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domingo, 12 de julho de 2026

"Parceira , Não mulher"


A terceira sessão começou como sempre. Respirei aliviada quando a recepcionista mandou a gente entrar. Eu não gostava de aguardar na recepção. Aqueles olhares dos outros casais, cheios de culpa. Aquele sentimento de inadequação. 

Talvez fosse só imaginação minha. Eles nem me olhavam, consumidos pela vergonha de ter que assumir que precisavam de terapia de casal. Talvez fosse Transferência. Pesquisei pro blog. Me descobri ali, vendo culpa nos outros porque era a minha que transbordava.

Descobri mais. O meu medo, que grita. O medo do Clayton, que cala. Tenho pena dele. Pena da gente. Raiva também.

Tomada de raiva, eu entro no consultório. Não aceito o gesto de Clayton para que eu entrasse primeiro. Não é disso que eu sinto falta, Clayton!

— Olá, como foi a semana? — a voz da Dr. Marta era de paisagem. Neutra.
— Bem.
Olhei pra ele com raiva. Muita raiva.
— É mesmo? — eu disse entre dentes.

Na semana passada, a Dr. Marta mandou a gente ter um encontro. Só nós dois. Sem falar de filho, de contas, de culpa. O tal do “exercício de reconexão”. Fiz uma lista do que aconteceu como se fizesse a lista do supermercado.

— Primeiro: ele me beijou. Depois disse que foi sem querer. Então a gente fez todo um arranjo pra poder ir no bendito restaurante fazer a merda do exercício. Me humilhei pedindo pra minha mãe ficar com o Felipe. Ela fez bolo, chamou as vizinhas, contou pra igreja que a gente ia “reacender a chama”. Só faltou soltar fogos. Na porta, ela disse que me amava quando eu saí do apartamento onde morei um dia. Eu não respondi. Não queria dizer “eu também”. Não era verdade.

— Reconexão porra nenhuma! — disse olhando pra Dr. Marta. Um olhar cheio de raiva. Ela sustentou meu olhar.
— Só discutimos. Voltamos brigados. Ou melhor, em silêncio. Uma sombra sobre nós.

Dr. Marta, impassível. Nenhuma contração no rosto. Levantar de sobrancelha. Nada. Que vontade de arrancar aquele caderninho da mão dela. Onde ela anota o que eu não sei.

— E você, Clayton. Como se sente ouvindo sua parceira dizer isso?

A psicóloga disse parceira. Não mulher. Como se fôssemos sócios de uma empresa falida. O que isso significa?

Clayton mexeu na aliança. Depois tirou e colocou no braço da poltrona. 

— Eu tentei. Pedi dinheiro emprestado pro meu sogro. Sei que ele não vai cobrar, mas terei que vender várias telas pra pagar o empréstimo. Escolhi o melhor restaurante. O melhor terno. O melhor pedido. O vinho verde que me deixou tonto e com gosto de derrota. Ela não me quer. Quer o filho. Não a mim.

— Tem razão, Clayton — cuspi o nome dele. — Não quero você. Não quero me sentir assim. Não quero esse filho.

O silêncio caiu como um tijolo. 

Percebi tarde demais o que disse. Não era verdade. Ou era? A Carla tinha me avisado sobre isso quando sugeriu a terapia. Falou de depressão pós-parto. De mulher que não quer olhar pro filho. Que até se torna violenta. Eu não estou com depressão. Não mesmo. Eu saberia se estivesse. Não é?

— Não é justo eu dizer isso. Não é verdade. Eu amo sim... — engasguei. — ...o meu filho.

Clayton me olhou. Não estava assustado. Nem com raiva. Ele tinha compaixão no olhar.

— Cleise! Por que você nunca me disse nada disso? A gente era amigo desde que eu tinha quatro anos e você disse que eu tinha olho de Pires. Daquela história que sua mãe contava pra nós quando a gente era pequeno e eu ia à sua casa. Você lembra?

— Eu tinha só 8 anos, Clayton. Nem lembrava disso! Como você se lembra?! Era tão pequeno.

— Eu me lembro de você. Sempre. E lembro de nós. Onde a gente se perdeu?

— Sua vez, Clayton — a Dr. Marta interrompeu, sem tirar os olhos do caderno. — Mas antes, alguém quer água?

Fiquei orgulhosa do que ouvi. Olhei pra Clayton e dei um sorriso tímido. Ele sorriu de volta. Ponto para a terapeuta.

Percebi um risco de caneta a mais no caderninho da Dr. Marta ao deixarmos o consultório naquela tarde. Só isso. Mas pra mim, foi quase um sorriso.

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