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domingo, 12 de abril de 2026

capítulo 16- café fresquinho, guerra declarada

Capítulo 16 - 

Café Fresquinho, Guerra Declarada

Cléo

A porta do quarto fechou com um clique tão baixo que só quem estava esperando por ele escutaria. Eu estava.

Encostei as costas na madeira e deixei o ar sair de uma vez só, como se eu tivesse prendido desde que Paula pisou no corredor com aquele perfume de 25 anos atrás. Um perfume que não envelhece. Diferente da gente.

Felipe dormia no berço, alheio ao fato de que tinha acabado de ser colo de campo de batalha. Anjinho.

Olhei pro violão encostado no canto do ateliê. Quer dizer, do quarto do Clayton. Quarto. Ele ainda erra. Eu não.

Peguei a fraldinha de pano que Paula dobrou. Dobrada igualzinho minha mãe fazia. As pontas em triângulo perfeito, não aquele rolinho preguiçoso que a Cleise faz. 

“Você não volta mais aqui, Paula. Nem que eu tenha que cantar Evidências em dó maior até ficar rouca.”

Falei sozinha. Alto suficiente pro espelho ouvir. Baixo suficiente pra santa da cozinha não escutar.

Cozinha, 3 minutos depois

O cheiro da tapioca da Carla brigava com o cheiro do café novo. A Carla sempre ganha. Baiana não perde briga de cheiro.

Paula já estava na minha cadeira. A de frente pra janela. A que bate sol às cinco. A minha.

— Cléo! — Cleise me viu primeiro e apontou o bule — Veio bem na hora. Carla fez café.

— Eu fiz tapioca também — Carla completou, já empurrando um prato na minha direção — De carne seca com requeijão. Da que o Clayton gosta.

Clayton mastigava e não olhava pra ninguém específico. Talento dele. Desde sempre.

Paula pegou a garrafa térmica como se fosse dona dela. Serviu meu copo primeiro. Dois dedos. Sem açúcar. Do jeito que eu bebo.

Minha vontade era jogar o café na parede. Minha boca fez outra coisa:

— Obrigada, Paula. Você lembra de tudo, né?

Ela sustentou o olhar. Sorriu aquele sorriso de nota de três reais que a Cleise descreveu tão bem. Acho que é contagioso.

— Algumas coisas a gente não esquece, Cléo. Igual andar de bicicleta. Ou dobrar fraldinha.

Cleise olhou de mim pra ela. O radar dela funcionou. Tardiamente, mas funcionou.

— Gente, o café tá ótimo — ela tentou — A gente devia repetir esses lanches. Né, Clay?

Clayton engoliu. Limpou a boca com o guardanapo de pano. Outro detalhe meu na casa.

— Devia — ele disse. — A música ontem fez bem pra todo mundo.

Pausa. Aquela pausa que pesa mais que mobília de madeira maciça.

Aí Paula fez o movimento dela. Xeque.

Colocou a xícara no pires sem fazer barulho nenhum. Coisa de gente treinada. Inclinou o corpo só um pouco na direção da Cleise, tirando eu e Carla da conversa com o ombro.

— Posso visitar o Felipe de novo amanhã, Cleise? — perguntou. Voz de mel. — Ele é tão calminho no meu colo. Parece que a gente se conhece de outras vidas.

Eu vi a Cleise vacilar. Um segundo. O segundo que separa a paz da guerra.

Porque eu conheço esse tom. Foi o mesmo que ela usou há 25 anos quando disse: “Cléo, posso dançar essa com o Clayton? Só essa.”

E foi só essa. Até não ser.

Carla, abençoada seja, quebrou o silêncio enfiando outra tapioca goela abaixo do Clayton.

— Come, meu rei. Tu tá magro.

Eu peguei meu café. Dois dedos. Sem açúcar. Gelado já. E dei o meu sorriso protocolar. Aquele que usei no capítulo passado e que agora passo pra Cleise como bastão.

— Claro que pode, Paula — eu respondi por ela — Essa casa é grande. Cabe todo mundo.

Menti. A casa tá pequena. Pequena demais pra três mulheres e um violão desafinado.

Cleise me olhou com gratidão. Coitada. Achou que eu estava sendo amiga.

Clayton olhou pro violão que tinha deixado no corredor. Depois olhou pra mim. Depois olhou pro chão. O de sempre.

E a Paula? A Paula bebeu o café devagar. Como quem tem tempo. Como quem sabe que guerra boa é guerra fria, servida em xícara de porcelana.

Fim do café.  
Começo da guerra.

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