Seguidores

sexta-feira, 28 de agosto de 2026

O casamento que já é batizado



Epílogo - Mudança de Planos -

Cleise

O padre Waldir tinha batizado o Felipe dez minutos antes com três avós e nenhum avô na certidão. Ele olhou pra pia ainda molhada, pro Felipe fazendo bico no colo da Cléo, e disse:

— Já que vocês já estragaram todos os planos mesmo. Já que a menino já nasceu, já foi batizado, já fez xixi na avó. Vocês não querem casar logo de uma vez?

O meu padrasto, o Roberto, que me criou desde os 10, colocou a mão no ombro da Margarida.

— Deixa, Margarida. A festa é eles ficarem.

No altar, no lugar da mãe que morreu e do pai que não existe, estavam a Cléo segurando o Felipe e a Dona Lizete, a avó do Clayton que foi mãe dele no papel pra esconder o mau passo da filha perfeita. Senhor Paulo, não disse uma só palavra. Nem precisava, a presença dele já dizia tudo.

Duas senhoras que começaram iguais no Instituto de Educação, no curso Normal, junto com a minha mãe e com a Gisela, mãe da Carla. Naquela época toda mulher tinha que ser professora, mesmo sem vocação. Só a minha mãe seguiu. A Gisela virou dona de casa, a Paula virou dondoca gótica, a Cléo virou advogada. Quatro meninas iguais e quatro destinos diferentes. Igual a gente agora.

No segundo banco, a Carla chorava sozinha.

Sozinha. Sem o Mateus.

O Mateus, o engenheiro da Bahia que ela conheceu quando o pai militar foi transferido, com quem ela foi morar apaixonada, que os pais não aprovaram. O Mateus que veio a tiracolo pro Rio quando ela voltou pra apagar meu incêndio, porque eu estava depressiva. Eu via a minha depressão e ela não via quem era o Mateus. Ela, psicóloga formada, ficou noiva dele mesmo assim. Contraditória que só ela.

E agora ela estava sozinha na igreja. Sem aliança. Sem precisar explicar nada.

Eu vi. Ela viu que eu vi. Eu não comentei. Não perguntei onde estava o Mateus, nem por que ela tirou a aliança. Pela primeira vez eu não fiz a lista de supermercado do ressentimento da amiga.

Eu só estiquei a mão e apertei a mão dela por cima do banco.

Ela apertou de volta. Forte. Como se eu é que fosse a psicóloga naquele instante. Como se agradecesse por eu não ter perguntado.

O Clayton estava na minha frente, de calça jeans e com a aliança que eu tinha deixado na carteira. 

— Você quer casar comigo sem querer ou querendo? — eu perguntei.

— Querendo. Pela primeira vez querendo sem ser sem querer.

A gente beijou. O Felipe chorou alto.

Na saída, a Carla veio tirar a foto torta na escada, com o Felipe no colo da Cléo, com a Dona Lizete e o senhor Paulo, com a Margarida com o Roberto ao lado e com a Dra. Marta ao fundo.

Ela olhou pro meu celular, onde eu escrevia a legenda pro blog.

Ela olhou para o meu celular, acompanhando o bipe agudo que cada tecla fazia enquanto eu rascunhava a legenda do blog na tela azulada.

— Que Projeto Fraldas, Cleise? O nome do seu blog é Trollados.

Eu respondi por ela. Pela primeira vez sem raiva.

— Era Trollados, Carla. A gente trocou para Projeto Fraldas. O difícil não era trocar fralda. O difícil era trocar de plano. E a gente trocou.

A Carla sorriu. Um sorriso de quem também tinha trocado de plano naquela manhã, sozinha, sem precisar explicar para ninguém.

Ela deu as costas e caminhou até o degrau da igreja, onde os outros esperavam. Do meu bolso, tirei a Cyber-shot. A lente se estendeu com um zunido mecânico. Dei um passo à frente, passei o braço pelo pescoço da Carla e virei a câmera contra nós duas, esticando o braço ao máximo. Fiquei semicerrando os olhos, tentando adivinhar pelo reflexo do vidro da lente se o topo da cabeça do bebê não ia sair cortado.

