barreiras onde deveria existir apoio. Quando sogras e noras se enxergam como rivais, todo mundo perde. Mas quando entendem que fazem parte da mesma colmeia — onde o papel de uma não anula o brilho da outra —, a estrutura inteira fica muito mais forte.
Não precisamos disputar o topo da mesa. A natureza nos ensina que há espaço para todas as rainhas voarem juntas.

Vamos conversar?
Agora eu quero saber de você que está lendo:
  • Você já sentiu, na pele ou vendo de fora, essa pressão invisível para que sogra e nora disputem o "trono" da família?
  • Como você acha que a gente pode quebrar esse ciclo e transformar essa relação em uma parceria de "geleia real"?
Deixe sua história e sua opinião aqui nos comentários! Vamos conversar!

— Quando pedi um texto sobre Dia das mães , eu esperava que viesse algo cheio de babados e jargões próprios desse dia. O que foi isso aqui ?
Não dei o braço a torcer .
— o que achou ? Está bom para o blogTrollados?
— Bem ..De fato , tem tudo a ver com a proposta do Blog...
Mas fala aí , isso foi uma indireta?
— Eu não dou indiretas , Cleise , me conhece há tanto tempo e ainda tem dúvidas ? Claro que foi uma direta , amiga!
Acho que passou da hora de você se posicionar nessa família.

20- Pingos nos is


Carla 

Agora que Mateus já tinha deixado o apartamento, Cléo tinha ido para o tal cliente inesperado e Paula , pra sorte de todos , foi embora antes que o veneno dela fizesse mas mal do que já tinha feito, imaginei que não poderia escapar daquela conversa.

E , de fato, entrei no quarto que seria do casal , e que agora estava ocupado apenas por Cleise, o Felipe, e tudo quanto é tipo apetrecho de bebê. 

Cleise colocou o filho adormecido no berço, sentou na cadeira de balanço e , com estudada formalidade, disse:
— Senta .
Sem outro lugar , sentei na beirada da cama .
Dependendo da situação, seria mais fácil para levantar e ir embora. Esperava que não fosse preciso.
Cleise que eu conhecia não faria isso.

Mas ela estava.. Diferente.
— Como foi na Baía?
" Mingau se come quente ! Por isso , começamos a comer pelas beiradas..."
Essa frase evasiva veio à mente. Respondi no mesmo tom: 
— Foi bom ficar lá. Mas é aquilo , mesmo tendo morado tanto tempo e parecer uma baiana de nascimento, sou mesmo carioca.
Sempre bom voltar pra casa . E o Rio é a minha casa .
— É...

 E,  depois de um tempo, quando ela  parecia estudar as palavras, continuou  :
— E o seu pai , Carlos, ele está melhor? Sei que o caso dele é complicado...
Mas como ele está ? E a tia Gisela , como está lidando com o Alzheimer do marido ?

— Não tem muito o que fazer.
Ele está na fase que  pergunta o que terá no jantar cinco minutos depois de ter ajudado a arrumar a mesa. Ele lembra com clareza de detalhes da infância, mas não lembra que o aconteceu na tarde anterior. 
Também já  vestiu  um casaco pesado em um dia de sol forte , imaginou que era inverno, como quando ele morou em outro país, anos antes de conhecer a mamãe ..ou esqueceu o caminho de volta da padaria da esquina.
— Que chato , Carla . E deve estar difícil custear o tratamento, né ?
— Eu até ajudo como posso, sabe ? Mas sou família. Não só posso como não devo cuidar dele ...não é ético .
— Entendo.
— Mas o dinheiro tem sido um problema– desabafou- Mamãe não sabe muito bem mexer com dinheiro, sempre foi o pai quem fez isso.
E agora ele , que sempre foi bom em finanças, começou a atrasar as contas ou se atrapalha ao calcular o troco. Vira e mexe descobrimos que ele não pagou uma conta porque tivemos algo cortado...
Ele ainda se confunde e chama a "caneta" de "aquela coisa de escrever" porque a palavra exata fugiu da mente...É tanta coisa ao mesmo tempo ...- disse, a frase sumindo aos poucos.

Cleise olhou para mim, com expressão pesarosa.

Mas ela também sentia que eu, sua amiga de infância, a quem conhecia tão bem como se fôssemos  irmãs, ainda queria chegar em algum lugar com aquela conversa toda, por mais que Cleise realmente quisesse saber dos meus pais.

