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sábado, 27 de junho de 2026

foi sem querer



Carla 
 junho de 2002. Domingo de final de Copa do Mundo.

A sala cheirava a pipoca queimada e ansiedade. Na TV, Galvão Bueno já estava rouco de tanto gritar. Brasil 2 x 0 Alemanha, 42 do segundo tempo. 

Na beira do campo, Luiz Felipe Scolari andava de um lado pro outro igual leão enjaulado, mastigando o mesmo chiclete desde o primeiro tempo. Na beira do sofá, Clayton fazia igual. 27 anos, camiseta amarela suada colada no corpo, joelho batendo sem parar. Adultescente em estado puro.

O apito final veio como uma explosão.  
“É PENTA! É PENTA!” 

Clayton pulou do sofá, derrubou o copo de guaraná, socou o ar e berrou tão alto que o Akira levantou as orelhas quando o cachorro da vizinha latiu de volta.  

Foi nesse segundo de euforia cega que Cleise, de cabelo molhado,  entrou na sala e sentou do lado dele, rindo do escândalo.

Ele virou pra ela, olhos brilhando, coração na boca, e sem pensar — sem pensar MESMO — segurou o rosto dela e beijou. 

Um beijo rápido, atrapalhado, com gosto de guaraná e desespero de campeão do mundo.

O silêncio que veio depois foi mais alto que o gol do Ronaldo.

Cleise congelou. Os olhos arregalados, a mão no peito, o batom borrado. Por dentro: um carnaval. Por fora: estátua. 

Clayton recuou como se tivesse levado um choque. Passou a mão na boca, gaguejou:
“Foi mal. Foi... foi sem querer.”

Sem querer.

Duas palavras que desmontaram Cleise mais que o beijo. O “sem querer” dela vinha com um sorriso escondido que ela tentou segurar mordendo o lábio. O “sem querer” dele vinha com pânico.

O que passou na cabeça do Clayton naquela hora:

Pai. A palavra ecoou igual bomba. Cleise mãe . De um filho meu. Um filho! A gente não planejou.Foi por acaso.Igual eu.

Porque  também fui um “acidente”. Nasci no meio do caos: Paula, minha mãe biológica, tinha 16 anos quando o pai dela flagrou ela aos beijos com Cléo. Foi expulsa de casa na mesma noite, de roupa do corpo. Foi morar com Cléo. As duas, duas meninas assustadas, me criaram  juntas.

Por 25 anos foram família. Até que Paula, já na menopausa, surtou e traiu Cléo. A casa virou campo minado.

Pior:  Só descobri a verdade aos 15. Achava que Paula era minha irmã mais velha. Meus avós tinham registrado como filho deles pra “abafar” o escândalo do relacionamento das duas. Quando o “flagra” veio à tona, tudo desabou,  saí de casa com uma mochila e um pôster do Romário.

Desde então, virei isso: como o adultescente, tal como a psicóloga me chamou. Um adultescente de 27 anos. 

Corpo de homem, emocional de moleque. 
Toda vez que a vida me encosta na parede,  ajo assim. Faço piada. Fico agressivo. Nego.

 Porque se eu admitir que senti, que quis, que amei... aí viro gente grande. E gente grande vira pai. E pai apanha da vida.

Por isso o “foi sem querer”. 

Era  armadura . 

Negar primeiro, sentir depois. Se é que ia sentir.

Cleise levantou devagar, ajeitou o cabelo, e sem olhar pra mim, soltou:
“Pentacampeão, hein...” 

E saiu da sala com o coração batendo no ritmo de escola de samba e a maior vontade de voltar e dizer: “mente que eu gosto”.

Fiquei ali, sozinho, com a TV repetindo o gol, o guaraná escorrendo pelo chão e a certeza de que, pela primeira vez em 27 anos, tinha feito algo 100% querendo... e morrendo de medo do que isso significava.

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