Cleise
A verdada doía menos.
— Homem nenhum beija sem querer. Tropeça sem querer, beijar, não.
Minha mente voltou no tempo para a fatídica noite em que fomos ao restaurante para aquele exercício idiota.
Quando voltamos para a casa naquela noite, a gente abriu a porta do apartamento e o apartamento não estava nos esperando. Ele estava sendo usado.
Tinha cheiro de alho, não de bolo. Tinha panela chiando baixo. E o Felipe não estava berrando no berço como eu deixei na minha cabeça quando saí. Ele estava dormindo. De boca aberta, babando em cima do peito da Cléo.
A Cléo estava no nosso sofá, de meia, lendo um livro da biblioteca. Como se morasse ali.
— Como foi a sessão? — ela disse sem levantar.
Clayton, ainda de terno do melhor restaurante, respondeu rápido demais.
— Foi ótimo, mãe.
Olhei pra ele com a mesma raiva da terapia. Ótimo porra nenhuma. A gente tinha acabado de dizer que não queria o nosso filho em voz alta pra uma estranha com um caderninho e agora tinha que performar casal reconectado pra única pessoa que realmente segura a gente por um fio.
Eu tirei o casaco. — Minha mãe tinha compromisso na igreja hoje, Cléo. Por isso não chamei ela.
Cléo fechou o livro. Ela tem 61 anos e vai fazer 62 mês que vem. Foi casada 25 anos com a Paula, a mãe biológica do Clayton. Até a Paula resolver que depois de 25 anos amando uma mulher, ela ia amar um homem num tempo relâmpago. União estável relâmpago. A Cléo nunca fez drama disso. Pelo menos não na nossa frente.
— Entendi — ela disse. — A Margarida ficou com o dia do marketing. Eu fiquei com o dia da faxina. Justo.
Clayton riu. Uma risada curta, de alívio. Foi a primeira coisa sincera que saiu dele desde o "olho de Pires" no consultório. Eu não ri. Senti aquele ciúme velho, de quando eu tinha 8 e ele 4 e eu achava que ele era meu irmãozinho pra mandar, e ele achava que eu era o mundo inteiro. Eu tenho ciúme quando ele ri com a Cléo e não comigo. É mesquinho. Eu sei.
O Felipe se mexeu. Deu aquele chorinho de quem vai acordar.
Eu congelei. O Clayton congelou. A gente ficou olhando pro bebê como se ele fosse uma prova que a gente ia reprovar de novo.
A Cléo também congelou. De propósito. Foi a primeira vez que vi ela não salvar na hora.
Ela olhou pra gente por cima dos óculos.
—Eu sei que vocês acham que eu sou a mãe reserva. Que eu tô aqui porque a Margarida não pode ou não quer vir porque tem ciúme de mim desde que a gente era adolescente e ela achava que eu ia roubar a filha dela, como se filha fosse objeto.
Eu não sou reserva, Cleise. Eu fui casada 25 anos. Eu vi a Paula sair de casa com uma mala e voltar casada com um homem três meses depois.
Eu sei o que é ver o fio arrebentar. Eu segurei o Clayton quando a mãe dele escolheu outro roteiro. Eu seguro vocês agora. Mas eu tenho 61 anos. Eu não vou ficar aqui pra sempre segurando as pontas por um fio. Uma hora esse fio arrebenta e vocês dois vão ter que se segurar. Ou não. Mas decidam antes do Felipe aprender a andar. Porque depois ele vai embora também.
Ela falou isso baixinho. Sem aumentar a voz. Depois pegou o Felipe no colo. Ele parou de chorar na hora.
Eu tive inveja dela ali. Uma inveja limpa. Ela consegue amar um filho que não é do sangue dela sem fazer lista de supermercado do ressentimento. Eu, que pari, estava fazendo lista do que o Clayton fez de errado no jantar.
Clayton foi tirar o terno. No quarto, ele procurou a aliança. Eu tinha visto ele tirar na terapia e deixar no braço da poltrona da Dr. Marta. Ele não tinha colocado de volta.
Eu tinha pegado. Sem nem perceber. Estava no fundo da minha bolsa, junto com o cartão do convênio e um paninho sujo.
Eu não devolvi na mão dele. Coloquei na carteira dele, que estava na cômoda do antigo quarto da Carla, que virou
quarto-ateliê e era o único território onde ele ainda governava sozinho.
Ele ia achar depois.
Meu olhar percorreu o quarto-ateliê. Longe do cheiro de talco e dos choros que agora comandavam a casa, o espaço cheirava a óleo de linhaça, aguarrás e ressentimento.
Pelas paredes, as telas empilhadas pareciam erguer uma fortaleza contra o intruso do berço.
Ali, trancado, Clay descarregava na tela a frustração de se sentir um figurante na própria vida, transformando o ciúme em traços violentos de tinta, enquanto se escondia na penumbra para não ter que dividir os olhos comigo e com o nosso filho recém-nascido.
Quando saí do quarto, a Cléo já estava indo embora. Tinha lavado a louça. O arroz estava feito. Na geladeira, um bilhete post-it amarelo, com a letra dela, redonda da normalista que virou advogada de conciliação:
Arroz feito. Felipe mamou 20h. Dei banho. 120ml. Não precisa me agradecer. Me chama quando precisar, não quando a Margarida não puder.
Clayton, sua aliança está na carteira. Cleise, seu olho de Pires está cansado. Dorme.
— C.
A gente leu junto. Pela primeira vez, a gente leu a mesma coisa e entendeu a mesma coisa. Sem precisar discutir o que o outro quis dizer. Ponto para a Cléo.
De madrugada, o Felipe dormia e o Clayton também. Eu peguei o celular. Fui mandar mensagem pra minha mãe pra contar que a Cléo tinha vindo. Pra provocar. Pra dizer "viu, ela veio e você não". Digitei e apaguei.
— Cleise ?! Não vai me dizer nada?
Sorri.
— Acho que hoje a gente não precisou da terapeuta.
O bip do Nokia tocou duas vezes. Aquele ícone de envelope fechado.
1 mensagem recebida.
Reconheci o DDD na hora. 32. Minas. Não era minha mãe. Minha mãe é 21 e me recusa a salvar.
Esse número eu também me recusava a salvar. Era o fixo da casa da avó do Clayton. A mulher que assumiu o neto como filho temporão pra esconder o mau passo da filha perfeita.
Uma palavra só
Embaixo, menor ainda:
Visualizado.
Meu Deus, o que foi que eu escrevi de madrugada?😧
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