### *Capítulo: Sessão dois*
Cleise
Sete dias depois. Mesma sala, mesmo cheiro de jasmim. Eu diferente: olheira nova, blusa com mancha de vômito de bebê disfarçada com cardigã.
O Felipe não veio. Deixei com a Cleo. Foi a segunda vez que saí de casa sem ele no colo em 60 dias. Minhas mãos coçaram o caminho inteiro.
A psicóloga sorriu, profissional.
— Boa tarde, casal. Como foi a semana?
Silêncio. Clay olhou pro relógio.
— Produtiva — disse ele por fim.
— Produtiva como? — ela insistiu.
— Dormimos. Eu no ateliê, ela na cama com o bebê.
Ela anotou. Devagar. De propósito.
— Clay, na sessão passada você disse algo que eu queria voltar. Você falou "não quero outra mãe em casa". E depois: "eu não sei mais onde eu entro nisso".
Ele encolheu o ombro. Defesa de adolescente pego no flagra.
— Falei muita coisa. Tava nervoso.
— Mas era verdade, não era? — a psicóloga não piscou. — Onde você entra nisso, Clay? Onde o Clayton, marido, pai, homem, entra nessa nova casa que vocês montaram?
Clay abriu a boca. Fechou. Olhou pra mim como se eu tivesse a resposta.
Eu não tinha. Só tinha peito empedrado e sono atrasado.
— Ele entra se trancando no ateliê. Sequer entra no nosso quarto para ver nosso filho...ou me ver.
Virei pra ele. Falei baixo:
— O problema aqui é que você entrou. Só que entrou competindo com ele. E o Felipe tem 60 dias, Clay. Ele não sabe jogar esse jogo ainda.
Clay mordeu a bochecha. O músculo da mandíbula pulou.
— Você não entende — resmungou. — A casa cheira a leite. As fotos são dele. As conversas são dele. Até quando faço café, você tá com ele no canguru.
A psicóloga inclinou a cabeça.
— Então você sente falta de ser visto, Clay. Não de sexo. De presença.
Ele não negou. Também não confirmou. Adultescente clássico: morre, mas não admite.
A psicóloga virou pra mim.
— E você, Cleise? Onde a mulher entra nessa nova mãe?
Quase ri. Quase chorei.
— Ela não entra. Ela espreme um espacinho entre uma mamada e outra. Às vezes esquece como era antes. Às vezes tem medo de nunca mais voltar a ser.
Fiz pausa. Olhei pro Clay.
— Mas eu queria que ele entrasse comigo. Não na disputa. No time.
O ar pesou. Clay pegou o celular. Destravou. Bloqueou. Destravou de novo.
Por fim, mostrou a tela pra mim. Sem falar nada.
Era o álbum do celular dele. 347 fotos. Todas do Felipe.
Na última, tirada às 4:12 da manhã, ele mesmo segurava o bebê no colo. Sei quando ele tirou essa foto pelo horário da foto : foi no período quando, por um milagre , Felipe dormiu três horas seguidas antes da próxima mamada das 6 da manhã e eu aproveitei para cochilar . Como Cléo diz :
— Durma quando ele dormir ! Queria saber que santo fez esse milagre providencial...
Agora já sei o nome do santo!
Olhei com ternura para a foto...e então , vi.
O olho do Clayton estava fechado de sono. Boca aberta igual a do filho. Legenda que ele nunca postou: "Não sei fazer direito. Mas tô aqui".
Meu nariz ardeu.
A psicóloga fechou a pasta de novo.
— Tarefa pra casa: Clay, você vai tirar uma foto por dia que não seja do Felipe. Uma foto sua. Fazendo qualquer coisa que te lembre que você existe além de pai.
Cleise, sua tarefa é escolher 5 minutos por dia que não sejam da mãe. 5 minutos só da mulher. Nem que seja pra passar batom e olhar no espelho.
— E nós dois? — perguntei.
— Vocês dois vão jantar juntos uma vez essa semana. Sem celular. Sem falar do bebê nos primeiros 15 minutos.
Clay bufou.
— Impossível.
— Adultescente acha tudo impossível até tentar — ela sorriu.
Saímos em silêncio. No elevador, Clay quebrou primeiro:
— Eu não sei tirar foto de mim. Fico esquisito.
Soltei, automática:
— Fica não, Clayton. Fica parecido com o pai do Felipe.
Ele me olhou. De verdade. Pela primeira vez em semanas, não era o menino birrento. Era o homem assustado tentando aprender a ser os dois.
A porta abriu. E pela primeira vez, eu pensei: talvez dê pra gente se acertar.
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