"Margarida"
Quase não acredito quando o porteiro avisa pelo interfone:
— Dona Margarida, a Cleise e o bebê estão aqui na portaria. Eu bem que disse que, sendo menina de casa, ela podia subir direto, mas ela pediu pra eu interfonar avisando.
Suspirei. Deixei passar a intromissão. Ainda tenho que dar um jeito na geladeira que não gela direito, e o seu Zé vive com um amigo conserta-tudo pra indicar.
Vi a Cleise pelo olho mágico, empurrando o carrinho. Ela ainda não perdeu o peso da gravidez. Mancha de leite seca na alça da bolsa.
— Lembrou que tem mãe?
— Oi, mãe. Pode antes me dar um copo d’água? Lá fora tá um calor de matar.
Entreguei o copo. Ela bebeu em três goles, com sede de quem amamenta.
— Antes de quê?
— De me alfinetar como sempre! Estava até com saudades disso.
— O que você faz aqui a essa hora? Além, é claro, de bancar a adolescente malcriada que você era enquanto morava aqui?
Cleise fez um gesto com as mãos, como quem espanta fumaça.
— Tudo bem, mãe, desculpa. É que você...
Esperei ela terminar. Ela engoliu o que ia dizer e olhou pro menino, adormecido no carrinho.
— Preciso que fique com ele pra mim.
— E a sua mãe de plantão, a Cléo? Eu bem devia imaginar que aquela lá ia me apunhalar pelas costas. Ela nunca gostou da minha amizade com a Paula.
— Isso não é verdade! A Cléo não apunhalou ninguém, mãe! Foi a Paula, a sua amiga do peito, a Paula, quem traiu a Cléo.
— Tá muito saidinha, Cleise, pra quem vem me pedir ajuda.
— Mãe... Eu vim te pedir ajuda! Ajuda! Porque você não entende isso? Você é minha mãe!
Olhei pra ela e passou um filme diante dos meus olhos.
Cleise pequena, correndo pra mim em lágrimas depois do último encontro com o pai. Ela tinha 10 anos. Nunca mais quis vê-lo. Foi quando passou a chamar o Roberto de pai.
Cleise gritando feliz, jornal na mão, o nome "Cleisemir dos Santos" em primeiro lugar no vestibular para jornalismo na UERJ.
Tantos momentos... Mas lembrei de Cleise saindo com a Paula da maternidade. Se fosse só isso... Mas a Cléo também estava lá, cheia de salamaleques com a minha filha. Minha filha. Não a filha dela.
Minha filha... Filha.
— Filha. Ainda sou sua mãe e é claro que posso ajudar. Você pretende ficar fora quanto tempo?
— Não sei... A reserva do jantar é às 22h. Uma hora ou duas, no máximo.
Olhei curiosa. Ela respondeu o que não perguntei:
— É pra terapia de casal. Foi um exercício que a psicóloga passou. A gente precisa sair só nós dois, sem o bebê, pra tentar se acertar... pra se reconectar.
— Entendi. Filha, quer conversar sobre isso?
— Mãe, é que eu... o Clayton... a gente...
Pigarreou. Ajeitou a manta do Felipe no carrinho.
— Preciso ir. Tem anos que não pinto as unhas. Já viraram cascos desbotados.
— Pede pra pôr aquele esmalte "Vamp". O vermelho-escuro profundo combina com o tom do seu cabelo.
— Nem me fala do cabelo... Nunca caiu tanto!
— Normal, filha. Quando eu tive você, meu cabelo ficou fino e bem frágil por meses. Tive até que mudar a alimentação. Vai passar.
— Eu sei... Tudo passa, né? Você sempre dizia que se o que é bom passa...
— ...o mal também há de passar!
Sorri.
— Tchau, mãe! Realmente preciso ir.
— Fique tranquila, o Felipe ficará bem, filha.
— Filha?
Ela já estava com a mão na maçaneta e virou de volta.
— Oi, mãe! — disse antes de fechar a porta.
— Eu te amo. Não se esqueça disso.
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