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sábado, 18 de abril de 2026

capítulo 19


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"18 A casa ficando vazia*

carla 

Carla acordou com o choro do Lucas às 5:47 da manhã. O corpo dela, acostumado a madrugadas de plantão, respondeu antes do cérebro.

Cleise já estava de pé, encostada no batente da janela, com o bebê no colo. Não ninava. Só segurava, olhando pro jardim como se esperasse alguém voltar.

— Te acordei? — Cleise perguntou sem tirar os olhos lá de fora.

— Profissionalmente, eu chamo isso de “ser chamada” — Carla sentou na cama, catando o cabelo num coque. — Posso?

Cleise assentiu e passou o Lucas pra ela. O alívio nos braços da amiga foi imediato e visível. Um detalhe que Carla anotou sem julgar.

O silêncio da casa era diferente hoje. Mais oco.

— A Cleo já saiu — Cleise disse, como se respondesse a pergunta que Carla ainda não tinha feito. — Foi resolver a mudança dela. Disse que não pode adiar mais. Volta de tarde só pra buscar as últimas caixas. E o Akira.

Akira Kurosawa. O husky siberiano que uivava pra lua e derrubava a gente de alegria na porta. Era do Clayton, filho da Cleo de consideração. Mas ficou com ela porque o apartamento de Cleise era pequeno demais pra um cachorro que foi feito pra puxar trenó.

— Ele vai sentir falta daqui — Carla comentou, testando o terreno. O Lucas cheirava a leite e sono na curva do pescoço dela. — E vocês dele.

— É — Cleise deu de ombros. Um gesto mínimo que doeu mais que frase inteira. — A casa da Cleo no Recreio é gigante. Lá ele pode correr. Aqui... aqui tá tudo pequeno demais ultimamente.

Carla entendeu o subtexto. Não era sobre metragem. Era sobre fôlego.

Ela esperou o Lucas arrotar no ombro dela, deu duas batidinhas, e só então perguntou, casual:

— E o Roberto?

O nome do marido bateu no ar e ficou lá, suspenso, como poeira. Cleise fechou a cara por um segundo. Não de raiva. De cansaço.

— Trancado no ateliê desde que o Lucas nasceu — ela respondeu, mexendo no próprio cabelo, puxando um fio. — Diz que “precisa criar”. Que a cabeça dele tá “um caos fértil”. Ontem eu bati na porta. Três vezes. Ele nem abriu. Só passou um bilhete por baixo: “Esquenta uma marmita pra mim”.

Carla sentiu o maxilar travar. Como psicóloga, ela conhecia o discurso. Isolamento criativo. Como amiga da Cleise, ela conhecia a palavra certa: abandono.

— Ele já pegou o Lucas no colo alguma vez? — Carla perguntou. Precisava saber o tamanho do buraco.

Cleise demorou pra responder. Quando respondeu, foi olhando pro chão.

— No hospital. Pra foto.

Pronto. O segundo dominó tinha caído. Primeiro foi o medo verbalizado na noite anterior. Agora era a confirmação do isolamento. A rede de apoio não estava só furada. Estava sendo desmontada peça por peça.

Lá embaixo, ouviram o portão. Depois, um uivo longo e grave que subiu pelas escadas. Akira Kurosawa tinha sentido a Cleo chegar.

— Ela veio buscar ele — Cleise sussurrou. E pela primeira vez desde que o Lucas nasceu, duas lágrimas desceram, rápidas. Não era pelo cachorro. Era por tudo que o cachorro representava: barulho, vida, visita, uma desculpa pra abrir a porta de casa.

Carla devolveu o Lucas pra Cleise, mas dessa vez ficou com a mão no braço dela. Âncora.

— Cleo — Carla chamou quando ouviram os passos dela na escada —, espera um segundo antes de descer com ele?

Cleo apareceu na porta do quarto. Mulher de uns sessenta, cabelo curto, argolas grandes. Tinha olheiras de quem também não dormia, mas era de preocupação, não de puerpério. Segurava a guia do Akira na mão.

— Oi, Carla — ela forçou um sorriso. — Já tô indo. Não quero atrapalhar.

