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sexta-feira, 1 de maio de 2026

capítulo 19- Presente na Porta , Faca na Pia , Husky no Meio


Presente na Porta, Faca na Pia, Husky no Meio


Cleise

Nove da manhã em ponto. Batida na porta. Três toques. Secos. Ensaiados.

Antes de eu abrir, Akira Kurosawa já estava postado na sala. Sentado. Coluna ereta. Orelhas em pé. Rabo fazendo varredura no chão como detector de mentira.

Husky siberiano não late à toa. Ele julga. E ele já tinha julgado que hoje era dia de audiência.

Abri a porta com Felipe no colo. Paula na soleira, sacola cara na mão, gótica chic das nove às nove.

— Bom dia. Trouxe um presente pro Felipe.

Akira levantou. Só isso. Não rosnou. Não abanou o rabo. Levantou, olhou pra Paula por dois segundos e virou de costas. Voltou a sentar entre eu e o berço, de frente pra ela, de costas pra ela.

Recado dado. Husky não manda indireta. Manda direta sem legenda.

Paula piscou. A única rachadura na armadura desde que chegou.

— Oi, Akira... — tentou, voz de quem chama Uber.

Akira bocejou. Teatro puro. Depois deitou a cabeça no meu joelho. Meu. Não dela.

Contexto pra quem chegou agora: Akira foi o jeito que Paula encontrou de “comprar o amor do filho” anos atrás. Deu o husky pro Clayton quando ele ainda morava com a Cléo. Deu errado. Clayton não ficou. O cachorro sim. Hoje Akira mora com a Cléo, mas como advogada virou babá em tempo integral da mãe de primeira viagem, o cachorro se mudou pro meu apartamento. Temporário. Igual à paz.

Cléo apareceu na sala vindo da cozinha. De tailleur, pronta pra audiência das 11h. Viu Paula. Viu Akira de costas pra Paula. E eu juro que vi o canto da boca dela subir 2 milímetros. Vitória pequena, tribunal interno.

— Gente, senta — falei — A Carla já tá vindo com o Mateus. A gente precisa falar do batizado.

Paula ergueu a sobrancelha desenhada no CREA.

— Batizado?

Cléo cruzou os braços. 

— Católico. Apostólico. Romano. — Bateu o martelo sem madeira — A família do Clayton faz questão. Eu e Cleise também.

Akira rosnou baixinho. Não pra Cléo. Pro nome “Clayton” na boca da Paula, que ela ainda ia dizer. Husky tem memória e faro pra intenção.

Paula colocou a sacola na mesa. Tirou uma mantinha de cashmere branca.

— Trouxe pra ele usar na cerimônia. Caso eu seja convidada, claro.

Akira levantou de novo. Cheirou a mantinha de longe. Espirrou. Deitou. Veto canino registrado em ata.

Campainha. Carla e Mateus. Bolo de cenoura na mão, aliança no bolso. 

Akira foi até a porta antes de mim. Cheirou a canela da Carla, abanou o rabo. Uma vez. Cheirou o Mateus. Parou. Encarou. Mateus deu um passo pra trás. Akira sentou. Liberação concedida, mas em condicional. Cachorro é melhor que detector de traição.

— A gente trouxe o bolo pra comemorar os padrinhos — Mateus tentou.

Paula virou pra Carla com sorriso nota de três:

— Que lindo, Carla. Você perdoando traição. Tão... católico da sua parte.

Akira rosnou. Alto. Seco. Pra Paula. Pela primeira vez em 10 minutos ele reconheceu a existência dela. Pra discordar.

Cléo segurou o riso com a mão. Perdeu. Deu pra ouvir.

Carla respirou fundo, modo psicóloga:

— Paula, eu e Mateus estamos reconstruindo. — Olhou pra Akira — E pelo visto vamos ter que reconstruir com o júri também.

Clayton apareceu do ateliê. Camiseta manchada, violão na mão. Akira saiu de perto de mim na hora. Foi postar-se entre o Clayton e o Felipe. Entre o Clayton e eu. Formação de segurança. Porque husky protege a matilha, não o dono.

— Bom dia... — Clayton avaliou a sala — Já começaram sem mim?

Paula mirou nele:

— Clayton. Meu filho. Me diz: sua mãe biológica não tem direito de assistir o batizado do neto?

Akira deitou no pé do berço. Corpo inteiro bloqueando o acesso. Resposta não verbal número três.

Cléo entrou:

— Direito tem. Convite é outra coisa. — Virou pra mim — Cleise, como mãe, a decisão final é sua. Jornalista ou mãe, quem fala agora?

Felipe resolveu vomitar no meu ombro. Akira levantou na hora, cheirou o ar, lambeu minha mão. Checagem de bem-estar. Depois voltou pro posto no berço. 

Limpei com a fraldinha. A que a Paula dobrou em triângulo. Akira bufou. Até ele achava aquela fraldinha suspeita.

— O batizado vai ser na Igreja da Matriz. Sábado que vem. Às dez. — Falei — A Carla e o Mateus são os padrinhos. A família toda tá convidada.

Pausa.

— E eu quero uma foto no altar. Com as duas avós. Uma de cada lado do Felipe. Sorrindo. Pelo menos na foto.

Akira bocejou de novo. Tédio ou deboche, nunca sei.

Paula me olhou. Cléo me olhou. Não se olharam. Akira olhou pra Felipe. Só pra Felipe.

Clayton começou a dedilhar Evidências. Akira uivou junto no refrão. Afinado. Julgamento estético também é com ele.

Carla cortou o bolo. Mateus colocou a aliança. Tremendo. Akira farejou a mão dele depois. Assentiu com a cabeça. Contrato de condicional assinado.

E eu sentei na cadeira de balanço com Felipe. Akira deitado no meu pé, olhos na porta, olhos na Paula, olhos em todo mundo.

Guerra declarada. Café fresquinho. Bolo de cenoura. Husky na tribuna.

Que o santo seja forte. Porque o Akira já é.

capítulo 18


---


"A casa ficando vazia*

carla 

Carla acordou com o choro do Felipe às 5:47 da manhã. O corpo dela, acostumado a madrugadas de plantão, respondeu antes do cérebro.

Cleise já estava de pé, encostada no batente da janela, com o bebê no colo. Não ninava. Só segurava, olhando pro jardim como se esperasse alguém voltar.

— Te acordei? — Cleise perguntou sem tirar os olhos lá de fora.

— Profissionalmente, eu chamo isso de “ser chamada” — Carla sentou na cama, catando o cabelo num coque. — Posso?

