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sexta-feira, 28 de agosto de 2026

A Filha Perfeita


Cleise

A Cléo não chorou quando atendeu. Advogada de conciliação não chora no telefone fixo.

Foi a avó do Clayton. Dona Lizete. 78 anos. Voz de quem fumou a vida inteira escondido do marido.

— Cléo? É a Lizete. A Paula infartou. Foi ontem, na rodoviária de Juiz de Fora. Voltando pra cá pra resolver as coisas do pai dela. Foi fulminante, Cléo. Não deu nem tempo de chegar no hospital.

A Cléo ficou em silêncio. Depois disse "tá" e "tô indo" e desligou. 

Ela olhou pra gente. Eu e o Clayton ainda de pijama, com o Felipe no berço.

— A Paula morreu — ela disse. Do mesmo jeito que tinha dito "o arroz tá feito". 

O Clayton não entendeu na hora. Ou entendeu e fez que não entendeu.

— Que Paula?

— Sua mãe, Clayton.

Ele riu. Uma risada seca, sem ar.

— Qual delas?

A Cléo não respondeu. Foi pro quarto pegar a meia. Ela ia ter que ir pra Minas enterrar a mulher que ficou 25 anos com ela e depois trocou ela por um homem em união estável relâmpago.

Eu segurei a mão do Clayton. Ele não segurou de volta.

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