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terça-feira, 30 de dezembro de 2025

capítulo 15- o Lado B

Capítulo 15- O lado B

Cleise 

Eu terminava o banho de Felipe quando percebi entrar no meu quarto a Cléo, com uma expressão confusa e que falava uma coisa no sorriso forçado, e outra, totalmente oposta, no olhar. 

Ainda pensava no que poderia ter  causado tamanha reação nela  quando reparei quem entrou atrás dela: o Clayton!E não estava sozinho...

Foi quando entendi a origem do mal-estar evidente de Cléo, mas eu não podia deixar a peteca cair... 

Meu marido  estava acompanhado ...por ela..Sim, era ela mesma , a Paula ! 🤯

Era como se num piscar de olhos, estivesse de volta no tempo e  às quadras de futevôlei...

Mas me  preparei para "devolver" aquele  saque como fosse possível , evitando o ponto certeiro para o time adversário, naquela partida imaginária que rolava bem ali , no meu quarto, mesmo que só na minha imaginação.... E respirei fundo.

 Fechei lentamente os últimos botões de pressão do body que eu tinha acabado de vestir no Felipe , para assim consegui ganhar uns preciosos segundinho a mais... Era um tempo extra precioso para que eu pudesse pensar em como agir em seguida sem provocar , sem querer, a guerra prestes a explodir...

 Por fim,  peguei o "meu embrulhinho com cheirinho de talco" e , sentei confortavelmente na cadeira de balanço. 

Simulei  uma  alegria tão sincera na voz quanto uma nota de três reais e , é claro,  sorri para confirmar a farsa. Por fim, os convidei para se acomodarem ao meu lado.

Clay se sentou na beirada da cama, de frente para mim, e Paula sentou - se ao lado dele .

Clayton sutilmente se afastou dela, e ela percebeu o movimento , mas não reagiu .

Cléo olhou, certamente analisando a cena , pois apertou os olhos e disse que  ficaria em pé , com a desculpa que logo teria que retornar à cozinha , já que Carla não tinha retornado, ainda, do mercado ....

— Essa época costuma lotar mesmo , não é?

Ninguém se deu ao trabalho de responder, pois era óbvio ser uma pergunta retórica, para preencher lacunas ...

Então , agora era a vez do meu movimento nesse jogo de xadrez improvisado.

" Bom..."pensei. "Vamos começar pelo .. começo". Movi o peão ♟️e fiz uma pergunta exploratória: 

— Como vai, Paula ? 
— Nossa , como o Felipe está grande ! Um pouco mais de ....
E deixou a pergunta no ar .

"Interessante que ela não se lembrasse ,afinal foi ela quem me trouxe aqui logo após eu receber alta do hospital." 

Eu poderia ter feito um gracejo comentando ser algo perfeitamente natural ter lapsos de esquecimento após os 60 anos ? Poderia...

 Mas olhei para aquela mulher ali, se esforçando bastante para aparentar ter metade da sua idade real , e mudei de ideia...

— Um mês ! - respondi , solicita
— Isso mesmo ! Um mês, já?!... Como o tempo passa rápido, né! 
— É...
E o assunto morreu ali.

O mal estar era grande demais ,
 pesado demais.Era como se qualquer tema , por mais banal que fosse , representasse um objeto  nessa versão adulta e inusitada,  do jogo infantil "batata quente"
 
A gente lançava o objeto e esperava que o outro não deixasse o assunto  morrer.... 

Mas dessa vez foi a vez do Felipe jogar ! 👶🏻E ele começou a chorar, inconsolado.

— Posso ?- Paula perguntou.

Pensei em dizer que não... Imaginei o que eu poderia dizer pra justificar a recusa: que ela tinha chegado da rua e estava cheia de anéis e pulseiras que poderiam machucar a pele delicada dele ..

Mas olhei pra Cléo e quase pude decifrar os olhos dela dizendo : 
" Deixa, Cleise! " . E eu resolvi acatar , por ela e suspirando , consenti:

— Claro, Paula ! 

Passei o Felipe para ela e ela segurou o bebê com extrema familiaridade .

Por instinto, eu falei :
— Consegue segurar ?

A resposta , que era óbvia, veio na forma de um sorriso e um braço estendido, cheio de pulseiras e anéis , para receber o meu bebê .

"É óbvio, Cleise . Ela sabia como segurar um bebê!"- Falei com meus botões enquanto acomodava o pequeno no colo dela .

Por um momento eu realmente compreendi: ali , entre todos ali presentes , apenas a Paula era, realmente, capaz de entender a maternidade em toda a complexidade da coisa...

O lado bom ...e o lado ruim..o lado B...Porque sempre existe o lado B né .


— O que foi Cleise ?