Cleise assentiu e passou o Lucas pra ela. O alívio nos braços da amiga foi imediato e visível. Um detalhe que Carla anotou sem julgar.

O silêncio da casa era diferente hoje. Mais oco.

— A Cleo já saiu — Cleise disse, como se respondesse a pergunta que Carla ainda não tinha feito. — Foi resolver a mudança dela. Disse que não pode adiar mais. Volta de tarde só pra buscar as últimas caixas. E o Akira.

Akira Kurosawa. O husky siberiano que uivava pra lua e derrubava a gente de alegria na porta. Era do Clayton, filho da Cleo de consideração. Mas ficou com ela porque o apartamento de Cleise era pequeno demais pra um cachorro que foi feito pra puxar trenó.

— Ele vai sentir falta daqui — Carla comentou, testando o terreno. O Felipe cheirava a leite e sono na curva do pescoço dela. — E vocês dele.

— É — Cleise deu de ombros. Um gesto mínimo que doeu mais que frase inteira. — A casa da Cleo no Recreio é gigante. Lá ele pode correr. Aqui... aqui tá tudo pequeno demais ultimamente.

Carla entendeu o subtexto. Não era sobre metragem. Era sobre fôlego.

Ela esperou o Felipe arrotar no ombro dela, deu duas batidinhas, e só então perguntou, casual:

— E o Roberto?

O nome do marido bateu no ar e ficou lá, suspenso, como poeira. Cleise fechou a cara por um segundo. Não de raiva. De cansaço.

— Trancado no ateliê desde que o Lucas nasceu — ela respondeu, mexendo no próprio cabelo, puxando um fio. — Diz que “precisa criar”. Que a cabeça dele tá “um caos fértil”. Ontem eu bati na porta. Três vezes. Ele nem abriu. Só passou um bilhete por baixo: “Esquenta uma marmita pra mim”.

Carla sentiu o maxilar travar. Como psicóloga, ela conhecia o discurso. Isolamento criativo. Como amiga da Cleise, ela conhecia a palavra certa: abandono.

— Ele já pegou o bebê no colo alguma vez? — Carla perguntou. Precisava saber o tamanho do buraco.

Cleise demorou pra responder. Quando respondeu, foi olhando pro chão.

— No hospital. Pra foto.

Pronto. O segundo dominó tinha caído. Primeiro foi o medo verbalizado na noite anterior. Agora era a confirmação do isolamento. A rede de apoio não estava só furada. Estava sendo desmontada peça por peça.

Lá embaixo, ouviram o portão. Depois, um uivo longo e grave que subiu pelas escadas. Akira Kurosawa tinha sentido a Cleo chegar.

— Ela veio buscar ele — Cleise sussurrou. E pela primeira vez desde que o Felipe nasceu, duas lágrimas desceram, rápidas. Não era pelo cachorro. Era por tudo que o cachorro representava: barulho, vida, visita, uma desculpa pra abrir a porta de casa.

Carla devolveu a criança pra Cleise, mas dessa vez ficou com a mão no braço dela. Âncora.

— Cleo — Carla chamou quando ouviram os passos dela na escada —, espera um segundo antes de descer com ele?

Cleo apareceu na porta do quarto. Mulher de uns sessenta, cabelo curto, argolas grandes. Tinha olheiras de quem também não dormia, mas era de preocupação, não de puerpério. Segurava a guia do Akira na mão.

— Oi, Carla — ela forçou um sorriso. — Já tô indo. Não quero atrapalhar.

— Você não atrapalha — Carla disse, firme. — Você segura. E a gente tá precisando de quem segura.

Cleo entrou. Akira veio atrás, um trator de pelo branco e cinza, e enfiou o focinho gelado na perna de Cleise. Ela se desmanchou. Choro de verdade, agora, enterrando os dedos no pelo do cachorro.

— Ai, meu filho — Cleo se ajoelhou também, abraçando os dois. — Eu não queria ir agora. Mas a casa já tá alugada, e o Clayton...

— Eu sei — Cleise soluçou. — Eu sei. Desculpa. É que quando você for, vai ficar só...

Ela não completou. Não precisava. “Só eu e o fantasma do Roberto no ateliê”.

Carla respirou fundo. Hora de usar a técnica, mas com afeto.

— Certo — ela bateu uma palma, leve, chamando as duas pro plano. — A gente não vai resolver a vida toda hoje. Hoje a gente resolve as próximas seis horas. Cleo, você pode adiar o Akira em uma semana? Só uma. A gente paga o pet shop, o que for. Cleise, você e eu vamos tomar café. Um café decente, com pão na chapa. E depois — ela ergueu o dedo, olhando pra porta do corredor, onde ficava o ateliê — a gente vai bater naquela porta. Juntas.

— Ele não vai abrir — Cleise disse, automática.

— Pra você, talvez não — Carla deu de ombros, imitando o gesto dela de mais cedo. — Mas pra fome, ele abre. E pra uma psicóloga amiga da esposa dele com um husky siberiano de 30kg arranhando a porta, ele abre também.

Cleo soltou uma risada de surpresa. A primeira da manhã.

— Você é doida, Carla.

— Sou — Carla piscou. — E tô de plantão.

Akira latiu, uma vez, como se votasse a favor. Felipe, no colo da mãe, abriu um olho, julgou a bagunça toda, e voltou a dormir.

Pela janela, o sol de manhã batia no jardim. A casa ainda ia ficar vazia. Mas não hoje. Hoje, eles tinham comprado mais um dia. E às vezes, no puerpério, um dia é um país inteiro.

---

*

Carla acordou com o choro do Felipe às 5:47 da manhã. O corpo dela, acostumado a madrugadas de plantão, respondeu antes do cérebro. 

Cleise já estava de pé, encostada no batente da janela, com o bebê no colo. Não ninava. Só segurava, olhando pro jardim como se esperasse alguém voltar.

— Te acordei? — Cleise perguntou sem tirar os olhos lá de fora.

— Profissionalmente, eu chamo isso de “ser chamada” — Carla sentou na cama, catando o cabelo num coque. — Posso?

Cleise assentiu e passou o Felipe  pra ela. O alívio nos braços da amiga foi imediato e visível. Um detalhe que Carla anotou sem julgar.

O silêncio da casa era diferente hoje. Mais oco.

— A Cleo já saiu — Cleise disse, como se respondesse a pergunta que Carla ainda não tinha feito. — Foi resolver a mudança dela. Disse que não pode adiar mais. Volta de tarde só pra buscar as últimas caixas. E o Akira.

