Seguidores

domingo, 28 de junho de 2026

Eu, o pai.



Clayton

Entrei no quarto . Ainda não estou dormindo aqui, com a Cleise. Um passo de cada vez. O beijo já foi. A cama vem depois , no seu tempo.

  Felipe finalmente dormiu e Cleise foi escrever, pra relaxar. Coisa de jornalista . Eu não tenho essa vibe não , prefiro pintar .

Seis horas de cólicas . Eu e Cleise revezamos na massagem indiana que Cleise disse que se chamava " Shantala". Essa massagem tem uns movimentos rítmicos, com deslizamentos e alongamentos.

Tive até que rir quando ele acertou um jato de xixi na Cleise no meio da massagem que ela fazia.

Mas quando Felipe fez o número dois sem fralda, no meio da tal massagem, eu me arrependi de ter zoado o xixi.Era menos pior.

— Como tá indo o blog Trollados?

— Bem. Ficou com esse tom mais confessional , sem o ar mais jornalístico de antes . Mas eu gostei e pelos comentários e número de visualizações , acredito que é esse o caminho.

— Ah! Entendi.

Ela arqueou uma sobrancelha.

— É que escrevi um texto. Minha contribuição para o blog. Veja o que acha .

"Pai de repente".

Cleise deu um meio sorriso mas voltou a ler.

"Quem me conhece sabe da minha história. De técnico em agropecuária. É que assumiu uma nova profissão quando passei a morar com as minhas mães .

 Minha mãe do coração, Cléo, me incentivou a fazer unhas artísticas quando viu as canecas com pintura artística que fiz para arrecadar dinheiro para as obras da igreja que minha avó Lizete frequenta.

Quando o YouTube passou a ter vídeos do tipo tutorial, lá pelo ano de 2007, já dava pra aprender muita coisa com vídeos de pessoas gravando com suas webcam. Eram vídeos bem amadores, mas davam conta do recado.

Aprendi várias técnicas e rápido eu passei a ter várias clientes. Mulheres em sua maioria, muitas amigas da minha mãe Cleo, que não tinham preconceito em serem terem um homem fazendo as unhas delas.

Tive muitos clientes. Alguns vieram por intermédio da minha mãe, pois conhecia muita gente no escritório de advocacia.

 Algumas mulheres estavam se divorciando e para se sentir dando a volta por cima , investiam na própria beleza.
 Melhor pra mim.

No meio do caminho reencontrei uma amiga de infância e com um pouquinho de ajuda do destino, a amizade virou morar junto. Ainda não casamos, mas tá na lista.

Só que no meio do caminho tinha um filho. Tinha um filho no meio do caminho.

O trocadilho foi inevitável. A Cleise vive recitando esse poema . Não tenho certeza, mas 
Acho que é do Carlos Drumond de Andrade. Vai saber.

Eu não sabia nada de bebês. Cleise ainda leu, naquele monte de revistas de bebê . Até em sites, afinal também tem vídeo para ensinar a cuidar de bebê!  🍼 🤱🏻

Confesso que foi difícil no começo. Eu estava com ciúme . Cara, e como senti ciúme.

O nome é esse mesmo, as terapias de casal deve tá surtindo efeito, afinal, porque já consigo dar nome pra essa raiva que eu sentia sempre que olhava pra Cleise e ela estava com o bebê no colo e não olhava pra mim.

Cara, e a raiva era tanta que passei dois meses para conseguir falar de novo com ela, e também para aceitar a cuidar do bebê.

No início eu aproveitava momentos que a Cleise finalmente dormia exausta , e tirava fotos do nosso filho, que me ajudava para ter a imagem dele como modelo para as minhas telas, sem que Cleise soubesse o que eu fazia.

Mas isso são águas passadas.

Quero deixar registrado para os leitores desse blog que quem,  como eu,  tiver descobrindo as alegrias e dificuldades de ser pai, que a tal massagem indiana Shantala é um santo remédio para as cólicas.

E se prepare para as cólicas .
Não tem horário certo nem fim de semana. É todo dia. Às vezes, o dia inteiro. Ou quase. Pelo menos, é o que o ouvido e a impaciência acham.

Por enquanto é isso. Porque todos dia é diferente, um novo aprendizado. Para Felipe. Para Cleise . Para mim.

Quero que meu filho sabe que se eu fui um cuzão quando ele nasceu, hoje eu não sei ser Clayton sem que ele esteja no berço , ou no meu colo, graças ao sling.

Viu como estou por dentro desse universo.

Me desejem sorte nessa viagem de ser pai ."


Percebi que os olhos dela estavam marejados . Será que fiz algo errado ?

— Está ótimo , Clay. 

— Espero que o blog faça tanto sucesso quanto antes. 

— Que Deus te ouça . 

— Fecho a porta?

— Não precisa.

Deixei a  porta aberta e voltei para o ateliê com a alma leve.

Nenhum comentário:

Postar um comentário