Seguidores

segunda-feira, 13 de julho de 2026

Restaurante


Restaurante
Ele bate na porta do quarto já de terno. Azul marinho, ombro alinhado, gravata que não usava desde o casamento do primo em 99. O cabelo castanho penteado pra trás, cheiro de gel e desespero.

Eu termino de passar o batom. Vermelho. Porque se é pra sangrar, que seja na boca.

O vestido largo cai sobre o corpo. Chique, dizia a etiqueta. Saída de maternidade, dizia o espelho. Preto, pra disfarçar a barriga que a cinta não disfarça. Manga morcego pra esconder o braço que amamenta de três em três horas.

Meu cabelo avermelhado briga com o zíper. Volumoso, ondas armadas de quem não dorme e não tem tempo de escova. Não é crespo, não é liso. É o meio termo que ninguém sabe nomear. Igual eu, agora.

Ele para na porta. Olha primeiro pro cabelo. Depois pro vestido. Depois pro chão.

— Ficou bonito, ele diz.

Bonito. Adjetivo de tia de batizado. Bonito é bolo de padaria. Bonito é centro de mesa.

Não diz gostosa. Não diz linda. Não diz que sente falta.

Ajeito uma onda do cabelo atrás da orelha. O brinco de argola pesa. Tudo pesa.

— Seu terno também, respondo.

Protocolo. A gente tá ótimo no protocolo.

Ele entra dois passos. Não chega perto. O quarto cheira a leite azedo e pomada pra rachadura no bico do peito. Chique demais pro terno dele.

— O táxi já deve estar chegando.

Assinto. Pego a bolsa. Grande, cabe uma fralda e um absorvente de seio. A bolsa de antigamente não cabe mais nada meu.

Passo por ele na porta. Ele segura meu braço, leve. Dedo no tecido largo do vestido. Não encosta na pele.

— Cleise.

Paro. Não viro. O cabelo vermelho cobre meu rosto. Melhor assim. Ele não vê que eu já tô chorando antes da entrada do Adegão.

— Vamos tentar, ele fala pro meu cabelo.

Respiro. A cinta deixa ir só até a metade.

— Vamos, respondo.

Ele solta meu braço. Desço na frente. O salto baixo faz barulho na escada do prédio de Vila Isabel. O cabelo balança. Volumoso, vermelho, vivo. A única parte de mim que ainda não pediu desculpa por existir.

Entramos no táxi.

Reconheço o caminho. Nunca estive lá. Chique demais para meu bolso.

O Adegão Português era ali, em São Cristóvão. Um pulo de táxi saindo do nosso apartamento em Vila Isabel. Caro, mas ele insiste.

— Voltaremos de táxi também.  
Não era uma pergunta. Ele explica:  
— Tem vinhos maravilhosos aqui. Hoje merecemos.

Quis dizer que não podia beber. Balancei a cabeça, concordando.

Ele me olha. Responde o que não perguntei.  
— Foi seu pai. Ele viu o neto quando chegou da Galeria. Margarida dava mamadeira pro Felipe. Quis ajudar, Cleise! Depois eu prometo que acerto com ele. Esquece isso.

A saliva sobe ao invés de descer. Engulo o ar.

— Certo.

Melhor calar.

O maître se aproxima, de terno, no melhor estilo formal alinhado. Confere a reserva na recepção e nos leva até a mesa.

Lugar classudo, dois salões enormes. Cadeiras de madeira escura. Quadros com paisagem de Portugal na parede. Família grande na mesa do lado, criança chorando. 2002 e o Adegão continua o mesmo: barulho e toalha branca.

Ainda observava um quadro quando o garçom se aproxima. Seguro. Com certeza, veterano.

Clayton se adianta. Nervoso. Eu sei.

— Vamos querer uma travessa de Bacalhau à Lagareiro.

— Você gosta de bacalhau.

— É. Não como bacalhau há muito tempo. Nem lembro da última vez. Mas nunca comi um prato desses.