— Nada ...Tava pensando 🤔 bobagem...minha mente voou , agora ...

— Hum...pensou em quê?

— Em música . Como antigamente as melhores canções de um disco estavam sempre no lado A , mas verdadeiras pérolas se escondiam justamente no Lado B.

O lado alternativo de muitas obras , algumas até mais intimistas ou sem necessidade de agradar ao público, que já estava " alinhado ao lado A. Do disco " . O lado B era considerado "o lado do artista" .
Ela ajeitou a fraldinha de pano que eu mantinha perto do rostinho de Felipe , com a dupla função de limpar algo ou evitar que algum inseto se aproximasse do rostinho dele e perturbasse-lhe o sono...

— Verdade - respondeu-  Interessante comentar isso.
Sempre gostei ...A gente sempre gostou de música ...

Disse, olhando e esperando que Cléo aproveitasse a deixa , numa espécie de resgatar um tipo de acordo mútuo ...Afinal, 25 anos representavam muitas histórias para contar... juntas.Mas Cléo se fez de desentendida e não mordeu a isca .

Então Paula, sem se intimidar ,  continuou o assunto:
— Lembro de sempre cantar no Bar da Frente , saudade dessa época...Lembra do último karaokê que fizemos lá no Bar da frente ? Foi depois da nossa festa de formatura?

— Não , Paula, não se lembra ?! Cléo falou , por fim.

Claro que ela lembrava ...mas mesmo assim ela resolveu arriscar a sua Torre ...


— Você lembra do sucesso que fizemos ao cantar Evidências naqueles dias de apresentação no Bar da Frente? Cléo falou com saudades.

— Evidências? Não escuto essa música faz um tempo... - comentei . 

— Era uma das músicas preferidas do Clayton para tocar no violão. ...Paula conectou –
Você ainda toca violão,Clay ?

— Não muito .. Faz um tempo que parei ...

— Porque você não tenta tocar para nós alguma coisa ? Será que ainda se lembra ? - Paula perguntou e por um momento vi o brilho passar pelos olhos dele.

Aquela mesma confiança atrelada a uma postura blasé, tal  quando nos reencontrou , a mim e a Carla, naquele dia após deixamos a Ponto G , ao perceber que o novo point era , na verdade uma boate LGBT e, ele nos seguiu com o carro de Cléo .

Nem parece que isso tudo aconteceu há pouco mais de um ano apenas ...

O encontro, após 8 anos de distância, ocorreu por acaso  na entrada da antiga boate que frequentàvamos e que agora tinha virado uma lanchonete .

 Foi ainda na fila da tal lanchonete, onde o atendente ainda me chamou de tia, que encontrei o Clay de pé com aquela atitude desafiadora e, ao mesmo tempo, blasé 😒, nos encarando .


— Tudo bem...Se a Cleise acha que não vai acordar o bebê...ouvi- o murmurar – ...posso tentar relembrar alguma coisa !

— Desde que toque baixinho , não acredito que ele vai se incomodar... - consenti . 

— Um minuto que vou buscar o violão no meu quarto....

 Tossiu ao perceber e se corrigindo, falou em seguid :
 —  no ateliê, quero dizer ! 

Paula olhou pra Cléo e em seguida pra mim. Mas antes que eu pudesse falar algo, Clayton retornou e logo começamos a cantar .

Ele começou a dedilhar Evidências ...Em seguida cantou Canteiros ....

E então , se empolgou e dedilhou Descobridor dos 7 mares e terminou com Malandragem.

Carla chegou das compras e se juntou a nós e por algum tempo relembramos um período em que tudo parecia pequeno diante da beleza do por do sol , ouvindo Clayton tocar violão junto ao barulhos das ondas batendo nas pedras do Arpoador .

Também foi um período turbulento em nossas vidas mas a música tinha o perfeito dom de nos trazer esperança de dias melhores...

Será que a música teria esse mesmo poder novamente?! 

Felipe pareceu gostar da cantoria porque se aninhou nos braços da avó improvável e voltou a dormir.

—Porque vocês não vão até a cozinha ? Fiz umas tapiocas recheadas  e café fresquinhos para o lanche . Carla comentou 

— Jura, Carla ?! Saudade da sua comida !

— Nem vem que eu até cozinho bem, Clayton.- retruquei , rindo .

Nem lembrava a última vez que sorri realmente com vontade , sem ser o sorriso protocolar dos últimos tempos .

— nem se compara com a baiana aqui! Disse, rindo , e ninguém contestou , porque era mesmo verdade .

— Vão lá , Cleise, você mal sai desse quarto! Vão pra cozinha que eu vou aproveitar pra arrumar um pouco e aproveito e olho ele ...- a Cléo falou , e enxotou carinhosamente todo mundo para a cozinha .
















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