Akira Kurosawa. O husky siberiano que uivava pra lua e derrubava a gente de alegria na porta. Era do Clayton, filho da Cleo de consideração. Mas ficou com ela porque o apartamento de Cleise era pequeno demais pra um cachorro que foi feito pra puxar trenó.

— Ele vai sentir falta daqui — Carla comentou, testando o terreno. O Felipe cheirava a leite e sono na curva do pescoço dela. — E vocês dele.

— É — Cleise deu de ombros. Um gesto mínimo que doeu mais que frase inteira. — A casa da Cleo no Recreio é gigante. Lá ele pode correr. Aqui... aqui tá tudo pequeno demais ultimamente.

Carla entendeu o subtexto. Não era sobre metragem. Era sobre fôlego.

Ela esperou o bebê  arrotar no ombro dela, deu duas batidinhas, e só então perguntou, casual:

— E o Clayton?

O nome do marido bateu no ar e ficou lá, suspenso, como poeira. Cleise fechou a cara por um segundo. Não de raiva. De cansaço.

— Trancado no ateliê desde que o Felipe nasceu — ela respondeu, mexendo no próprio cabelo, puxando um fio. — Diz que “precisa criar”. Que a cabeça dele tá “um caos fértil”. Ontem eu bati na porta. Três vezes. Ele nem abriu. Só passou um bilhete por baixo: “Esquenta uma marmita pra mim”.

Carla sentiu o maxilar travar. Como psicóloga, ela conhecia o discurso. Isolamento criativo. Como amiga da Cleise, ela conhecia a palavra certa: abandono.

— Ele já pegou o Felipe no colo alguma vez? — Carla perguntou. Precisava saber o tamanho do buraco.

Cleise demorou pra responder. Quando respondeu, foi olhando pro chão.

— No hospital. Pra foto. 

Pronto. O segundo dominó tinha caído. Primeiro foi o medo verbalizado na noite anterior. Agora era a confirmação do isolamento. A rede de apoio não estava só furada. Estava sendo desmontada peça por peça.

Lá embaixo, ouviram o portão. Depois, um uivo longo e grave que subiu pelas escadas. Akira Kurosawa tinha sentido a Cleo chegar.

— Ela veio buscar ele — Cleise sussurrou. E pela primeira vez desde que o Felipe nasceu, duas lágrimas desceram, rápidas. Não era pelo cachorro. Era por tudo que o cachorro representava: barulho, vida, visita, uma desculpa pra abrir a porta de casa.

Carla devolveu o " embrulhimho cheirando a talco e leite " pra Cleise, mas dessa vez ficou com a mão no braço dela. Âncora.

— Cleo — Carla chamou quando ouviram os passos dela na escada —, espera um segundo antes de descer com ele?

Cleo apareceu na porta do quarto. Mulher de uns sessenta, cabelo curto, argolas grandes. Tinha olheiras de quem também não dormia, mas era de preocupação, não de puerpério. Segurava a guia do Akira na mão.

— Oi, Carla — ela forçou um sorriso. — Já tô indo. Não quero atrapalhar. 

— Você não atrapalha — Carla disse, firme. — Você segura. E a gente tá precisando de quem segura.

Cleo entrou. Akira veio atrás, um trator de pelo branco e cinza, com olhos azuis como céu, e enfiou o focinho gelado na perna de Cleise. Ela se desmanchou. Choro de verdade, agora, enterrando os dedos no pelo do cachorro.

— Ai, meu filho — Cleo se ajoelhou também, abraçando os dois. — Eu não queria ir agora. Mas a casa já tá apertada , e o Clayton...

— Eu sei — Cleise soluçou. — Eu sei. Desculpa. É que quando você for, vai ficar só... 

Ela não completou. Não precisava. “Só eu e o fantasma do Clay no ateliê”.

Carla respirou fundo. Hora de usar a técnica, mas com afeto.

— Certo — ela bateu uma palma, leve, chamando as duas pro plano. — A gente não vai resolver a vida toda hoje. Hoje a gente resolve as próximas seis horas. Cleo, você pode adiar o Akira em uma semana? Só uma. A gente paga o pet shop, o que for. Cleise, você e eu vamos tomar café. Um café decente, com pão na chapa. E depois — ela ergueu o dedo, olhando pra porta do corredor, onde ficava o ateliê — a gente vai bater naquela porta. Juntas.

— Ele não vai abrir — Cleise disse, automática.

— Pra você, talvez não — Carla deu de ombros, imitando o gesto dela de mais cedo. — Mas pra fome, ele abre. E pra uma psicóloga amiga da esposa dele com um husky siberiano de 30kg arranhando a porta, ele abre também.

Cleo soltou uma risada de surpresa. A primeira da manhã.

— Você é doida, Carla.

— Sou — Carla piscou. — E tô de plantão.

Akira latiu, uma vez, como se votasse a favor. Felipe , no colo da mãe, abriu um olho, julgou a bagunça toda, e voltou a dormir. 

Pela janela, o sol de manhã batia no jardim. A casa ainda ia ficar vazia. Mas não hoje. Hoje, eles tinham comprado mais um dia. E às vezes, no puerpério, um dia é um país inteiro.



*

17 -o elefante na sala

Carla 

"Paula foi embora e Cleo foi atender a um antigo cliente. Embora aposentada , ela não podia dizer não a quem pedisse socorro , e foi o que ele fez: implorou um socorro urgente.
Clayton por sua vez ,ainda com comportamento de depressão pós parto masculina ...
Coitada da minha amiga ..."
Terminei de arrumar a cozinha .
Pensei que ia sair uma guerra , mas a tapioca com requeijão e carne seca só fez todo mundo ficar de boca cheia e não falar besteira.
Fui em silêncio até o quarto da Cleise e bati na porta devagar .
Ela falou entra bem baixinho e entendi , o anjinho estava dormindo , finalmente.
Coisa boa essa fase , pelo menos ainda não começaram as cólicas ...
Olhei pra Cleise." É,amiga , nem imagina o que te aguarda"
A irmã do Mateus também está com bebê recém nascido...Mais uma razão para eu vir ver a Cleise.
**
O quarto cheirava a lenço umedecido e leite. Carla não perguntou nada. Só empurrou a porta com o quadril porque as duas mãos seguravam uma caneca fumegante.
 — Trouxe chá. Sem cafeína. E roubei um pedaço daquela goiabada que você escondeu da sua mãe — ela sorriu, colocando a caneca na mesinha. — Pra gente. Não pro bebê.

 Cleise estava na poltrona de amamentação, mas o bebê dormia no berço. Ela olhava pro vazio.