— Quando estive aqui, em 2000, adorei o lagareiro — ele fala rápido, tropeçando nas palavras. — A posta vem assada, muito azeite, alho, cebola. Dá pra dois. Vem com Batata ao Murro.  
— O que é isso?  
— São batatas esmurradas e assadas. E ainda tem arroz de brócolis.

Como ele sabia de tudo isso?

De repente vejo que não conheço Clayton. Ele mudou muito nos oito anos que ficamos separados. No ano 2000, quando ele e Carla vieram morar no meu apartamento, Clayton pouco falava de si. Quando ele começou a se abrir e me permitiu entrar, eu engravidei de Felipe. Aí veio o ciúme. Ele piorou na gravidez. E agora...

O garçom se aproxima com a carta de vinhos. De couro. Tudo muito chique.

— O que sugere? — Clayton entrega a carta. Ele não tinha a menor ideia do que pedir. Vinhos que ele nem sabia que existiam. E que eu só ouvi falar.

— Vinho verde branco Português. Casal Garcia. Creio que será do agrado de vocês.  
— Certo.  
— Quero um suco. De laranja.

O garçom sorri.  
— Claro, senhora.

Anota no caderno. Se afasta.

Olho pro relógio de pulso. Minha mãe deve estar colocando o Felipe pra dormir agora. Ninguém pra ligar e perguntar se tá tudo bem. 2002 não tem disso.

— Como foi com sua mãe?  
— Tudo bem.  
— Pena que Cléo não pode ficar. Surgiu um cliente extra. Cléo estava aposentada. Mas já quebrou tanto galho que acho que ela já considerou um retorno da aposentadoria.  
— A cara da Cléo. Ela sempre foi muito responsável.  
— Você gosta dela, né?  
— Muito. A mãe que minha mãe não quis ser.  
— Eu sei, Cleise. Nossas histórias não são muito diferentes. Eu tenho uma mãe que não me quis. Você teve uma mãe que não soube querer.

Admirei a súbita maturidade daquela frase. Ponto pra terapeuta.

Ele estica a mão para encontrar a minha sobre a mesa. Retiro para colocar o guardanapo no colo. Ele não insiste mais.

A comida chega. E as bebidas.

Era muito vinho pra Clayton. Agora entendi ele querer voltar de táxi. Ele sabia que eu não podia beber e respeitou isso sem eu lembrar. Esse Clayton eu ainda não conheço. Posso me apaixonar por ele! Devo?

A raiva pelo distanciamento de um ano sobe, o suco não quer descer.

Não posso. Não devo. Quero. Não devo!

— Não podemos demorar muito.

— Temos que fazer isso, Cleise. Não consegue fazer um movimento por nós?

— E agora a culpa é minha? Você que se afasta de mim, de nosso filho que mal nasceu. Dois anos separados, Clay. Dois meses de Felipe. Não me olha, não me toca. Sei que não tô gostosa. Tô uma merda. Mas é o que eu tenho pra dar.

O garçom chega antes que ele responda. Entrega para Clayton a carta, capa de couro. Conta no interior. Leva o cartão e some. Aqueles dois minutos de silêncio enquanto a maquininha não volta são uma eternidade.

Clayton paga, levanta. Vai até a cadeira em que estou sentada, me dá a mão para eu levantar. Sorrio. Protocolo.

Entramos no carro e voltamos num silêncio atroz. A cinta aperta. O silêncio aperta mais.

A psicóloga que lute pra resolver.

domingo, 12 de julho de 2026

"Parceira , Não mulher"


A terceira sessão começou como sempre. Respirei aliviada quando a recepcionista mandou a gente entrar. Eu não gostava de aguardar na recepção. Aqueles olhares dos outros casais, cheios de culpa. Aquele sentimento de inadequação. 

Talvez fosse só imaginação minha. Eles nem me olhavam, consumidos pela vergonha de ter que assumir que precisavam de terapia de casal. Talvez fosse Transferência. Pesquisei pro blog. Me descobri ali, vendo culpa nos outros porque era a minha que transbordava.

Descobri mais. O meu medo, que grita. O medo do Clayton, que cala. Tenho pena dele. Pena da gente. Raiva também.

