Carla
Agora que Mateus já tinha deixado o apartamento, Cléo tinha ido para o tal cliente inesperado e Paula , pra sorte de todos , foi embora antes que o veneno dela fizesse mas mal do que já tinha feito, imaginei que não poderia escapar daquela conversa.
E , de fato, entrei no quarto que seria do casal , e que agora estava ocupado apenas por Cleise, o Felipe, e tudo quanto é tipo apetrecho de bebê.
Cleise colocou o filho adormecido no berço, sentou na cadeira de balanço e , com estudada formalidade, disse:
— Senta .
Sem outro lugar , sentei na beirada da cama .
Dependendo da situação, seria mais fácil para levantar e ir embora. Esperava que não fosse preciso.
Cleise que eu conhecia não faria isso.
Mas ela estava.. Diferente.
— Como foi na Baía?
" Mingau se come quente ! Por isso , começamos a comer pelas beiradas..."
Essa frase evasiva veio à mente. Respondi no mesmo tom:
— Foi bom ficar lá. Mas é aquilo , mesmo tendo morado tanto tempo e parecer uma baiana de nascimento, sou mesmo carioca.
Sempre bom voltar pra casa . E o Rio é a minha casa .
— É...
E, depois de um tempo, quando ela parecia estudar as palavras, continuou :
— E o seu pai , Carlos, ele está melhor? Sei que o caso dele é complicado...
Mas como ele está ? E a tia Gisela , como está lidando com o Alzheimer do marido ?
— Não tem muito o que fazer.
Ele está na fase que pergunta o que terá no jantar cinco minutos depois de ter ajudado a arrumar a mesa. Ele lembra com clareza de detalhes da infância, mas não lembra que o aconteceu na tarde anterior.
Também já vestiu um casaco pesado em um dia de sol forte , imaginou que era inverno, como quando ele morou em outro país, anos antes de conhecer a mamãe ..ou esqueceu o caminho de volta da padaria da esquina.
— Que chato , Carla . E deve estar difícil custear o tratamento, né ?
— Eu até ajudo como posso, sabe ? Mas sou família. Não só posso como não devo cuidar dele ...não é ético .
— Entendo.
— Mas o dinheiro tem sido um problema– desabafou- Mamãe não sabe muito bem mexer com dinheiro, sempre foi o pai quem fez isso.
E agora ele , que sempre foi bom em finanças, começou a atrasar as contas ou se atrapalha ao calcular o troco. Vira e mexe descobrimos que ele não pagou uma conta porque tivemos algo cortado...
Ele ainda se confunde e chama a "caneta" de "aquela coisa de escrever" porque a palavra exata fugiu da mente...É tanta coisa ao mesmo tempo ...- disse, a frase sumindo aos poucos.
Cleise olhou para mim, com expressão pesarosa.
Mas ela também sentia que eu, sua amiga de infância, a quem conhecia tão bem como se fôssemos irmãs, ainda queria chegar em algum lugar com aquela conversa toda, por mais que Cleise realmente quisesse saber dos meus pais.
— E quando foi que o Mateus entrou nessa história? - perguntou de supetão .
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Bingo! Como imaginei.
Brinquei com o bebê que estava acordado e mexendo braços e perninhas , como se pudesse realmente tocar o mobile .
Dei corda e começou a tocar "Berceuse"...
Ótimo fundo musical para acalmar os ânimos ! 😜
— Então ...ensaiei .
O que dizer agora ?!
— Quando cheguei à Baia, a solidão voltou
Tudo bem que havia a faculdade e tanta coisa pra estudar.
Mas ali não conhecia ninguém, e tudo era tão diferente do que lembrava ...
Eu nasci lá , afinal de contas ! E morei bastante tempo ...
Cresci lá . Mas quando cheguei , não tinha mais as referências que eu conhecia .
Lojas haviam fechados , outras abriram no lugar...
Lembra daquela vez que a gente quis ir à Oceano e o piano bar havia fechado ?
Claro que Cleise lembraria.