— Não vejo minha mãe faz um tempo...e ela nem gosta de goiabada .
Carla riu .
— Falei da sua mãe de consideração...a Cléo, vejo a relação de vocês duas ...é mais que carinho de avó...sabe disso !

 Carla se sentou na beirada da cama, não na poltrona de frente. Lado a lado é menos confronto.

— O puerpério é um país estranho, né? — Carla disse baixo. — Dizem que é amor à primeira vista, mas esquecem de avisar que a gente chega lá depois de uma guerra, sem dormir e sangrando.
 
Cleise deu uma risada curta, que virou soluço. 

 — É exatamente isso.

 Carla pegou o chá pra Cleise, esquentando as mãos dela com a caneca. 

 — Sabe, na faculdade a gente estuda uma coisa chamada ‘baby blues’. Atinge tipo 80% das mães. É o corpo despencando de hormônio, é o susto, é o medo. Dá uma tristeza do nada, um choro... dura uns 15 dias. É esperado.

 Ela fez uma pausa, olhando pro berço. 
 — O que me preocupa, como sua amiga, não como psicóloga, é quando passa de 15 dias e a gente continua se sentindo no fundo do poço. Quando o amor pelo bebê vem com uma culpa gigante junto. Ou quando a gente começa a ter uns pensamentos que assustam.

 Carla olhou pra Cleise. Não era pergunta. Era uma porta aberta.


 Cleise não respondeu. Os dedos dela alisaram a borda da caneca, sem parar. Uma, duas, dez vezes. Quando falou, a voz saiu arranhada:
 
 — E se eu... se eu me arrepender?

 O coração da Carla apertou. Diagnóstico não era a palavra da hora. A palavra era “eu tô aqui”.

 — Então a gente fala sobre esse arrependimento — Carla disse, simples. — Sem julgamento. Sem chamar a polícia da maternidade perfeita. Só você e eu, com esse chá ruim.
 
Ela não tocou no termo “depressão pós-parto”. Mas já estava pensando em 2 coisas: 1. Tirar a Cleise do isolamento. 2. Sugerir uma consulta com a obstetra + psicóloga perinatal, “só pra checar os hormônios e o sono”.

 — Se é verdade ou não eu não sei — Cleise repetiu a frase que o avô dela vivia dizendo, olhando pro bebê —, mas eu ando com medo de ficar sozinha com ele. 

— Então você não vai ficar. Hoje eu durmo aqui. A gente vê a madrugada juntas. E amanhã a gente liga pra Dra. Sônia, tá? Não porque você tá “doente”. Porque você acabou de fazer um humano. E isso merece uma equipe.

 

quarta-feira, 15 de abril de 2026

capítulo 16- café fresquinho, guerra declarada

Capítulo 16 - 

Café Fresquinho, Guerra Declarada

Cléo

A porta do quarto fechou com um clique tão baixo que só quem estava esperando por ele escutaria. Eu estava.

Encostei as costas na madeira e deixei o ar sair de uma vez só, como se eu tivesse prendido desde que Paula pisou no corredor com aquele perfume de 25 anos atrás. Um perfume que não envelhece. Diferente da gente.

Felipe dormia no berço, alheio ao fato de que tinha acabado de ser colo de campo de batalha. Anjinho.

Olhei pro violão encostado no canto do ateliê. Quer dizer, do quarto do Clayton. Quarto. Ele ainda erra. Eu não.

Peguei a fraldinha de pano que Paula dobrou. Dobrada igualzinho minha mãe fazia. As pontas em triângulo perfeito, não aquele rolinho preguiçoso que a Cleise faz. 

“Você não volta mais aqui, Paula. Nem que eu tenha que cantar Evidências em dó maior até ficar rouca.”

Falei sozinha. Alto suficiente pro espelho ouvir. Baixo suficiente pra santa da cozinha não escutar.

Cozinha, 3 minutos depois

O cheiro da tapioca da Carla brigava com o cheiro do café novo. A Carla sempre ganha. Baiana não perde briga de cheiro.

Paula já estava na minha cadeira. A de frente pra janela. A que bate sol às cinco. A minha.

— Cléo! — Cleise me viu primeiro e apontou o bule — Veio bem na hora. Carla fez café.

— Eu fiz tapioca também — Carla completou, já empurrando um prato na minha direção — De carne seca com requeijão. Da que o Clayton gosta.

Clayton mastigava e não olhava pra ninguém específico. Talento dele. Desde sempre.

Paula pegou a garrafa térmica como se fosse dona dela. Serviu meu copo primeiro. Dois dedos. Sem açúcar. Do jeito que eu bebo.

Minha vontade era jogar o café na parede. Minha boca fez outra coisa:

— Obrigada, Paula. Você lembra de tudo, né?

Ela sustentou o olhar. Sorriu aquele sorriso de nota de três reais que a Cleise descreveu tão bem. Acho que é contagioso.

— Algumas coisas a gente não esquece, Cléo. Igual andar de bicicleta. Ou dobrar fraldinha.

Cleise olhou de mim pra ela. O radar dela funcionou. Tardiamente, mas funcionou.

— Gente, o café tá ótimo — ela tentou — A gente devia repetir esses lanches. Né, Clay?

Clayton engoliu. Limpou a boca com o guardanapo de pano. Outro detalhe meu na casa.

— Devia — ele disse. — A música ontem fez bem pra todo mundo.

Pausa. Aquela pausa que pesa mais que mobília de madeira maciça.

Aí Paula fez o movimento dela. Xeque.

Colocou a xícara no pires sem fazer barulho nenhum. Coisa de gente treinada. Inclinou o corpo só um pouco na direção da Cleise, tirando eu e Carla da conversa com o ombro.

— Posso visitar o Felipe de novo amanhã, Cleise? — perguntou. Voz de mel. — Ele é tão calminho no meu colo. Parece que a gente se conhece de outras vidas.

Eu vi a Cleise vacilar. Um segundo. O segundo que separa a paz da guerra.

Porque eu conheço esse tom. Foi o mesmo que ela usou há 25 anos quando disse: “Cléo, posso dançar essa com o Clayton? Só essa.”

E foi só essa. Até não ser.

Carla, abençoada seja, quebrou o silêncio enfiando outra tapioca goela abaixo do Clayton.

— Come, meu rei. Tu tá magro.

Eu peguei meu café. Dois dedos. Sem açúcar. Gelado já. E dei o meu sorriso protocolar. Aquele que usei no capítulo passado e que agora passo pra Cleise como bastão.