Tomada de raiva, eu entro no consultório. Não aceito o gesto de Clayton para que eu entrasse primeiro. Não é disso que eu sinto falta, Clayton!

— Olá, como foi a semana? — a voz da Dr. Marta era de paisagem. Neutra.
— Bem.
Olhei pra ele com raiva. Muita raiva.
— É mesmo? — eu disse entre dentes.

Na semana passada, a Dr. Marta mandou a gente ter um encontro. Só nós dois. Sem falar de filho, de contas, de culpa. O tal do “exercício de reconexão”. Fiz uma lista do que aconteceu como se fizesse a lista do supermercado.

— Primeiro: ele me beijou. Depois disse que foi sem querer. Então a gente fez todo um arranjo pra poder ir no bendito restaurante fazer a merda do exercício. Me humilhei pedindo pra minha mãe ficar com o Felipe. Ela fez bolo, chamou as vizinhas, contou pra igreja que a gente ia “reacender a chama”. Só faltou soltar fogos. Na porta, ela disse que me amava quando eu saí do apartamento onde morei um dia. Eu não respondi. Não queria dizer “eu também”. Não era verdade.

— Reconexão porra nenhuma! — disse olhando pra Dr. Marta. Um olhar cheio de raiva. Ela sustentou meu olhar.
— Só discutimos. Voltamos brigados. Ou melhor, em silêncio. Uma sombra sobre nós.

Dr. Marta, impassível. Nenhuma contração no rosto. Levantar de sobrancelha. Nada. Que vontade de arrancar aquele caderninho da mão dela. Onde ela anota o que eu não sei.

— E você, Clayton. Como se sente ouvindo sua parceira dizer isso?

A psicóloga disse parceira. Não mulher. Como se fôssemos sócios de uma empresa falida. O que isso significa?

Clayton mexeu na aliança. Depois tirou e colocou no braço da poltrona. 

— Eu tentei. Pedi dinheiro emprestado pro meu sogro. Sei que ele não vai cobrar, mas terei que vender várias telas pra pagar o empréstimo. Escolhi o melhor restaurante. O melhor terno. O melhor pedido. O vinho verde que me deixou tonto e com gosto de derrota. Ela não me quer. Quer o filho. Não a mim.

— Tem razão, Clayton — cuspi o nome dele. — Não quero você. Não quero me sentir assim. Não quero esse filho.

O silêncio caiu como um tijolo. 

Percebi tarde demais o que disse. Não era verdade. Ou era? A Carla tinha me avisado sobre isso quando sugeriu a terapia. Falou de depressão pós-parto. De mulher que não quer olhar pro filho. Que até se torna violenta. Eu não estou com depressão. Não mesmo. Eu saberia se estivesse. Não é?

— Não é justo eu dizer isso. Não é verdade. Eu amo sim... — engasguei. — ...o meu filho.

Clayton me olhou. Não estava assustado. Nem com raiva. Ele tinha compaixão no olhar.

— Cleise! Por que você nunca me disse nada disso? A gente era amigo desde que eu tinha quatro anos e você disse que eu tinha olho de Pires. Daquela história que sua mãe contava pra nós quando a gente era pequeno e eu ia à sua casa. Você lembra?

— Eu tinha só 8 anos, Clayton. Nem lembrava disso! Como você se lembra?! Era tão pequeno.

— Eu me lembro de você. Sempre. E lembro de nós. Onde a gente se perdeu?

— Sua vez, Clayton — a Dr. Marta interrompeu, sem tirar os olhos do caderno. — Mas antes, alguém quer água?

Fiquei orgulhosa do que ouvi. Olhei pra Clayton e dei um sorriso tímido. Ele sorriu de volta. Ponto para a terapeuta.

Percebi um risco de caneta a mais no caderninho da Dr. Marta ao deixarmos o consultório naquela tarde. Só isso. Mas pra mim, foi quase um sorriso.