— Você não atrapalha — Carla disse, firme. — Você segura. E a gente tá precisando de quem segura.

Cleo entrou. Akira veio atrás, um trator de pelo branco e cinza, e enfiou o focinho gelado na perna de Cleise. Ela se desmanchou. Choro de verdade, agora, enterrando os dedos no pelo do cachorro.

— Ai, meu filho — Cleo se ajoelhou também, abraçando os dois. — Eu não queria ir agora. Mas a casa já tá alugada, e o Clayton...

— Eu sei — Cleise soluçou. — Eu sei. Desculpa. É que quando você for, vai ficar só...

Ela não completou. Não precisava. “Só eu e o fantasma do Roberto no ateliê”.

Carla respirou fundo. Hora de usar a técnica, mas com afeto.

— Certo — ela bateu uma palma, leve, chamando as duas pro plano. — A gente não vai resolver a vida toda hoje. Hoje a gente resolve as próximas seis horas. Cleo, você pode adiar o Akira em uma semana? Só uma. A gente paga o pet shop, o que for. Cleise, você e eu vamos tomar café. Um café decente, com pão na chapa. E depois — ela ergueu o dedo, olhando pra porta do corredor, onde ficava o ateliê — a gente vai bater naquela porta. Juntas.

— Ele não vai abrir — Cleise disse, automática.

— Pra você, talvez não — Carla deu de ombros, imitando o gesto dela de mais cedo. — Mas pra fome, ele abre. E pra uma psicóloga amiga da esposa dele com um husky siberiano de 30kg arranhando a porta, ele abre também.

Cleo soltou uma risada de surpresa. A primeira da manhã.

— Você é doida, Carla.

— Sou — Carla piscou. — E tô de plantão.

Akira latiu, uma vez, como se votasse a favor. Lucas, no colo da mãe, abriu um olho, julgou a bagunça toda, e voltou a dormir.

Pela janela, o sol de manhã batia no jardim. A casa ainda ia ficar vazia. Mas não hoje. Hoje, eles tinham comprado mais um dia. E às vezes, no puerpério, um dia é um país inteiro.

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Carla acordou com o choro do Felipe às 5:47 da manhã. O corpo dela, acostumado a madrugadas de plantão, respondeu antes do cérebro. 

Cleise já estava de pé, encostada no batente da janela, com o bebê no colo. Não ninava. Só segurava, olhando pro jardim como se esperasse alguém voltar.

— Te acordei? — Cleise perguntou sem tirar os olhos lá de fora.

— Profissionalmente, eu chamo isso de “ser chamada” — Carla sentou na cama, catando o cabelo num coque. — Posso?

Cleise assentiu e passou o Felipe  pra ela. O alívio nos braços da amiga foi imediato e visível. Um detalhe que Carla anotou sem julgar.

O silêncio da casa era diferente hoje. Mais oco.

— A Cleo já saiu — Cleise disse, como se respondesse a pergunta que Carla ainda não tinha feito. — Foi resolver a mudança dela. Disse que não pode adiar mais. Volta de tarde só pra buscar as últimas caixas. E o Akira.

Akira Kurosawa. O husky siberiano que uivava pra lua e derrubava a gente de alegria na porta. Era do Clayton, filho da Cleo de consideração. Mas ficou com ela porque o apartamento de Cleise era pequeno demais pra um cachorro que foi feito pra puxar trenó.

— Ele vai sentir falta daqui — Carla comentou, testando o terreno. O Felipe cheirava a leite e sono na curva do pescoço dela. — E vocês dele.

— É — Cleise deu de ombros. Um gesto mínimo que doeu mais que frase inteira. — A casa da Cleo no Recreio é gigante. Lá ele pode correr. Aqui... aqui tá tudo pequeno demais ultimamente.

Carla entendeu o subtexto. Não era sobre metragem. Era sobre fôlego.

Ela esperou o bebê  arrotar no ombro dela, deu duas batidinhas, e só então perguntou, casual:

— E o Clayton?

O nome do marido bateu no ar e ficou lá, suspenso, como poeira. Cleise fechou a cara por um segundo. Não de raiva. De cansaço.