— Claro que pode, Paula — eu respondi por ela — Essa casa é grande. Cabe todo mundo.

Menti. A casa tá pequena. Pequena demais pra três mulheres e um violão desafinado.

Cleise me olhou com gratidão. Coitada. Achou que eu estava sendo amiga.

Clayton olhou pro violão que tinha deixado no corredor. Depois olhou pra mim. Depois olhou pro chão. O de sempre.

E a Paula? A Paula bebeu o café devagar. Como quem tem tempo. Como quem sabe que guerra boa é guerra fria, servida em xícara de porcelana.

Fim do café.  
Começo da guerra.

terça-feira, 30 de dezembro de 2025

capítulo 15- o Lado B

Capítulo 15- O lado B

Cleise 

Eu terminava o banho de Felipe quando percebi entrar no meu quarto a Cléo, com uma expressão confusa e que falava uma coisa no sorriso forçado, e outra, totalmente oposta, no olhar. 

Ainda pensava no que poderia ter  causado tamanha reação nela  quando reparei quem entrou atrás dela: o Clayton!E não estava sozinho...

Foi quando entendi a origem do mal-estar evidente de Cléo, mas eu não podia deixar a peteca cair... 

Meu marido  estava acompanhado ...por ela..Sim, era ela mesma , a Paula ! 🤯

Era como se num piscar de olhos, estivesse de volta no tempo e  às quadras de futevôlei...

Mas me  preparei para "devolver" aquele  saque como fosse possível , evitando o ponto certeiro para o time adversário, naquela partida imaginária que rolava bem ali , no meu quarto, mesmo que só na minha imaginação.... E respirei fundo.

 Fechei lentamente os últimos botões de pressão do body que eu tinha acabado de vestir no Felipe , para assim consegui ganhar uns preciosos segundinho a mais... Era um tempo extra precioso para que eu pudesse pensar em como agir em seguida sem provocar , sem querer, a guerra prestes a explodir...

 Por fim,  peguei o "meu embrulhinho com cheirinho de talco" e , sentei confortavelmente na cadeira de balanço. 

Simulei  uma  alegria tão sincera na voz quanto uma nota de três reais e , é claro,  sorri para confirmar a farsa. Por fim, os convidei para se acomodarem ao meu lado.

Clay se sentou na beirada da cama, de frente para mim, e Paula sentou - se ao lado dele .

Clayton sutilmente se afastou dela, e ela percebeu o movimento , mas não reagiu .

Cléo olhou, certamente analisando a cena , pois apertou os olhos e disse que  ficaria em pé , com a desculpa que logo teria que retornar à cozinha , já que Carla não tinha retornado, ainda, do mercado ....

— Essa época costuma lotar mesmo , não é?

Ninguém se deu ao trabalho de responder, pois era óbvio ser uma pergunta retórica, para preencher lacunas ...

Então , agora era a vez do meu movimento nesse jogo de xadrez improvisado.

" Bom..."pensei. "Vamos começar pelo .. começo". Movi o peão ♟️e fiz uma pergunta exploratória: 

— Como vai, Paula ? 
— Nossa , como o Felipe está grande ! Um pouco mais de ....
E deixou a pergunta no ar .

"Interessante que ela não se lembrasse ,afinal foi ela quem me trouxe aqui logo após eu receber alta do hospital." 

Eu poderia ter feito um gracejo comentando ser algo perfeitamente natural ter lapsos de esquecimento após os 60 anos ? Poderia...

 Mas olhei para aquela mulher ali, se esforçando bastante para aparentar ter metade da sua idade real , e mudei de ideia...

— Um mês ! - respondi , solicita
— Isso mesmo ! Um mês, já?!... Como o tempo passa rápido, né! 
— É...
E o assunto morreu ali.

O mal estar era grande demais ,
 pesado demais.Era como se qualquer tema , por mais banal que fosse , representasse um objeto  nessa versão adulta e inusitada,  do jogo infantil "batata quente"
 
A gente lançava o objeto e esperava que o outro não deixasse o assunto  morrer.... 

Mas dessa vez foi a vez do Felipe jogar ! 👶🏻E ele começou a chorar, inconsolado.

— Posso ?- Paula perguntou.

Pensei em dizer que não... Imaginei o que eu poderia dizer pra justificar a recusa: que ela tinha chegado da rua e estava cheia de anéis e pulseiras que poderiam machucar a pele delicada dele ..

Mas olhei pra Cléo e quase pude decifrar os olhos dela dizendo : 
" Deixa, Cleise! " . E eu resolvi acatar , por ela e suspirando , consenti:

— Claro, Paula ! 

Passei o Felipe para ela e ela segurou o bebê com extrema familiaridade .

Por instinto, eu falei :
— Consegue segurar ?

A resposta , que era óbvia, veio na forma de um sorriso e um braço estendido, cheio de pulseiras e anéis , para receber o meu bebê .

"É óbvio, Cleise . Ela sabia como segurar um bebê!"- Falei com meus botões enquanto acomodava o pequeno no colo dela .

Por um momento eu realmente compreendi: ali , entre todos ali presentes , apenas a Paula era, realmente, capaz de entender a maternidade em toda a complexidade da coisa...

O lado bom ...e o lado ruim..o lado B...Porque sempre existe o lado B né .


— O que foi Cleise ?

— Nada ...Tava pensando 🤔 bobagem...minha mente voou , agora ...

— Hum...pensou em quê?

— Em música . Como antigamente as melhores canções de um disco estavam sempre no lado A , mas verdadeiras pérolas se escondiam justamente no Lado B.

O lado alternativo de muitas obras , algumas até mais intimistas ou sem necessidade de agradar ao público, que já estava " alinhado ao lado A. Do disco " . O lado B era considerado "o lado do artista" .
Ela ajeitou a fraldinha de pano que eu mantinha perto do rostinho de Felipe , com a dupla função de limpar algo ou evitar que algum inseto se aproximasse do rostinho dele e perturbasse-lhe o sono...

— Verdade - respondeu-  Interessante comentar isso.
Sempre gostei ...A gente sempre gostou de música ...

Disse, olhando e esperando que Cléo aproveitasse a deixa , numa espécie de resgatar um tipo de acordo mútuo ...Afinal, 25 anos representavam muitas histórias para contar... juntas.Mas Cléo se fez de desentendida e não mordeu a isca .

Então Paula, sem se intimidar ,  continuou o assunto:
— Lembro de sempre cantar no Bar da Frente , saudade dessa época...Lembra do último karaokê que fizemos lá no Bar da frente ? Foi depois da nossa festa de formatura?

