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sábado, 27 de junho de 2026

Depois de tudo


Capítulo "Depois de tudo"  
Cleise

Pensei que já tinha acontecido coisa o bastante pra várias sessões de terapia. Era coisa que não acabava mais. Já me via com meses de sessão pela frente... 

Me enganei redondamente.

Como numa novela mexicana, Paula veio até aqui em casa atrás da Cléo pra continuar a DR. Me senti a própria Maria do Bairro. Rir pra não chorar.

Mas a Thalia ao menos já criou os dois filhos dela e, mesmo com 54 anos, ainda está lindíssima. Aposto que não tem essa barriga flácida que eu exibo pro meu desespero.

As famigeradas estrias, então! As linhas brancas tomaram não só a bunda como a barriga flácida e surgiram logo após o parto. Não adiantou usar cinta nem fazer dieta pra voltar ao peso.

Ainda tentei os óleos de rosa mosqueta, de uva, de amêndoas. Tudo com promessa de zero estria. Funcionou... só que não!

Só as indústrias cosméticas devem ter se dado bem e enriquecido graças a moi.

Dessa vez o ring não era na antiga casa delas. Talvez assim, num campo neutro, a briga fosse menor.

Ok. A minha casa, transformada em ring pra duas se degladiarem, nem era um ambiente tão neutro assim. Mas nem tanto quanto seria na casa da Cléo no condomínio do Recreio, onde moraram juntas por 25 anos.

Fui pro quarto e deixei a cozinha pras duas se acertarem. Desde que não colocassem fogo na cozinha, tudo bem.

Olhei pra Felipe. Ele sorriu pra mim.

Sei que neonatologista diria que é reflexo. Que com sessenta dias é cedo demais pra sorrir de verdade. Mas mãe é mãe. Não me contive e sorri de volta. E Clay entrou no quarto nesse minuto.

Tinha que ser justo agora?  
Depois de tudo o que ele disse. Do que eu disse. Depois do "te beijei sem querer, Cleise"?

— Oi!  
— Oi.

Um diálogo inteiro num "Oi". Mas se isso não serve nem pra post do blog, quem dirá pra nós dois.

Quebrei a tensão. Ainda com o grito de PENTACAMPEÃO preso na garganta:

— Brasil finalmente foi pentacampeão!  
— Só levou 7 anos e 353 dias. Mas quem é que está contando?

Eu ri. Ele riu também. Fazia tempo que a gente não ria junto. Doeu e aliviou no mesmo segundo.

— Precisamos marcar o batizado.  
— É. — Ele olhou pro Felipe, não pra mim. — Depois que as duas ali se acertarem. Ou não. Não sei. Que não seja preciso outra briga. Mas elas são avós, precisam estar no batizado.

— É, Cleise. Eu sei. — A voz dele baixou. — Não queria a Paula lá, mas não tenho como dizer não.

— Não é justo.

Ele sorriu. De canto. Essa era minha frase preferida. Ele sabia. Eu sabia que ele sabia.

— É justo! — confirmou. E doeu igual.

Silêncio. Felipe fez um barulhinho entre nós dois.

— Precisa chamar também o Roberto e a Dona Margarida, sua mãe.  
— É. — Ele passou a mão no rosto. — Também vou precisar de um ring. Seria muito pedir também por um campo neutro? Nem eu me humilhando a minha mãe baixou a guarda. Nem o Felipe conseguiu abrandar o coração dela. Bendito ciúme.

— É.

Putz, Cleise, mal começaram a conversar e você se sai com essa?

— Não foi indireta, Clay.  
— Eu sei. — Ele me olhou de verdade, pela primeira vez. — Você não costuma ser cruel.

Mereci essa. Mas não desisti de conversar. A terapia é terça. Hoje ainda é domingo. Ainda somos nós dois e um bebê de sessenta dias.

— Temos que marcar também o nosso encontro no restaurante. Vou falar com a Cléo e ver quando ela pode ficar com Felipe. Não quero ter que pedir pra minha mãe.  
— E pedir pra Paula, nem em sonho, é uma opção.

Não sabia como chamar Lizete e Paulo, avós do Clay. Preferi a verdade, era mais fácil manter.

— Seus... avós, talvez?  
— Estão idosos, e minha avó ainda tem os trabalhos da igreja. — Ele respirou fundo. — Talvez mais fácil pedir pra Cléo.

— Talvez. Segunda seria uma boa. Podemos ir num restaurante, né. Mas tem que ser antes da terapia na terça.  
— Deixa que eu falo com minha mãe Cleo .

Voz branda, conciliadora. Aquela que ele usava quando a gente ainda se entendia sem manual.

Pegou Felipe no colo. O menino pareceu se encaixar no colo do pai como se fosse hábito. E era. Eu só não sabia disso.

— Pode tomar banho se quiser. Fico com ele.

Ele colocou o sling. Coisa de pai que já aprendeu sozinho, enquanto eu sangrava e aprendia a ser mãe.

Ele saiu do quarto deixando a porta aberta. Seria um sinal dos astros? Ou só mais uma porta que nenhum de nós dois tem coragem de fechar?

Da cozinha, a voz da Paula. Do berço, o cheiro de leite. Da porta, as costas do Clay.

— Vamos passar um café pra mamãe, filhão?

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