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sábado, 27 de junho de 2026

capítulo 24- Tudo sobre nós dois.

Cleise 

### *Capítulo: Tudo sobre nós* 

O consultório cheirava a café frio e jasmim. Eu cheirava a leite e noite mal dormida.

— O que os trouxe aqui hoje? — a psicóloga perguntou, caneta na mão.

— Não sei, na verdade — respondi, ajeitando a alça do sutiã de amamentação por baixo da blusa. — Pelo menos no que diz respeito a mim. Vim por sugestão da Carla. Ela é psicóloga também.

A psicóloga assentiu e virou pra ele.  
— Certo. E você, senhor... Clayton?

Ele nem levantou o olho do celular.  
— Só Clay.

— Muito bem, Clay. — A caneta dela riscou o papel. — O que te trouxe aqui hoje?

— Não sei.

Soltei sem filtro, igual quando o Felipe acorda pela terceira vez na madrugada:  
— Você não sabe de muita coisa ultimamente, né, Clayton?

A psicóloga não reagiu. Só anotou. Eu passei a mão no pescoço e senti cheiro de talco de bebê no meu pulso. Hábito novo.

Clay ergueu a cara, ferido.  
— O que quer dizer com isso, Cleise?

A verdade saiu antes do freio:  
— Olha, ele fala! A última vez que falou comigo foi na consulta com a obstetra. O médico disse que a gente podia "voltar a brincar". Mal sabe ele que eu não sei o que é isso há meses. Entre mamada, troca de fralda e choro às três da manhã, "brincar" sumiu do meu dicionário.

Percebi tarde demais o estrago. Mas bebê não espera, e eu também não.

Clay fechou a cara. A voz saiu baixa, infantil:  
— Nem me passou pela cabeça que você ainda gostasse de sexo. Você virou mãe. 24 horas por dia. E eu não quero outra mãe em casa. Já tenho duas: uma de verdade e outra, um acidente biológico que me colocou no mundo.

Meu peito queimou. Não de raiva. De cansaço.  
A psicóloga interveio, neutra demais:  
— Quer falar mais sobre isso, Clay?

— Sobre o quê? — ele sibilou. — A falta de sexo? Ou como a Cleise me trocou pelo Felipe?

— Reparou que estou aqui? — cortei, dura. — Fala de mim olhando na minha cara.

— Acalmem-se, por favor — pediu a psicóloga. — Clayton, repita olhando pra sua mulher.

— Não somos casados — corrigi, automática.

Esperei ironia. Ele me deu um olhar tão triste que me desarmou. Pela primeira vez desde que o Felipe nasceu, eu vi o menino de 27 anos.

— Desculpa, Clay. Sei que isso é complicado pra você.

Ele respirou fundo, igual faz quando o Felipe chora e ele não sabe o que fazer.  
— Minha mãe foi traída pela minha mãe biológica. Ela trocou a Cléo por um cara chamado Gustavo. Não quero padrasto na minha casa.

— Sei como é ter padrasto, Clay — falei mais baixo.

— Ah! O seu Roberto cuida de você desde os 10 anos. Ele até me ajudou quando comecei a pintar quadros pro shopping.

— Verdade. O Roberto é muito mais que padrasto. Ele é meu pai.

Clay engoliu seco. Os dedos apertaram o celular.  
— E a Cléo é a minha mãe. A Paula só me teve por um erro. Eu sou um erro dela.

A psicóloga fechou a pasta. Hora acabou.  
— Nossa sessão está encerrando. Foi um primeiro encontro produtivo, com muitos assuntos pra trabalhar. Cleise, quer dizer mais algo?

Eu não saberia por onde começar. Então só balancei a cabeça. Negativa.

— E você, Clay?

— Estou bem — mentiu.

O Clay da briga evaporou. Sobrou o mutismo dos últimos meses. O mesmo mutismo dele quando o Felipe acorda e ele finge que dorme.

Na saída ele segurou a porta do elevador. Cavalheiro até na dor.  
— Obrigada — falei, achando que era começo de conversa.

Ele entrou no carro, manobrou e saímos do estacionamento. O celular dele apitou no Bluetooth. Era a babá eletrônica.  
Imagem do Felipe dormindo, boca aberta, babando no travesseiro.  
Mensagem da minha sogra: "Igualzinho ao pai quando dorme 😍"

Sorri sem querer.  
Clay viu pelo canto do olho. Apertou o volante até os nós dos dedos ficarem brancos.  
— Ele nem tem dente ainda — murmurou.

Virei pra ele, exausta e terna:  
— E você tá com ciúme de um desdentado, Clayton?

Ele não respondeu. Mas pela primeira vez na sessão, não fingiu que tava bem. Só dirigiu. E eu fiquei ali, dividida entre mãe e mulher, sem saber pra qual dos dois dar colo primeiro.

Sabe-se lá por quanto tempo isso vai durar. Até a gente se acertar. Ou não.

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