— Não , Paula, não se lembra ?! Cléo falou , por fim.

Claro que ela lembrava ...mas mesmo assim ela resolveu arriscar a sua Torre ...


— Você lembra do sucesso que fizemos ao cantar Evidências naqueles dias de apresentação no Bar da Frente? Cléo falou com saudades.

— Evidências? Não escuto essa música faz um tempo... - comentei . 

— Era uma das músicas preferidas do Clayton para tocar no violão. ...Paula conectou –
Você ainda toca violão,Clay ?

— Não muito .. Faz um tempo que parei ...

— Porque você não tenta tocar para nós alguma coisa ? Será que ainda se lembra ? - Paula perguntou e por um momento vi o brilho passar pelos olhos dele.

Aquela mesma confiança atrelada a uma postura blasé, tal  quando nos reencontrou , a mim e a Carla, naquele dia após deixamos a Ponto G , ao perceber que o novo point era , na verdade uma boate LGBT e, ele nos seguiu com o carro de Cléo .

Nem parece que isso tudo aconteceu há pouco mais de um ano apenas ...

O encontro, após 8 anos de distância, ocorreu por acaso  na entrada da antiga boate que frequentàvamos e que agora tinha virado uma lanchonete .

 Foi ainda na fila da tal lanchonete, onde o atendente ainda me chamou de tia, que encontrei o Clay de pé com aquela atitude desafiadora e, ao mesmo tempo, blasé 😒, nos encarando .


— Tudo bem...Se a Cleise acha que não vai acordar o bebê...ouvi- o murmurar – ...posso tentar relembrar alguma coisa !

— Desde que toque baixinho , não acredito que ele vai se incomodar... - consenti . 

— Um minuto que vou buscar o violão no meu quarto....

 Tossiu ao perceber e se corrigindo, falou em seguida :
 —  no ateliê, quero dizer ! 

Paula olhou pra Cléo e em seguida pra mim. Mas antes que eu pudesse falar algo, Clayton retornou e logo começamos a cantar .

Ele começou a dedilhar Evidências ...Em seguida cantou Canteiros ....

E então , se empolgou e dedilhou Descobridor dos 7 mares e terminou com Malandragem.

Carla chegou das compras e se juntou a nós e por algum tempo relembramos um período em que tudo parecia pequeno diante da beleza do por do sol , ouvindo Clayton tocar violão junto ao barulhos das ondas batendo nas pedras do Arpoador .

Também foi um período turbulento em nossas vidas mas a música tinha o perfeito dom de nos trazer esperança de dias melhores...

Será que a música teria esse mesmo poder novamente?! 

Felipe pareceu gostar da cantoria porque se aninhou nos braços da avó improvável e voltou a dormir.

—Porque vocês não vão até a cozinha ? Fiz umas tapiocas recheadas  e café fresquinhos para o lanche . Carla comentou 

— Jura, Carla ?! Saudade da sua comida !

— Nem vem que eu até cozinho bem, Clayton.- retruquei , rindo .

Nem lembrava a última vez que sorri realmente com vontade , sem ser o sorriso protocolar dos últimos tempos .

— nem se compara com a baiana aqui! Disse, rindo , e ninguém contestou , porque era mesmo verdade .

— Vão lá , Cleise, você mal sai desse quarto! Vão pra cozinha que eu vou aproveitar pra arrumar um pouco e aproveito e olho ele ...- a Cléo falou , e enxotou carinhosamente todo mundo para a cozinha .
















terça-feira, 9 de dezembro de 2025

capítulo 14 - O Quarteto ternurinha



Cléo .
Esperei que ela me ligasse, mas Paula não ligou .

Então qual não foi a minha surpresa quando, naquele sábado , vi Margarida e Paula chegando juntas para a festa na minha casa!

Ela destoava da festa .

Muito embora eu não fosse careta , Paula se vestia de uma forma muito ...diferente, eu diria, das outras e que não parecia ligar  a mínima pra isso!

Ela era bastante segura de si - ao menos foi o que transpareceu à primeira vista...

Depois é que eu descobriria que era apenas uma fachada auto protetora e que ela fazia muita força pra passar essa imagem poderosa!

Mas,  naquele momento, eu ainda  não sabia disso.

A postura dela era cheia de si , até um tanto arrogante ...
E eu? Ah! eu já estava apaixonada , então não pulei fora....Foi meu primeiro erro!

0s ingressos foram vendidos antecipadamente tanto na escola quanto no Bar da Frente! 

O boca a boca faz milagres! Logo vendi todos os ingressos!

Claro que os professores não aprovavam,  mas se a venda não ocorresse durante as aulas , eles só fingiam não perceber e até um ou outro, na verdade, compraram ingressos também! 

Papai liberou a nossa garagem para eu fazer a festa .

Como era uma garagem grande, ideal para dois carros , seria o lugar perfeito para fazer uma festa de arromba para conseguirmos arrecadar dinheiro.

Caprichei na decoração com   muitas cores neon rosa-choque, verde-limão, amarelo fluorescente e luzes piscantes. Muita gente deu palpite mas, na hora do vamos ver mesmo, sobrou tudo pra mim.


Normal , tô acostumada, então achei até bom que assim as coisas vão ficar do meu jeito, afinal , é mesmo a minha casa , nada mais justo !

Peguei emprestado com alguns colegas uns cubos mágicos e distribui pelo espaço , além de algumas fitas cassetes e discos de vinil que estavam arranhados que já não serviam pra ouvir música , mas eram perfeitos para ficar pendurados como parte da decoração. E também alguns painéis nas paredes com bandas da época....

Nos fundos  fiz um pequeno espaço com adereços de cabine fotográfica, como óculos coloridos, perucas e placas com frases icônicas, cobrando uma pequena taxa para quem quisesse ter uma foto exclusiva .

Meu pai conseguiu alugar uma junkbox com karaokê  especialmente para servir como atração para o  evento. 
Cada pessoa comprava uma ficha e podia escolher um sucesso para cantar .

Qual não foi a surpresa quando Paula escolheu uma música e ouvi a voz dela nos primeiros acordes de  Andança, imortalizada na voz de Beth Carvalho.

Aos poucos as meninas de aproximaram e começaram a fazer o coro da segunda voz .

