Restaurante
Ele bate na porta do quarto já de terno. Azul marinho, ombro alinhado, gravata que não usava desde o casamento do primo em 99. O cabelo castanho penteado pra trás, cheiro de gel e desespero.
Eu termino de passar o batom. Vermelho. Porque se é pra sangrar, que seja na boca.
O vestido largo cai sobre o corpo. Chique, dizia a etiqueta. Saída de maternidade, dizia o espelho. Preto, pra disfarçar a barriga que a cinta não disfarça. Manga morcego pra esconder o braço que amamenta de três em três horas.
Meu cabelo avermelhado briga com o zíper. Volumoso, ondas armadas de quem não dorme e não tem tempo de escova. Não é crespo, não é liso. É o meio termo que ninguém sabe nomear. Igual eu, agora.
Ele para na porta. Olha primeiro pro cabelo. Depois pro vestido. Depois pro chão.
— Ficou bonito, ele diz.
Bonito. Adjetivo de tia de batizado. Bonito é bolo de padaria. Bonito é centro de mesa.
Não diz gostosa. Não diz linda. Não diz que sente falta.
Ajeito uma onda do cabelo atrás da orelha. O brinco de argola pesa. Tudo pesa.
— Seu terno também, respondo.
Protocolo. A gente tá ótimo no protocolo.
Ele entra dois passos. Não chega perto. O quarto cheira a leite azedo e pomada pra rachadura no bico do peito. Chique demais pro terno dele.
— O táxi já deve estar chegando.
Assinto. Pego a bolsa. Grande, cabe uma fralda e um absorvente de seio. A bolsa de antigamente não cabe mais nada meu.
Passo por ele na porta. Ele segura meu braço, leve. Dedo no tecido largo do vestido. Não encosta na pele.
— Cleise.
Paro. Não viro. O cabelo vermelho cobre meu rosto. Melhor assim. Ele não vê que eu já tô chorando antes da entrada do Adegão.
— Vamos tentar, ele fala pro meu cabelo.
Respiro. A cinta deixa ir só até a metade.
— Vamos, respondo.
Ele solta meu braço. Desço na frente. O salto baixo faz barulho na escada do prédio de Vila Isabel. O cabelo balança. Volumoso, vermelho, vivo. A única parte de mim que ainda não pediu desculpa por existir.
Entramos no táxi.
Reconheço o caminho. Nunca estive lá. Chique demais para meu bolso.
O Adegão Português era ali, em São Cristóvão. Um pulo de táxi saindo do nosso apartamento em Vila Isabel. Caro, mas ele insiste.
— Voltaremos de táxi também.
Não era uma pergunta. Ele explica:
— Tem vinhos maravilhosos aqui. Hoje merecemos.
Quis dizer que não podia beber. Balancei a cabeça, concordando.
Ele me olha. Responde o que não perguntei.
— Foi seu pai. Ele viu o neto quando chegou da Galeria. Margarida dava mamadeira pro Felipe. Quis ajudar, Cleise! Depois eu prometo que acerto com ele. Esquece isso.
A saliva sobe ao invés de descer. Engulo o ar.
— Certo.
Melhor calar.
O maître se aproxima, de terno, no melhor estilo formal alinhado. Confere a reserva na recepção e nos leva até a mesa.
Lugar classudo, dois salões enormes. Cadeiras de madeira escura. Quadros com paisagem de Portugal na parede. Família grande na mesa do lado, criança chorando. 2002 e o Adegão continua o mesmo: barulho e toalha branca.
Ainda observava um quadro quando o garçom se aproxima. Seguro. Com certeza, veterano.
Clayton se adianta. Nervoso. Eu sei.
— Vamos querer uma travessa de Bacalhau à Lagareiro.
— Você gosta de bacalhau.
— É. Não como bacalhau há muito tempo. Nem lembro da última vez. Mas nunca comi um prato desses.
— Quando estive aqui, em 2000, adorei o lagareiro — ele fala rápido, tropeçando nas palavras. — A posta vem assada, muito azeite, alho, cebola. Dá pra dois. Vem com Batata ao Murro.
— O que é isso?
— São batatas esmurradas e assadas. E ainda tem arroz de brócolis.
Como ele sabia de tudo isso?
De repente vejo que não conheço Clayton. Ele mudou muito nos oito anos que ficamos separados. No ano 2000, quando ele e Carla vieram morar no meu apartamento, Clayton pouco falava de si. Quando ele começou a se abrir e me permitiu entrar, eu engravidei de Felipe. Aí veio o ciúme. Ele piorou na gravidez. E agora...
O garçom se aproxima com a carta de vinhos. De couro. Tudo muito chique.
— O que sugere? — Clayton entrega a carta. Ele não tinha a menor ideia do que pedir. Vinhos que ele nem sabia que existiam. E que eu só ouvi falar.
— Vinho verde branco Português. Casal Garcia. Creio que será do agrado de vocês.
— Certo.
— Quero um suco. De laranja.
O garçom sorri.
— Claro, senhora.
Anota no caderno. Se afasta.
Olho pro relógio de pulso. Minha mãe deve estar colocando o Felipe pra dormir agora. Ninguém pra ligar e perguntar se tá tudo bem. 2002 não tem disso.
— Como foi com sua mãe?
— Tudo bem.
— Pena que Cléo não pode ficar. Surgiu um cliente extra. Cléo estava aposentada. Mas já quebrou tanto galho que acho que ela já considerou um retorno da aposentadoria.
— A cara da Cléo. Ela sempre foi muito responsável.
— Você gosta dela, né?
— Muito. A mãe que minha mãe não quis ser.
— Eu sei, Cleise. Nossas histórias não são muito diferentes. Eu tenho uma mãe que não me quis. Você teve uma mãe que não soube querer.
Admirei a súbita maturidade daquela frase. Ponto pra terapeuta.
Ele estica a mão para encontrar a minha sobre a mesa. Retiro para colocar o guardanapo no colo. Ele não insiste mais.
A comida chega. E as bebidas.
Era muito vinho pra Clayton. Agora entendi ele querer voltar de táxi. Ele sabia que eu não podia beber e respeitou isso sem eu lembrar. Esse Clayton eu ainda não conheço. Posso me apaixonar por ele! Devo?
A raiva pelo distanciamento de um ano sobe, o suco não quer descer.
Não posso. Não devo. Quero. Não devo!
— Não podemos demorar muito.
— Temos que fazer isso, Cleise. Não consegue fazer um movimento por nós?
— E agora a culpa é minha? Você que se afasta de mim, de nosso filho que mal nasceu. Dois anos separados, Clay. Dois meses de Felipe. Não me olha, não me toca. Sei que não tô gostosa. Tô uma merda. Mas é o que eu tenho pra dar.
O garçom chega antes que ele responda. Entrega para Clayton a carta, capa de couro. Conta no interior. Leva o cartão e some. Aqueles dois minutos de silêncio enquanto a maquininha não volta são uma eternidade.
Clayton paga, levanta. Vai até a cadeira em que estou sentada, me dá a mão para eu levantar. Sorrio. Protocolo.
Entramos no carro e voltamos num silêncio atroz. A cinta aperta. O silêncio aperta mais.
A psicóloga que lute pra resolver.
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