— Olha para cá! — avisei, tateando o botão às cegas.

O bipe eletrônico disparou com o estalo do flash, congelando a Carla de jeans, esporte fino e nós três espremidos num enquadramento torto.

Horas depois, no computador de casa,  postei  a foto exatamente daquele jeito. Direto da máquina, sem nem tirar o olho vermelho do flash."

o silêncio depois do adeus


Capítulo — O silêncio depois do adeus
 
A igreja estava cheia de um frio que não vinha de fora. O corpo de Paula repousava ali, diante do altar, coberto parcialmente por um tecido escuro, as mãos cruzadas sobre o peito como se finalmente tivesse encontrado repouso após um caminho longo e sem descanso. 

A notícia chegara como um raio em céu limpo: infarto fulminante, sem aviso, sem tempo de palavras ou desculpas. A vida simplesmente se apagara nela, rápida e definitiva.
 
Nos bancos da frente, estavam os seus pais. A mãe, Lizete, com seus setenta e oito anos, parecia menor do que realmente era, curvada não só pela idade mas pelo peso da perda; os olhos estavam inchados, a cabeça baixa, segurando um lenço que já não podia secar mais lágrimas. 

Ao seu lado, o pai, Paulo, firme apenas na aparência, embora as mãos que apoiavam o chapéu tremessem sem controle. Ambos olhavam para o caixão como se esperassem que, a qualquer instante, Paula se levantasse e dissesse que tudo não passou de um susto. Mas ela permanecia imóvel.

Gisela viera da Bahia acompanhada pelo filho mais velho, Rodrigo, porque o marido Carlos não tinha saúde fazer a viagem até Minas Gerais. Carla se sentou no banco da igreja, ao lado da mãe e do irmão.

Fiquei ao lado de Clay todo o tempo, e contratamos uma baby- sitter para ficar com Felipe do lado de fora da igreja. Não era um momento para ter um bebê ali. Parecia até uma ironia do destino. 

Mesmo que Clay não demonstrasse sentir alguma dor naquele momento eu não faria isso com ele. No fundo sei que ele sentia amor pela mãe-irmã.
Mesmo que fosse  um amor escondido debaixo de camadas de ressentimento e mágoa.
 
Mais adiante, com um espaço que parecia enorme entre ela e os familiares, estava Cleo. 

Foram vinte e cinco anos de vida compartilhada — uma história que parecia feita para durar a eternidade — até que, de maneira rápida e impensada, tudo ruíra.

 Paula a trocou por um homem, numa união estável que pareceu um relâmpago: repentina, intensa e breve como um sonho ruim. 

Agora, ali, diante da morte, não havia mais orgulho ou raiva que valesse. Havia apenas o vazio de quem perdeu não só a pessoa amada, mas também a chance de reconquistá-la.
 
O silêncio foi quebrado apenas quando o padre deu início à missa de corpo presente. 

Sua voz ecoava suave entre as paredes da igreja, falando da passagem para a eternidade, da misericórdia divina e do descanso dos justos. Mas as palavras pareciam não chegar aos corações daqueles que mais sofriam. O clima era pesado, carregado de ressentimentos não ditos, perguntas sem respostas e uma dor que dobrava cada um para dentro de si mesmo.
 
Ao chegar o momento das homenagens, não foi o companheiro Gustavo, quem se levantou para falar. Foi ela, Cleo, a viúva de Paula, quem caminhou lentamente até o púlpito. Cada passo parecia custar-lhe um esforço imenso.

 Todos os olhos se voltaram para ela — uns com compaixão, outros com reservas, lembrando-se de como Paula havia partido sem olhar para trás. Cleo segurou a borda do púlpito com força, respirou fundo e começou a falar.
 
