Cleise
### *Capítulo: Tudo sobre nós*
O consultório cheirava a café frio e jasmim. Eu cheirava a leite e noite mal dormida.
— O que os trouxe aqui hoje? — a psicóloga perguntou, caneta na mão.
— Não sei, na verdade — respondi, ajeitando a alça do sutiã de amamentação por baixo da blusa. — Pelo menos no que diz respeito a mim. Vim por sugestão da Carla. Ela é psicóloga também.
A psicóloga assentiu e virou pra ele.
— Certo. E você, senhor... Clayton?
Ele nem levantou o olho do celular.
— Só Clay.
— Muito bem, Clay. — A caneta dela riscou o papel. — O que te trouxe aqui hoje?
— Não sei.
Soltei sem filtro, igual quando o Felipe acorda pela terceira vez na madrugada:
— Você não sabe de muita coisa ultimamente, né, Clayton?
A psicóloga não reagiu. Só anotou. Eu passei a mão no pescoço e senti cheiro de talco de bebê no meu pulso. Hábito novo.
Clay ergueu a cara, ferido.
— O que quer dizer com isso, Cleise?
A verdade saiu antes do freio:
— Olha, ele fala! A última vez que falou comigo foi na consulta com a obstetra. O médico disse que a gente podia "voltar a brincar". Mal sabe ele que eu não sei o que é isso há meses. Entre mamada, troca de fralda e choro às três da manhã, "brincar" sumiu do meu dicionário.
Percebi tarde demais o estrago. Mas bebê não espera, e eu também não.
Clay fechou a cara. A voz saiu baixa, infantil:
— Nem me passou pela cabeça que você ainda gostasse de sexo. Você virou mãe. 24 horas por dia. E eu não quero outra mãe em casa. Já tenho duas: uma de verdade e outra, um acidente biológico que me colocou no mundo.
Meu peito queimou. Não de raiva. De cansaço.
A psicóloga interveio, neutra demais:
— Quer falar mais sobre isso, Clay?
— Sobre o quê? — ele sibilou. — A falta de sexo? Ou como a Cleise me trocou pelo Felipe?
— Reparou que estou aqui? — cortei, dura. — Fala de mim olhando na minha cara.
— Acalmem-se, por favor — pediu a psicóloga. — Clayton, repita olhando pra sua mulher.
— Não somos casados — corrigi, automática.
Esperei ironia. Ele me deu um olhar tão triste que me desarmou. Pela primeira vez desde que o Felipe nasceu, eu vi o menino de 27 anos.
— Desculpa, Clay. Sei que isso é complicado pra você.
Ele respirou fundo, igual faz quando o Felipe chora e ele não sabe o que fazer.
— Minha mãe foi traída pela minha mãe biológica. Ela trocou a Cléo por um cara chamado Gustavo. Não quero padrasto na minha casa.
— Sei como é ter padrasto, Clay — falei mais baixo.
— Ah! O seu Roberto cuida de você desde os 10 anos. Ele até me ajudou quando comecei a pintar quadros pro shopping.
— Verdade. O Roberto é muito mais que padrasto. Ele é meu pai.
Clay engoliu seco. Os dedos apertaram o celular.
— E a Cléo é a minha mãe. A Paula só me teve por um erro. Eu sou um erro dela.
A psicóloga fechou a pasta. Hora acabou.
— Nossa sessão está encerrando. Foi um primeiro encontro produtivo, com muitos assuntos pra trabalhar. Cleise, quer dizer mais algo?
Eu não saberia por onde começar. Então só balancei a cabeça. Negativa.
— E você, Clay?
— Estou bem — mentiu.
O Clay da briga evaporou. Sobrou o mutismo dos últimos meses. O mesmo mutismo dele quando o Felipe acorda e ele finge que dorme.
Na saída ele segurou a porta do elevador. Cavalheiro até na dor.
— Obrigada — falei, achando que era começo de conversa.
Ele entrou no carro, manobrou e saímos do estacionamento. O celular dele apitou no Bluetooth. Era a babá eletrônica.
Imagem do Felipe dormindo, boca aberta, babando no travesseiro.
Mensagem da minha sogra: "Igualzinho ao pai quando dorme 😍"
Sorri sem querer.
Clay viu pelo canto do olho. Apertou o volante até os nós dos dedos ficarem brancos.
— Ele nem tem dente ainda — murmurou.
Virei pra ele, exausta e terna:
— E você tá com ciúme de um desdentado, Clayton?
Ele não respondeu. Mas pela primeira vez na sessão, não fingiu que tava bem. Só dirigiu. E eu fiquei ali, dividida entre mãe e mulher, sem saber pra qual dos dois dar colo primeiro.
Sabe-se lá por quanto tempo isso vai durar. Até a gente se acertar. Ou não.
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