Margarida  e Gisela, do segundo ano, da mesma turma da Paula , eram as mais animadas e conseguiram me arrastar com elas. Por alguns momentos deixei a organização da festa para  cantar no Karaokê 

🎵Olha a lua mansa
A se derramar
(Me leva amor)
Ao luar descansa
Meu caminhar
( Amor ) 
Meu olhar em festa se fez feliz
( Me leva amor )
Lembrando a seresta que um dia eu fiz

Por onde for quero ser seu par🎵

Improvisamos o coro e a gente cantava a segunda voz...quer dizer ...eu até tentei né ! 

Mas , eu fiquei fiquei completamente sem voz quando ouvi Paula cantar como se falasse diretamente pra mim , a letra de" Foi assim  da Wanderléa."

E ela cantou me olhando nos olhos e eu sabia que era pra valer.Ela também gostava de mim! 💓

Mas como seria isso , ali , em pleno Instituto de Educação?

Ano passado o Lulu tinha lançado aquela música falando de que Toda forma de amor é linda .

Toda forma de amor significa a aceitação e o respeito por todas as manifestações de afeto e relacionamentos,independentemente de gênero, orientação sexual, ou padrões sociais, defendendo a liberdade de amar e ser amado sem julgamentos ou preconceitos,
 Mas sabe como é... 

Na teoria tudo é lindo e maravilhoso, mas na prática há muito preconceito, em especial para mulheres gays, ou lésbicas .

A novela "Vale Tudo" , da Rede Globo, no ano passado , teve a ousadia  de apresentar um casal de lésbicas, Laís e Cecília, cujos relacionamentos eram tratados de forma discreta, mas que trouxeram o tema para a grande mídia.

O movimento lésbico operou em um cenário de redemocratização do país, buscando incluir a proibição da discriminação por orientação sexual na nova Constituição Federal de 1988, o que gerou intenso envolvimento político.

Muita coisa boa tá vindo por aí .
Vamos ver se as leis vão pegar né , sabe como é Brasil .... A constituição, novinha em folha , tem apenas 1 ano de implementada, é cedo para falar muita coisa , acredito que a luta ainda será grande pela frente!

Na teoria é sempre assim , tudo sempre é lindo...

Tanto não funciona como dizem que o escritório do meu pai tá sempre lotado de petições para divórcio ...
Enfim !
0 sorteio aconteceu ainda com a festa rolando e o primeiro prêmio saiu .
Todo mundo ficou ansioso.
Mas foi ela, a Paula quem faturou  o microsystem!

Eu já tinha 18 , quase 19 anos na época e mesmo sendo uma das primeiras vezes, após tirar a carteira de motorista , que eu dirigia sozinha , fiz questão de levá-la em casa junto com o prêmio que ela havia ganhado na rifa.
Passamos a ser conhecidas desse dia com o nome de
 " Quarteto Ternurinha". E éramos até convidadas pelo dono do bar para dar uma palinha com alguns sucessos! rsrs 

Acabou que ele dava as fichas de junkbox de graça pra gente e,  em troca , o bar dele passou a juntar gente com a atração inusitada! 

A gente passou a se apresentar com uniforme, mas mandei improvisar um broche parecido com o nosso do instituto...

Vai que ...
Afinal , não quero prejudicar meu pai e o escritório dele!

Eu  era apaixonada por música e dedilhava, acompanhando o violão com voz afinada , Canteiros de Fagner , especialmente para ela e essa música passou a ser minha declaração de amor, um amor que começou em segredo, mas floresceu nas sombras, embalada por Canteiros .


segunda-feira, 1 de dezembro de 2025

capítulo 13 - primeiro encontro

.
Cléo 
Ela estava lavando a louça quando ouviu o interfone , afixado na parede, tocar .
- Ué, que estranho ! O seu Zé não ligou perguntando se eu autorizava alguém subir ! Quem será ?

Conferiu a identidade do visitante pelo "olho mágico" na porta e tudo fez sentido.

Era Clayton que voltava ... 
- Mas se ele tem a chave , então.. 

Ao olhar  viu ao lado dele , quem o acompanhava...e  compreendeu o gesto do seu "filho do coração". 

Ele não estava sozinho ... estava acompanhado...Dela!

Eu não via Paula há pelo menos um ano. Desde aquela nossa viagem - uma das muitas que fizemos , ao longo de 25 anos morando juntas .
Fomos, ano passado , para São Tomé das Letras.
Na época eu tinha acabado de vencer uma causa de um processo longo, no qual trabalhei por meses defendendo minha cliente .
Com a grana extra que entrou ao ganhar o processo, resolvi que era um momento de dar uma pausa no escritório e tirar as merecidas férias, sempre adiadas !
Paula estava, há tempos querendo viajar, e o nosso relacionamento já não estava muito bem..
Mas a gente sempre ignora os sinais e acha que basta deixar rolar que tudo se ajeita..

Como foi que , justamente eu, advogada acostumada com processos de divórcio ,não consegui enxergar o que rolava com minha mulher bem debaixo do meu nariz ? 🙈 

O fato é que não percebi até ser tarde demais...

Enfim, viajamos . Ia ter o tal festival gótico na cidade..mas o lugar era muito especial e tinha muita coisa pra fazer , além do evento noturno. 

O festival pra valer seria  à noite , mas foi em plena luz do dia , à vista de todos , que a perdi. Para um homem!!

Ela se envolveu com o Gustavo, num relacionamento tórrido e fulminante....

Ver Paula me trouxe uma enxurrada de emoções e enquanto minha mandíbula se abria num sorriso falso e costumeiro , com o qual eu recepcionava novos e potenciais clientes , sempre desejosos de compreensão e de um tapinha nas costas e um protocolar " vai ficar tudo bem " , eu sorria enquanto fazia as honras daquela casa que não era minha, para a mulher que havia sido minha companheira por duas décadas e que havia jogado tudo fora...pelo quê, mesmo ?

Era o último ano daquela década de 1980.
Todas as alunas aproveitavam o intervalo entre as aulas da manhã e da tarde, quando fazíamos o estágio do antigo curso de Formação de professores, o IERJ- instituto de educação do Estado do Rio de janeiro, onde aprendamos a lecionar para turmas do antigo  primário,  atualmente chamado de  primeiro segmento da educação básica em escolas infantis próximas  com convênio com a instituição.

O estágio geralmente ocorria em escolas da rede oficial de ensino, que mantinham convênios com o Instituto. 