Sua voz tremia, mas firme na essência:
— Quem conheceu Paula, sabe que havia nela um brilho que não se encontra em mais ninguém... — disse, e a voz cortou. — É difícil aceitar que o mundo continuará girando sem a sua presença que fazia tudo parecer mais intenso. Falta muito, uma falta que não tem tamanho, não tem nome e não passa com o tempo. Ela era contraditória, mas era verdadeira... e agora, ao olhar para onde ela está, só consigo pensar em quanto ela fará falta. Em cada canto da nossa história, em cada dia que virá sem ela.
 
Embora as palavras fossem belas e carregadas de saudade, havia ali uma contradição dolorosa — todos sabiam que ela não estaria ali se não fosse pela morte. Paula tinha lhe virado as costas quando viva  e agora, Cléo falava da sua importância diante de um silêncio que não podia responder. Os pais ouviam calados, sem conseguir compartilhar daquela homenagem que chegava tarde demais. A igreja continuava solene, mas ao redor daquelas palavras pairava o peso de tudo o que não foi dito, tudo o que não foi consertado.
 
Ao terminar, Cleo desceu devagar, como se carregasse não só a sua dor, mas também a consciência de que o amor pode chegar ao púlpito, mas nunca consegue apagar os erros de quando ainda tínhamos tempo. O padre prosseguiu com as orações finais, enquanto a luz do dia começava a desvanecer-se nas janelas, e a figura de Paula permanecia ali — intacta, serena, acima de todos os erros e de todos os arrependimentos que a rodeavam.
 
 
 

A Pior performance de nossas vidas.

O cheiro de café requentado e flores de cemitério já impregnava as roupas de todo mundo na Capela 3.
 A missa de corpo presente aconteceria dali a uma hora, e o cansaço do velório de madrugada começava a pesar. Foi quando Cleo, com os olhos vermelhos e a maquiagem borrada, puxou da bolsa uma caixinha de som JBL portátil e um microfone sem fio com luzes de LED acopladas.
Os parentes mais distantes se entreolharam, escandalizados.
— Cleo, pelo amor de Deus, o que é isso? — sussurrou o viúvo, chocado.
— É o último show do Quarteto Ternurinha, Gustavo— Cleo respondeu, a voz embargada,  mas firme. Ela olhou para as outras duas integrantes vivas, Margarida e Gisela, que assentiram com a cabeça, soluçando.
 — A gente não vai deixar ela ir embora sem a nossa saideira.
Margarida conectou o celular na caixinha. O silêncio solene da capela foi quebrado pela clássica contagem eletrônica de introdução do aparelho: "Bluetooth mode. Connected."
Marta deu dois tapinhas no microfone, o eco reverberando nas paredes de azulejo claro. O som da bateria eletrônica e do teclado característicos das versões de karaokê de "Flor de Liz" começou a tocar.
As três se posicionaram ao lado do caixão, recriando a formação clássica do quarteto, deixando um espaço vazio no meio — o lugar que sempre fora da falecida.
Gisela começou, a voz trêmula, tentando acertar o tempo difícil da divisão do Djavan:
— Valei-me, Deus... É o fim do nosso amor... — Ela chorou no meio da frase, perdendo o fôlego.
Margarida assumiu o microfone com os olhos fixos na falecida:
— Perdoa, por favor, eu sei que o erro aconteceu... Mas não sei o que fez tudo mudar de vez. Onde foi que eu errei?
No refrão, as três se uniram, fazendo uma harmonia vocal ligeiramente desafinada pelo choro, mas cheia de uma energia dramática digna de uma final de festival de música.
 Elas cantavam olhando para o teto, gesticulando com as mãos livres, exatamente como faziam nas noites de sexta-feira no "Bar da Frente":
— E o meu jardim da vida ressecou, morreu! Do pé que brotou Maria, nem margarida nasceu!
Alguns parentes na plateia tentavam disfarçar o riso com os lenços de choro. 
Uma prima distante  gravava discretamente com o celular. Cleo, empolgada pelo ápice da música, estendeu o microfone em direção ao caixão no momento do "Beijo na boca...", esperando a resposta da ex-companheira que nunca veio. 
O vácuo do silêncio trouxe o drama de volta, e as três desabaram em um abraço coletivo em cima do caixão, chorando e rindo ao mesmo tempo, enquanto o instrumental de karaokê continuava tocando sozinho ao fundo, com os LEDs do microfone piscando em azul e rosa sobre as coroas de flores.