Protocolo



Protocolo 


Clayton 

O táxi cortava a noite carioca de volta para a Zona Norte, e o silêncio lá dentro era atroz. Do meu lado, Cleise olhava fixamente para a janela, com o queixo rígido e os braços cruzados sobre o peito. Ela estava furiosa. Dava para sentir a vibração daquela raiva no espaço milimétrico que nos separava no banco de trás.
Eu não conseguia olhar para ela. Em vez disso, olhei para as minhas próprias mãos repousadas sobre os joelhos. Mãos que  ganharam a vida desenhando detalhes milimétricos em unhas artísticas, mas que já tinham carregado muito peso na terra. E que hoje pintam em telas aquilo que não consigo dizer em palavras.
O balanço do carro me empurrou para trás, para o hiato de oito anos que passei longe do Rio. Oito anos em Minas Gerais, pisando no barro, trabalhando como técnico em agropecuária na empresa pesqueira do meu tio. Eu achei que aquele isolamento me daria um futuro, mas só me deu fantasmas. Fechei os olhos e a lembrança incômoda do meu primo mais velho me atingiu como um tapa. O jeito como ele me olhava, as investidas disfarçadas de piada, a respiração perto demais no galpão. Foi ali que descobri o homossexualismo dele — um segredo sufocante que nossos tios nem sonhavam, mas que se transformou em um mal-estar tão insuportável que me expulsou de Minas. Aguentei o quanto pude, arrastando os dias até o casamento do outro primo. Assim que o altar foi desmontado, eu arrumei as malas e fugi de volta para o Rio.
Na volta, tentei me limpar do passado. Ia com a minha avó ajudar nas obras da Igreja, carregando canecas marmorizadas sob o sol escaldante, buscando uma redenção que eu nem sabia se merecia. Foi nessa época que descobri meu talento com o pincel. Comecei a trabalhar com unhas artísticas. No início, as pessoas olhavam torto, um homem fazendo aquilo, mas o talento falou mais alto e logo a agenda estava lotada. Ganhei clientes, ganhei meu próprio dinheiro, mas perdi a paz em casa.
Viver sob o mesmo teto que Cléo, a mãe do meu coração, e Paula, a minha mãe biológica, era um inferno diário. Eu não suportava a Paula. A presença dela me sufocava. E foi no meio daquele desespero para sair dali que a Cleise apareceu.
Mal tínhamos começado a namorar e ela engravidou.
Uma onda de raiva quente subiu pelo meu pescoço enquanto o táxi passava por São Cristóvão. Eu estava com raiva. De mim, da situação, do destino. E agora, como se um filho não bastasse para amarrar nossas vidas, ela me inventa essa palhaçada de terapia de casal. Para tentar "salvar" o que nem tínhamos construído direito.
Olhei de relance para a fachada iluminada do Adegão Português sumindo na distância. Eu tinha feito tudo certo, ou pelo menos o que achei que era certo. Engoli meu orgulho e pedi dinheiro emprestado para o pai dela só para podermos jantar naquele lugar chique. Queria impressionar. Queria ser o homem que eles esperavam que eu fosse. Pedi o Bacalhau à Lagareiro, o vinho caro no balde de gelo... e para quê?
Cleise passou o jantar inteiro com o pensamento em outro lugar. Ela só pensa no filho. Cada palavra, cada gesto, cada plano dela gira em torno daquela barriga. Ela não me quer ali como homem; ela quer um pai funcional, uma engrenagem na vidinha perfeita que desenhou na cabeça.
O táxi freou brusco no sinal. O motorista nem imaginava o drama no banco de trás. Olhei mais uma vez para Cleise, a mulher com quem eu dividi uma cama e um futuro forçado.O gosto amargo do vinho verde ainda estava na minha boca. Eu sabia perfeitamente o que ela queria. Mas eu? Eu olhava para o asfalto escuro da Zona Norte e só conseguia sentir o peso do vazio.
Eu não sabia o que queria. E isso era o que mais me apavorava.



sexta-feira, 10 de julho de 2026

Margarida

"Margarida"

Quase não acredito quando o porteiro avisa pelo interfone:  
— Dona Margarida, a Cleise e o bebê estão aqui na portaria. Eu bem que disse que, sendo menina de casa, ela podia subir direto, mas ela pediu pra eu interfonar avisando.  

