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sábado, 27 de junho de 2026

Reflexos



CLAYTON - ATELIÊ

A madeira cheira a terebintina e fralda suja. Transferi o ateliê pra cá achando que era só temporário. Mentira. Eu trouxe a fuga pra dentro da casa dela. Da mãe que eu escolhi.

A DR delas atravessa a porta como cupim. 
"Você nunca soube dividir, né? Nem filho, nem homem." A voz da mãe. Da minha mãe de verdade. 
"Ele só tá magoado, igual você quando eu..." A voz da outra. Da que me criou.

Akira rosna baixo cada vez que a biológica fala. Irmão de alma. Se eu pudesse rosnar, rosnava também.

A porta abre com o pé. Cleise. Cabelo preso de qualquer jeito, olheira de quem não dorme há um ano, Felipe berrando no colo.

"Resolve com teu irmão de ciúme aí." Ela joga nosso filho no meu colo como quem devolve um boleto. "Tua vez. A Carla disse cinco minutos. Eu vou ter cinco minutos pra ser só a mãe do Felipe. Não a sua. Escolhe."

A porta bate. 

Ficamos nós três: eu, um bebê que não planejei, e um cachorro que me entende melhor que minha própria mãe.
• * * 

Voltei da Bahia há três meses. Rodrigo disse que eu era idiota de largar os pacientes pra "salvar amigo". Ele não entendeu. Eu vi esses dois se apaixonarem no meu sofá, dividindo miojo e conta de luz. Eu segurei a mão da Cleise quando o teste deu positivo e o Clayton travou. Eu não ia assistir de longe eles se destruírem.

A primeira sessão de verdade foi ontem. Na casa deles. Antiético? Talvez. Necessário? Com certeza.

"Ele compete com o Felipe," Cleise disse, com o próprio Felipe mamando no peito. "Eu virei mãe de dois. Um chora de fome. O outro se tranca no ateliê quando não é o centro das atenções."

Clayton olhou pro chão. "Eu não sei ser isso. Pai. Marido. Adulto."
"Você sabe amar, Clayton," eu falei. "Você só não sabe demonstrar sem fazer birra. É igual quando o Henrique terminou comigo. Eu voltei pro Rio e me enfiei no quarto de vocês por um ano inteiro. Lembra? Vocês me deixaram quebrar até eu lembrar como se monta."

Ele assentiu. Primeira vez que não fugiu no meio.

No final, falei pra Cleise: "Começa com cinco minutos. Cinco minutos por dia em que você é só mãe do Felipe. Não dele. Não da casa. Não da culpa. Só mãe. Ele que segure o tranco. Ou aprende, ou perde."

Não imaginei que ela ia usar os cinco minutos como granada. Mas olhando pra DR daquelas duas ali no fundo, e pro Akira rosnando na porta do ateliê, acho que granada era o que essa família precisava.

Tomo um gole do café que a mãe afetiva do Clayton fez pra mim. "Vai dar merda antes de dar certo," digo pra ela, que só concorda com a cabeça. Ela sabe. Psicóloga ou não, tem coisa que só mãe entende.
• * * 
CLEISE - BANHEIRO

Cinco minutos. A psicóloga disse cinco minutos. E a Carla também disse. É isso. Um começo. Talvez.

Abro o chuveiro e não entro. Só deixo a água cair pra abafar o som da DR e do choro. Se ele não der conta, eu vou embora mesmo. Não com o Felipe. Comigo.

Casei com Clayton achando que adulto de 24 anos era adulto. Descobri que casei com o primeiro filho da casa. O segundo a gente fez sem querer.

Escuto o silêncio. O Felipe parou de chorar. 

Ou ele fugiu pela janela do ateliê, ou a Carla tava certa e ele só precisava de um tranco.

Cinco minutos. Rezo pra serem suficientes.
• * * 
AS MÃES - SALA

"Ele me odeia!" A biológica. Minha ex. Mãe do meu filho de coração. 

"Não odeia. Tá com ciúme. Igual você ficou quando eu trouxe o Gustavo pra jantar pela primeira vez, lembra?" Eu, a afetiva. A que ficou. "A diferença é que você tinha 40 anos. Ele tem 24 e um bebê que chora mais que você."

Ela me olha com aquele olhar de cachorro abandonado. Irônico, já que o cachorro que ela deu pra fazer as pazes agora rosna pra ela.

A psicóloga amiga deles me encara da poltrona. "Trauma de abandono gera competição, não afeto," ela diz, baixo. "Ele acha que se não for o bebê da casa, perde o lugar."

Engulo seco. Merda. A culpa é minha também, então.

Um barulho na porta do ateliê. As duas calamos a boca ao mesmo tempo. 25 anos juntas ensina isso.
• * * 
AKIRA

Cheiros: Terebintina. Leite azedo. Medo. Homem-filho. Bebê-filho. Mulher-terapia.

Mulher-barulho está na porta. Entrega Bebê-filho e fala "Carla disse". Rosno. Não pra ela. Pro outro barulho, da Mulher-que-deu-biscoito-mas-não-faz-carinho.

Homem-filho segura Bebê-filho desajeitado. Bebê-filho para de fazer barulho de angústia. Encosta no peito. Coração de Homem-filho bate rápido, igual quando tem trovão.

Lambe mão de Bebê-filho. Gosto de novo. De futuro. 

Homem-filho olha pra mim. Entendo. 

"É, Akira. A gente é dois idiotas, né?"

Levanta. Abre porta. Eu vou na frente. Mulher-terapia está na sala. Cheiro de café e de pessoa que conserta gente. Ela não rosna. Ela espera.

Se Mulher-que-deu-biscoito tentar morder, eu mordo primeiro. Mas ela não vai. Cachorro entende cachorro. E gente quebrada também.
• * * 
CLAYTON - SALA

Saio do ateliê com Felipe no colo. Akira na frente, guarda-costas de quatro patas.

Elas param a DR no meio. Carla tá na poltrona, sem anotar nada. Só olhando. Testemunha.

Pela primeira vez em um ano, não tenho pra onde fugir. O ateliê ficou pequeno demais pra três: eu, ele, e o homem que eu não sabia se conseguia ser.

Felipe agarra minha camisa. Por  reflexo  Baba no meu pescoço. Não planejei ele. Não planejei nada disso. Mas a Carla disse que eu sei amar. Só não sei mostrar.

"Desculpa, cara," sussurro pro meu filho, baixinho pra só ele ouvir. "Acho que eu tô sendo um cuzão."

Cleo sorri de canto. A biológica começa a chorar. Carla só assente, mínimo. Tipo "viu? Você consegue".

Cleise aparece na porta do banheiro, de toalha, cabelo pingando. Me encara. Eu encaro de volta. Não fujo.

Ela olha pra Carla. Carla olha pra mim. Eu olho pro Felipe.

"Cinco minutos acabaram," Cleise fala. "E agora?"

Não respondo com palavra. Só ajeito o Felipe no colo e sento no sofá. No meio das duas mães. No meio da merda toda. 

Pela primeira vez, fico.

Akira deita no meio da sala, entre eu e a Carla. Entre o passado e a terapia. 

Rosna uma vez, baixinho, só pra garantir. Depois suspira e fecha os olhos.

A DR acabou. A sessão, não.

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