Ouça a última música de despedida  do Quarteto Ternurinha: 


 

A Filha Perfeita


Cleise

A Cléo não chorou quando atendeu. Advogada de conciliação não chora no telefone fixo.

Foi a avó do Clayton. Dona Lizete. 78 anos. Voz de quem fumou a vida inteira escondido do marido.

— Cléo? É a Lizete. A Paula infartou. Foi ontem, na rodoviária de Juiz de Fora. Voltando pra cá pra resolver as coisas do pai dela. Foi fulminante, Cléo. Não deu nem tempo de chegar no hospital.

A Cléo ficou em silêncio. Depois disse "tá" e "tô indo" e desligou. 

Ela olhou pra gente. Eu e o Clayton ainda de pijama, com o Felipe no berço.

— A Paula morreu — ela disse. Do mesmo jeito que tinha dito "o arroz tá feito". 

O Clayton não entendeu na hora. Ou entendeu e fez que não entendeu.

— Que Paula?

— Sua mãe, Clayton.

Ele riu. Uma risada seca, sem ar.

— Qual delas?

A Cléo não respondeu. Foi pro quarto pegar a meia. Ela ia ter que ir pra Minas enterrar a mulher que ficou 25 anos com ela e depois trocou ela por um homem em união estável relâmpago.

Eu segurei a mão do Clayton. Ele não segurou de volta.

Cléo

  

Cleise 

A verdada doía menos.

— Homem nenhum beija sem querer. Tropeça sem querer, beijar, não.


Minha mente voltou no tempo para  a fatídica noite em que fomos ao restaurante para aquele exercício idiota.

Quando voltamos para a casa naquela noite, a gente abriu a porta do apartamento e o apartamento não estava nos esperando. Ele estava sendo usado.

Tinha cheiro de alho, não de bolo. Tinha panela chiando baixo. E o Felipe não estava berrando no berço como eu deixei na minha cabeça quando saí. Ele estava dormindo. De boca aberta, babando em cima do peito da Cléo.

A Cléo estava no nosso sofá, de meia, lendo um livro da biblioteca. Como se morasse ali.

— Como foi a sessão? — ela disse sem levantar.

Clayton, ainda de terno do melhor restaurante, respondeu rápido demais.

— Foi ótimo, mãe.

Olhei pra ele com a mesma raiva da terapia. Ótimo porra nenhuma. A gente tinha acabado de dizer que não queria o nosso filho em voz alta pra uma estranha com um caderninho e agora tinha que performar casal reconectado pra única pessoa que realmente segura a gente por um fio.

Eu tirei o casaco. — Minha mãe tinha compromisso na igreja hoje, Cléo. Por isso não chamei ela.

Cléo fechou o livro. Ela tem 61 anos e vai fazer 62 mês que vem. Foi casada 25 anos com a Paula, a mãe biológica do Clayton. Até a Paula resolver que depois de 25 anos amando uma mulher, ela ia amar um homem num tempo relâmpago. União estável relâmpago. A Cléo nunca fez drama disso. Pelo menos não na nossa frente.

— Entendi — ela disse. — A Margarida ficou com o dia do marketing. Eu fiquei com o dia da faxina. Justo.

Clayton riu. Uma risada curta, de alívio. Foi a primeira coisa sincera que saiu dele desde o "olho de Pires" no consultório. Eu não ri. Senti aquele ciúme velho, de quando eu tinha 8 e ele 4 e eu achava que ele era meu irmãozinho pra mandar, e ele achava que eu era o mundo inteiro. Eu tenho ciúme quando ele ri com a Cléo e não comigo. É mesquinho. Eu sei.

O Felipe se mexeu. Deu aquele chorinho de quem vai acordar.

Eu congelei. O Clayton congelou. A gente ficou olhando pro bebê como se ele fosse uma prova que a gente ia reprovar de novo.

A Cléo também congelou. De propósito. Foi a primeira vez que vi ela não salvar na hora.