— Trancado no ateliê desde que o Felipe nasceu — ela respondeu, mexendo no próprio cabelo, puxando um fio. — Diz que “precisa criar”. Que a cabeça dele tá “um caos fértil”. Ontem eu bati na porta. Três vezes. Ele nem abriu. Só passou um bilhete por baixo: “Esquenta uma marmita pra mim”.

Carla sentiu o maxilar travar. Como psicóloga, ela conhecia o discurso. Isolamento criativo. Como amiga da Cleise, ela conhecia a palavra certa: abandono.

— Ele já pegou o Felipe no colo alguma vez? — Carla perguntou. Precisava saber o tamanho do buraco.

Cleise demorou pra responder. Quando respondeu, foi olhando pro chão.

— No hospital. Pra foto. 

Pronto. O segundo dominó tinha caído. Primeiro foi o medo verbalizado na noite anterior. Agora era a confirmação do isolamento. A rede de apoio não estava só furada. Estava sendo desmontada peça por peça.

Lá embaixo, ouviram o portão. Depois, um uivo longo e grave que subiu pelas escadas. Akira Kurosawa tinha sentido a Cleo chegar.

— Ela veio buscar ele — Cleise sussurrou. E pela primeira vez desde que o Felipe nasceu, duas lágrimas desceram, rápidas. Não era pelo cachorro. Era por tudo que o cachorro representava: barulho, vida, visita, uma desculpa pra abrir a porta de casa.

Carla devolveu o " embrulhimho cheirando a talco e leite " pra Cleise, mas dessa vez ficou com a mão no braço dela. Âncora.

— Cleo — Carla chamou quando ouviram os passos dela na escada —, espera um segundo antes de descer com ele?

Cleo apareceu na porta do quarto. Mulher de uns sessenta, cabelo curto, argolas grandes. Tinha olheiras de quem também não dormia, mas era de preocupação, não de puerpério. Segurava a guia do Akira na mão.

— Oi, Carla — ela forçou um sorriso. — Já tô indo. Não quero atrapalhar. 

— Você não atrapalha — Carla disse, firme. — Você segura. E a gente tá precisando de quem segura.

Cleo entrou. Akira veio atrás, um trator de pelo branco e cinza, com olhos azuis como céu, e enfiou o focinho gelado na perna de Cleise. Ela se desmanchou. Choro de verdade, agora, enterrando os dedos no pelo do cachorro.

— Ai, meu filho — Cleo se ajoelhou também, abraçando os dois. — Eu não queria ir agora. Mas a casa já tá apertada , e o Clayton...

— Eu sei — Cleise soluçou. — Eu sei. Desculpa. É que quando você for, vai ficar só... 

Ela não completou. Não precisava. “Só eu e o fantasma do Clay no ateliê”.

Carla respirou fundo. Hora de usar a técnica, mas com afeto.

— Certo — ela bateu uma palma, leve, chamando as duas pro plano. — A gente não vai resolver a vida toda hoje. Hoje a gente resolve as próximas seis horas. Cleo, você pode adiar o Akira em uma semana? Só uma. A gente paga o pet shop, o que for. Cleise, você e eu vamos tomar café. Um café decente, com pão na chapa. E depois — ela ergueu o dedo, olhando pra porta do corredor, onde ficava o ateliê — a gente vai bater naquela porta. Juntas.

— Ele não vai abrir — Cleise disse, automática.

— Pra você, talvez não — Carla deu de ombros, imitando o gesto dela de mais cedo. — Mas pra fome, ele abre. E pra uma psicóloga amiga da esposa dele com um husky siberiano de 30kg arranhando a porta, ele abre também.

Cleo soltou uma risada de surpresa. A primeira da manhã.

— Você é doida, Carla.

— Sou — Carla piscou. — E tô de plantão.

Akira latiu, uma vez, como se votasse a favor. Felipe , no colo da mãe, abriu um olho, julgou a bagunça toda, e voltou a dormir. 

Pela janela, o sol de manhã batia no jardim. A casa ainda ia ficar vazia. Mas não hoje. Hoje, eles tinham comprado mais um dia. E às vezes, no puerpério, um dia é um país inteiro.



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