"Paula foi embora e Cleo foi atender a um antigo cliente. Embora aposentada , ela não podia dizer não a quem pedisse socorro , e foi o que ele fez: implorou um socorro urgente.
Clayton por sua vez ,ainda com comportamento de depressão pós parto masculina ...
Coitada da minha amiga ..."
Terminei de arrumar a cozinha .
Pensei que ia sair uma guerra , mas a tapioca com requeijão e carne seca só fez todo mundo ficar de boca cheia e não falar besteira.
Fui em silêncio até o quarto da Cleise e bati na porta devagar .
Ela falou entra bem baixinho e entendi , o anjinho estava dormindo , finalmente.
Coisa boa essa fase , pelo menos ainda não começaram as cólicas ...
Olhei pra Cleise." É,amiga , nem imagina o que te aguarda"
A irmã do Mateus também está com bebê recém nascido...Mais uma razão para eu vir ver a Cleise.
**
O quarto cheirava a lenço umedecido e leite. Carla não perguntou nada. Só empurrou a porta com o quadril porque as duas mãos seguravam uma caneca fumegante.
— Trouxe chá. Sem cafeína. E roubei um pedaço daquela goiabada que você escondeu da sua mãe — ela sorriu, colocando a caneca na mesinha. — Pra gente. Não pro bebê.
Cleise estava na poltrona de amamentação, mas o bebê dormia no berço. Ela olhava pro vazio.
— Não vejo minha mãe faz um tempo...e ela nem gosta de goiabada .
Carla riu .
— Falei da sua mãe de consideração...a Cléo, vejo a relação de vocês duas ...é mais que carinho de avó...sabe disso !
Carla se sentou na beirada da cama, não na poltrona de frente. Lado a lado é menos confronto.
— O puerpério é um país estranho, né? — Carla disse baixo. — Dizem que é amor à primeira vista, mas esquecem de avisar que a gente chega lá depois de uma guerra, sem dormir e sangrando.
Cleise deu uma risada curta, que virou soluço.
— É exatamente isso.
Carla pegou o chá pra Cleise, esquentando as mãos dela com a caneca.
— Sabe, na faculdade a gente estuda uma coisa chamada ‘baby blues’. Atinge tipo 80% das mães. É o corpo despencando de hormônio, é o susto, é o medo. Dá uma tristeza do nada, um choro... dura uns 15 dias. É esperado.
Ela fez uma pausa, olhando pro berço.
— O que me preocupa, como sua amiga, não como psicóloga, é quando passa de 15 dias e a gente continua se sentindo no fundo do poço. Quando o amor pelo bebê vem com uma culpa gigante junto. Ou quando a gente começa a ter uns pensamentos que assustam.
Carla olhou pra Cleise. Não era pergunta. Era uma porta aberta.
Cleise não respondeu. Os dedos dela alisaram a borda da caneca, sem parar. Uma, duas, dez vezes. Quando falou, a voz saiu arranhada:
— E se eu... se eu me arrepender?
O coração da Carla apertou. Diagnóstico não era a palavra da hora. A palavra era “eu tô aqui”.
— Então a gente fala sobre esse arrependimento — Carla disse, simples. — Sem julgamento. Sem chamar a polícia da maternidade perfeita. Só você e eu, com esse chá ruim.
Ela não tocou no termo “depressão pós-parto”. Mas já estava pensando em 2 coisas: 1. Tirar a Cleise do isolamento. 2. Sugerir uma consulta com a obstetra + psicóloga perinatal, “só pra checar os hormônios e o sono”.
— Se é verdade ou não eu não sei — Cleise repetiu a frase que o avô dela vivia dizendo, olhando pro bebê —, mas eu ando com medo de ficar sozinha com ele.
— Então você não vai ficar. Hoje eu durmo aqui. A gente vê a madrugada juntas. E amanhã a gente liga pra Dra. Sônia, tá? Não porque você tá “doente”. Porque você acabou de fazer um humano. E isso merece uma equipe.
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