Ela olhou pra gente por cima dos óculos.
—Eu sei que vocês acham que eu sou a mãe reserva. Que eu tô aqui porque a Margarida não pode ou não quer vir porque tem ciúme de mim desde que a gente era adolescente e ela achava que eu ia roubar a filha dela, como se filha fosse objeto.

 Eu não sou reserva, Cleise. Eu fui casada 25 anos. Eu vi a Paula sair de casa com uma mala e voltar casada com um homem três meses depois. 

Eu sei o que é ver o fio arrebentar. Eu segurei o Clayton quando a mãe dele escolheu outro roteiro. Eu seguro vocês agora. Mas eu tenho 61 anos. Eu não vou ficar aqui pra sempre segurando as pontas por um fio. Uma hora esse fio arrebenta e vocês dois vão ter que se segurar. Ou não. Mas decidam antes do Felipe aprender a andar. Porque depois ele vai embora também.

Ela falou isso baixinho. Sem aumentar a voz. Depois pegou o Felipe no colo. Ele parou de chorar na hora.

Eu tive inveja dela ali. Uma inveja limpa. Ela consegue amar um filho que não é do sangue dela sem fazer lista de supermercado do ressentimento. Eu, que pari, estava fazendo lista do que o Clayton fez de errado no jantar.

Clayton foi tirar o terno. No quarto, ele procurou a aliança. Eu tinha visto ele tirar na terapia e deixar no braço da poltrona da Dr. Marta. Ele não tinha colocado de volta.

Eu tinha pegado. Sem nem perceber. Estava no fundo da minha bolsa, junto com o cartão do convênio e um paninho sujo.

Eu não devolvi na mão dele. Coloquei na carteira dele, que estava na cômoda do antigo quarto da Carla, que virou 
quarto-ateliê e era o único território onde ele ainda governava sozinho. 
Ele ia achar depois.

Meu olhar percorreu o quarto-ateliê. Longe do cheiro de talco e dos choros que agora comandavam a casa, o espaço cheirava a óleo de linhaça, aguarrás e ressentimento. 

Pelas paredes, as telas empilhadas pareciam erguer uma fortaleza contra o intruso do berço.

 Ali, trancado, Clay descarregava na tela a frustração de se sentir um figurante na própria vida, transformando o ciúme em traços violentos de tinta, enquanto se escondia na penumbra para não ter que dividir os olhos comigo e com o nosso filho recém-nascido.
  

Quando saí do quarto, a Cléo já estava indo embora. Tinha lavado a louça. O arroz estava feito. Na geladeira, um bilhete post-it amarelo, com a letra dela, redonda da normalista que virou advogada de conciliação:

Arroz feito. Felipe mamou 20h. Dei banho. 120ml. Não precisa me agradecer. Me chama quando precisar, não quando a Margarida não puder.

Clayton, sua aliança está na carteira. Cleise, seu olho de Pires está cansado. Dorme.

— C.

A gente leu junto. Pela primeira vez, a gente leu a mesma coisa e entendeu a mesma coisa. Sem precisar discutir o que o outro quis dizer. Ponto para a Cléo.

De madrugada, o Felipe dormia e o Clayton também. Eu peguei o celular. Fui mandar mensagem pra minha mãe pra contar que a Cléo tinha vindo. Pra provocar. Pra dizer "viu, ela veio e você não". Digitei e apaguei.

 — Cleise ?! Não vai me dizer nada?
Sorri.

— Acho que hoje a gente não precisou da terapeuta.

O bip do Nokia tocou duas vezes. Aquele ícone de envelope fechado.
1 mensagem recebida.
Reconheci o DDD na hora. 32. Minas. Não era minha mãe. Minha mãe é 21 e me recusa a salvar.

Esse número eu também me recusava a salvar. Era o fixo da casa da avó do Clayton. A mulher que assumiu o neto como filho temporão pra esconder o mau passo da filha perfeita.

Uma palavra só
Embaixo, menor ainda:
Visualizado.
Meu Deus, o que foi que eu escrevi de madrugada?😧