Suspirei. Deixei passar a intromissão. Ainda tenho que dar um jeito na geladeira que não gela direito, e o seu Zé vive com um amigo conserta-tudo pra indicar.

Vi a Cleise pelo olho mágico, empurrando o carrinho. Ela ainda não perdeu o peso da gravidez. Mancha de leite seca na alça da bolsa.

— Lembrou que tem mãe?  
— Oi, mãe. Pode antes me dar um copo d’água? Lá fora tá um calor de matar.  

Entreguei o copo. Ela bebeu em três goles, com sede de quem amamenta.  
— Antes de quê?  
— De me alfinetar como sempre! Estava até com saudades disso.  
— O que você faz aqui a essa hora? Além, é claro, de bancar a adolescente malcriada que você era enquanto morava aqui?  

Cleise fez um gesto com as mãos, como quem espanta fumaça.  
— Tudo bem, mãe, desculpa. É que você...  

Esperei ela terminar. Ela engoliu o que ia dizer e olhou pro menino, adormecido no carrinho.  
— Preciso que fique com ele pra mim.  
— E a sua mãe de plantão, a Cléo? Eu bem devia imaginar que aquela lá ia me apunhalar pelas costas. Ela nunca gostou da minha amizade com a Paula.  
— Isso não é verdade! A Cléo não apunhalou ninguém, mãe! Foi a Paula, a sua amiga do peito, a Paula, quem traiu a Cléo.  
— Tá muito saidinha, Cleise, pra quem vem me pedir ajuda.  
— Mãe... Eu vim te pedir ajuda! Ajuda! Porque você não entende isso? Você é minha mãe!  

Olhei pra ela e passou um filme diante dos meus olhos.  
Cleise pequena, correndo pra mim em lágrimas depois do último encontro com o pai. Ela tinha 10 anos. Nunca mais quis vê-lo. Foi quando passou a chamar o Roberto de pai.  
Cleise gritando feliz, jornal na mão, o nome "Cleisemir dos Santos" em primeiro lugar no vestibular para jornalismo na UERJ.  
Tantos momentos... Mas lembrei de Cleise saindo com a Paula da maternidade. Se fosse só isso... Mas a Cléo também estava lá, cheia de salamaleques com a minha filha. Minha filha. Não a filha dela.  
Minha filha... Filha.

— Filha. Ainda sou sua mãe e é claro que posso ajudar. Você pretende ficar fora quanto tempo?  
— Não sei... A reserva do jantar é às 22h. Uma hora ou duas, no máximo.  

Olhei curiosa. Ela respondeu o que não perguntei:  
— É pra terapia de casal. Foi um exercício que a psicóloga passou. A gente precisa sair só nós dois, sem o bebê, pra tentar se acertar... pra se reconectar.  

— Entendi. Filha, quer conversar sobre isso?  
— Mãe, é que eu... o Clayton... a gente...  

Pigarreou. Ajeitou a manta do Felipe no carrinho.  
— Preciso ir. Tem anos que não pinto as unhas. Já viraram cascos desbotados.  
— Pede pra pôr aquele esmalte "Vamp". O vermelho-escuro profundo combina com o tom do seu cabelo.  
— Nem me fala do cabelo... Nunca caiu tanto!  
— Normal, filha. Quando eu tive você, meu cabelo ficou fino e bem frágil por meses. Tive até que mudar a alimentação. Vai passar.  
— Eu sei... Tudo passa, né? Você sempre dizia que se o que é bom passa...  
— ...o mal também há de passar!  

Sorri.  

— Tchau, mãe! Realmente preciso ir.  
— Fique tranquila, o Felipe ficará bem, filha.  
— Filha?  
Ela já estava com a mão na maçaneta e virou de volta.  
— Oi, mãe! — disse antes de fechar a porta.  
— Eu te amo. Não se esqueça disso.