Foi quando reencontramos o Clayton depois de tantos anos , na fila da lanchonete nos esperando com aquele " ar Blasé", que me fazia lembrar do Olhar 43 , do RPM.
" E pra você ,
Eu deixo apenas
Meu olhar 43, aquele assim.
Meio de lado, já saindo embora
Louco por você , princesa"
Cleise ficou com olhar perdido , com certeza lembrando daqueles tempos felizes, muito mais calmos do que a maternidade real , muito diferente do que costumam idealizar em sites e revistas especializadas .
Foram momentos especiais, regados a nascer do sol ao som do violão do Clayton. Eu também sentia falta deles...
Mas Cleise, sempre esperta, retomou o assunto principal:
— Agora vamos retomar você e o Mateus! Amiga, ele te traiu ! Como você perdoou isso?
Não tinha mais como evitar .
Abri os braços ,como dissesse abraçar o mundo...ou a mim mesma.
— Tudo que posso dizer é que eu me senti sozinha! Era tanta coisa acontecendo, em casa...
Eu não tinha um minuto de paz .
Saber a teoria é muito diferente de estar no meio do problema, Cleise.
A teoria se esvai quando a solidão bate.
Cleise olhou e me deu um sorriso cumplice .
Como ela entendia o que significava solidão , pois estava cercada por pessoas e terrivelmente só.
— E como Mateus entrou na história?
— Era uma festa para os calouros, para comemorar o final daquele período.
Eu queria me enturmar , quem sabe ?! Então , reuni coragem e fui.
Havia veteranos por lá , não só do curso de Psicologia ,como também veteranos , tanto de Psicologia quanto de outros cursos
.
Por coincidência, Mateus estava fazendo pós-graduação lá na faculdade, e também foi à festa.
— Sozinho?
— Claro né ! - ri - sou doida mas não sou louca!
Cleise riu também. Eu tinha uns ditados muito meus , e Cleise sempre os achou divertido.
Eu tinha saudade de ver Cleise sorrindo .
" Pensando bem...Ainda não tinha visto Cleise sorrir desde que cheguei. Isso é estranho..."
—... E olha que nem é escritora , que fiz faculdade de jornalismo!
Perdi o fio da meada pois estava perdida em pensamento. Então fiz um providencial:
— Humhum!
E emendei um assunto antes que ela percebesse que divaguei e não ouvi uma palavra do que disse:
— Ele se aproximou . Eu tinha bebido um pouquinho mais ,sabe como é. Quando eu o vi parece que tudo voltou , foda- se o bom senso! Quando dei por mim, a gente estava se beijando!
— E depois? – Ela falou baixinho porque Felipe resmungou no berço, para que ele continuasse dormindo.
— Depois a gente teve que conversar. Foi inevitável colocar os pingos nos is...
— E ele ?
— Ele pediu perdão .
Na boa, Cleide ? O que eu tinha a perder né?
Fui curtir um pouco. Confesso que,no início , eu o estava usando e, provavelmente, ele fazia o mesmo !
Eu queria sair da solidão e ele, queria ter uma garota para desfilar para os amigos .
Eles já estavam na casa dos 30 anos,né ?
!
A maioria ali, ou estava noivo, ou casado - embora as puladas de cerca também aconteciam...é claro ! Mas isso é um outro assunto...
O que importa é que a gente se acertou e ao longo dos meses ele se mostrou mais maduro, mais amigo... Principalmente quando a barra lá em casa passou a pesar demais .
— Entendi...Isso entendi. Mas precisava ficar noiva dele ? De novo, amiga?!
—Olha, amiga...Não tenho explicação. A não ser que eu o amo, e estou apostando que vai dar certo...dessa vez.
Cleise , sem que desse conta do que fazia, desviou o olhar em direção ao quarto , transformado eu ateliê.
— Eu também, Carla !
Carla e Cleise se abraçaram , tendo aos pés de Cleise o fiel cão Akira, que também retornara para a casa dele pois ,onde quer que Cleise estivesse, ali era o seu lar.
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