Uma parte significativa da carga horária podia ser realizada em instituições de aplicação, como o Instituto de Aplicação Fernando Rodrigues da Silveira (CAP/UERJ), que serviam de campo de experimentação e referência.
A tarefa era simples .
Eu ia aproveitar o intervalo dos turnos para oferecer a rifa que iria correr no próximo sábado pela loteria federal.
Na década de 80 a caixa econômica não realizava diretamente o sorteio das rifas não .
Mas os sorteios das rifas eram realizados com o resultado do sorteio feito de forma pública pela loteria.
Os sorteios eram - e ainda são - realizados de forma física, com auditores e bilhetes físicos em eventos abertos ao público a fim de garantir a transparência .
As pessoas compravam o bilhete disponibilizado e o número que vinha no bilhete tinha que coincidir com a numeração do primeiro prêmio do sorteio oficial segundo a data estabelecida .

E na intenção de fechar os números que faltavam eu fui , uniformizada mesmo , vender a rifa no Bar da Frente que era o bar que ficava próximo ao instituto e que servia de point para muita treta, muita amizade e muita azaração .

Claro que existia já a proibição de máquinas e jogos para pessoas uniformizadas ,mas no máximo ali existia  um junkbox , máquina  que a garotada colocava uma ficha , escolhia uma música especial e que embalava os corações juvenis ! 🥰

Não era só as garotas que estavam no bar .
Ah! Não rsrs 
Recém -saidos da infância e ainda cheirando a leite e com uns fios insuspeitos de barba, os "galinhos de briga"  aproveitavam o Bar da Frente para ir ciscar o terreiro.

A trovinha da música infantil falava bem de como era essa época .

🎵2x7 são 14
      3 x 7 são 21
      Tenho 7 namorados 
      E só posso casar com um!🎵


Mas a musica não parava por aí , e explicava em poucos versos , tudo que rolava ali , no Bar da Frente .! ! 

🎵Namorei um garotinho do 
Colégio militar 
O danado do garoto 
Só queria me beijar 

Ah! Eu entrei na roda 
Eu entrei na roda dança 
Eu entrei na roda dança 
Mas não sei dançar 🎵

Pois é ! Eu nem sabia que estava sendo convidada pra essa dança, naquele momento.

É que pela primeira vez , não era eu quem ia tirar pra dançar !

Não posso criticar os rapazes do colégio militar.
As normalistas do instituto eram moças casaidoras , algumas ali só estavam cumprindo o combinado.
Era uma profissão possível e considerada tipicamente feminina para os padrões da redemocratização da época , passando por tantas transformações sociais naquele momento do país .

Depois eu mesma só estava também cumprindo com o tal protocolo..porque eu sabia que meu futuro era num tribunal , cuidando do escritório de advogados do meu pai.

Eu não estava nem aí de ter que seguir o caminho aberto por ele .

Meu pai lutou muito para poder construir o nome dele, e eu achava justo que eu ajudasse a manter o nome e não via problema nenhum em seguir os passos dele.

Até achava bom porque eu já ia começar " de cima".
Era só fazer o curso de direito e o resto da minha vida já estava garantido .

Eu ajudava no escritório com pequenas tarefas aqui e ali,levava água , café e documentos, coisa pouca , e mais observava e principalmente, ouvia . Eu era esperta , sabia que muito era dito e mais ainda tinha que ser subentendido nas entrelinhas .

Tinha que saber ler o cliente e isso , modéstia à parte , herdei de meu pai .

Talvez essa tenha sido a razão pela qual fui escolhida para vender e arrecadar dinheiro para a gente fazer a sonhada festa de formatura de final de curso , na boate Oceano's.

Foi o meu pai através do escritório dele que garantiu o prêmio para ser oferecido no sorteio: um aparelho de Som , modelo  1989 , estalando de novo, na caixa !

Era um 3 x 1 Cdplayer da Gradiente .
Tocava fitas , Rádio Am/ FM e também CD player . Tecnologia de ponta e super desejado , na época ..top!!!

Entrei com meu uniforme, impecável ,  como se tivesse acabado de chegar pra primeira aula da manhã , embora fosse mais de meio dia , em pleno calor do Rio de Janeiro 🌡️

Eu estava com o broche com a estrela e as três barras bem visível , deixando claro que eu era a veterana do último ano ali .

Eu sentava em cada mesa, um pouquinho, puxava papo , sempre sorrindo, o maxilar já doendo pelo esforço do sorriso .

Me aproximei da mesa onde as duas garotas estavam .

Uma delas me olhou de cima abaixo e fechou o cenho, mas não disse nada.
A outra estava entretida, devia contar algo importante.

Ambas estavam comendo uns porção de bolinho de bacalhau .
Ao lado delas uma lada de azeite.

Estavam aparentemente tomando refrigerante , mas não me admiraria nada que fosse batizado e que o inócuo refrigerante na verdade escondesse uma Cuba Libre.

Claro que já era proibido servir bebida alcoólica para menores, mas a fiscalização não era lá muito eficiente .

Depois cuidavam mais de ter menores uniformizados jogando em máquinas de fliperama .

Mas ali no Bar da frente só tinha uma JunkBox com músicas dos anos 70 e alguns sucessos atuais que faziam muito sucesso com os jovens .

E até rolava uma dança e um karaokê improvisado !

Me aproximei da mesa das garotas . Percebi que no peito delas havia o broche com estrela e duas barras , sugerindo o segundo ano.

Seria mais fácil apelar para concluintes , mas não custava tentar...

— como estão ? Gostariam de participar da Rifa ?

A morena , com um jeito diferente no olhar , que depois descobri ser estilo gótico , fechou a cara e foi direta :
— Não quero comprar nada ! Obrigada 
— Paula , não  custa ajudar!  - a outra falou .
— Custa sim , Margarida, não é de graça !
— Desculpa, ela não costuma ser assim tão azeda , né, Paula ?
Qual o prêmio da rifa ?
— Um 3 x 1 da Gradiente , CD player! - respondi , sem perder o rebolado.
— Na caixa ?! 
— claro ! Tem nota fiscal e tudo certinho
Foi oferecido pelo escritório...de advogados do meu pai ! - disse, enfatizando a procedência do objeto.

Paula desviou o olhar para que não percebesse que estava encarando Cléo e olhava de um jeito ...

— E quando será o sorteio ?
— Sábado agora.
Terá uma festa na minha casa para arrecadar mais recursos e o sorteio será transmitido pela TV então o ganhador será informado na hora, na frente de todo mundo!
— Tudo bem - Paula falou . Vou querer então dois números , já que é para uma boa causa.
— Também vou querer ajudar.
— ótimo.
E entregou o canhoto delas do bilhete .

Era hora de voltar pra sala de aula e ela chamou o garçom para acertar a conta.
O garçom entregou o valor do pedido acompanhado de um pedido e um papelzinho , com um número de telefone e um  nome : Cléo.