— E quando foi que o Mateus entrou nessa história? - perguntou de supetão .
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Bingo! Como imaginei.
Brinquei com o bebê que estava acordado e mexendo braços e perninhas , como se pudesse realmente tocar o mobile .
Dei corda e começou a tocar "Berceuse"...
Ótimo fundo musical para acalmar os ânimos ! 😜
— Então ...ensaiei .
O que dizer agora ?! 
— Quando cheguei à Baia, a solidão voltou 
Tudo bem que havia a faculdade e tanta coisa pra estudar.
Mas ali não conhecia ninguém, e tudo era tão diferente do que lembrava ...
Eu nasci lá , afinal de contas ! E morei bastante tempo ...
Cresci lá . Mas quando cheguei , não tinha mais as referências que eu conhecia .
Lojas haviam fechados , outras abriram no lugar...
Lembra daquela vez que a gente quis ir à Oceano e o piano bar havia fechado ?

Claro que Cleise lembraria.
Foi quando reencontramos o Clayton depois de tantos anos , na fila da lanchonete nos esperando com aquele " ar Blasé", que me fazia lembrar do Olhar 43 , do RPM.

" E pra você ,
Eu deixo apenas 
Meu olhar 43, aquele assim.
Meio de lado, já saindo embora 
Louco por você , princesa"

Cleise ficou com olhar perdido , com certeza lembrando daqueles tempos felizes, muito mais calmos do que a maternidade  real , muito diferente do que costumam idealizar em sites e revistas especializadas .

Foram momentos especiais, regados a nascer do sol ao som do violão do Clayton. Eu também sentia falta deles...

Mas Cleise, sempre esperta, retomou o assunto principal:

— Agora vamos retomar você e o Mateus! Amiga, ele te traiu ! Como você perdoou isso?

Não tinha mais como evitar .
Abri os braços ,como dissesse abraçar o mundo...ou a mim mesma.

— Tudo que posso dizer é que eu me senti sozinha! Era tanta coisa acontecendo, em casa...
Eu não tinha um minuto de paz .

Saber a teoria é muito diferente de estar no meio do problema, Cleise.
A teoria se esvai quando a solidão bate.

Cleise olhou e me deu um sorriso cumplice . 

Como ela entendia o que significava solidão , pois estava cercada por pessoas e terrivelmente só.

— E como Mateus entrou na história?

— Era uma festa para os calouros, para comemorar o final daquele período.
Eu queria me enturmar , quem sabe ?! Então , reuni coragem e fui.

Havia veteranos por lá , não só do curso de  Psicologia ,como também veteranos , tanto de Psicologia quanto de outros cursos
.
Por coincidência, Mateus estava fazendo pós-graduação lá na faculdade, e também foi à festa. 

— Sozinho?

— Claro né ! - ri - sou doida mas não sou louca!

Cleise riu também. Eu tinha uns ditados muito meus , e Cleise sempre os achou divertido.
Eu tinha saudade de ver Cleise sorrindo .
" Pensando bem...Ainda não tinha visto Cleise sorrir desde que cheguei. Isso é estranho..."

—... E olha que nem é escritora , que fiz  faculdade de jornalismo! 

Perdi o fio da meada pois estava perdida em pensamento. Então fiz um providencial:
— Humhum!

E emendei um assunto antes que ela percebesse que divaguei e não ouvi uma palavra do que disse: 

— Ele se aproximou . Eu tinha bebido um pouquinho mais ,sabe como é. Quando eu o vi parece que tudo voltou , foda- se o bom senso! Quando dei por mim, a gente estava se beijando!

— E depois? – Ela falou baixinho porque Felipe resmungou no berço, para que ele continuasse dormindo.

— Depois a gente teve que conversar. Foi inevitável colocar os pingos nos is...
— E ele ?
— Ele pediu perdão .
Na boa, Cleide  ? O que eu tinha a perder né?
Fui curtir um pouco. Confesso que,no início , eu o estava usando e,  provavelmente, ele fazia o mesmo !

Eu queria sair da solidão e ele, queria ter uma garota para desfilar para os amigos .

Eles já estavam na casa dos 30 anos,né ?
A maioria ali,  ou estava noivo, ou casado - embora as puladas de cerca também aconteciam...é claro ! Mas isso é um outro assunto...

O que importa é que a gente se acertou e ao longo dos meses ele se mostrou mais maduro, mais amigo... Principalmente quando a barra lá em casa passou a pesar demais .

— Entendi...Isso entendi. Mas precisava ficar noiva dele ? De novo, amiga?!

—Olha, amiga...Não tenho explicação. A não ser que eu o amo, e estou apostando que vai dar certo...dessa vez.

Cleise , sem que desse conta do que fazia, desviou o olhar em direção ao quarto , transformado eu ateliê.

— Eu também, Carla ! 

Carla e Cleise se abraçaram , tendo aos pés de Cleise o fiel cão Akira, que também retornara para a casa dele pois ,onde quer que Cleise estivesse, ali era o seu lar.