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sexta-feira, 28 de agosto de 2026

A Pior performance de nossas vidas.

O cheiro de café requentado e flores de cemitério já impregnava as roupas de todo mundo na Capela 3.
 A missa de corpo presente aconteceria dali a uma hora, e o cansaço do velório de madrugada começava a pesar. Foi quando Cleo, com os olhos vermelhos e a maquiagem borrada, puxou da bolsa uma caixinha de som JBL portátil e um microfone sem fio com luzes de LED acopladas.
Os parentes mais distantes se entreolharam, escandalizados.
— Cleo, pelo amor de Deus, o que é isso? — sussurrou o viúvo, chocado.
— É o último show do Quarteto Ternurinha, Gustavo— Cleo respondeu, a voz embargada,  mas firme. Ela olhou para as outras duas integrantes vivas, Margarida e Gisela, que assentiram com a cabeça, soluçando.
 — A gente não vai deixar ela ir embora sem a nossa saideira.
Margarida conectou o celular na caixinha. O silêncio solene da capela foi quebrado pela clássica contagem eletrônica de introdução do aparelho: "Bluetooth mode. Connected."
Marta deu dois tapinhas no microfone, o eco reverberando nas paredes de azulejo claro. O som da bateria eletrônica e do teclado característicos das versões de karaokê de "Flor de Liz" começou a tocar.
As três se posicionaram ao lado do caixão, recriando a formação clássica do quarteto, deixando um espaço vazio no meio — o lugar que sempre fora da falecida.
Gisela começou, a voz trêmula, tentando acertar o tempo difícil da divisão do Djavan:
— Valei-me, Deus... É o fim do nosso amor... — Ela chorou no meio da frase, perdendo o fôlego.
Margarida assumiu o microfone com os olhos fixos na falecida:
— Perdoa, por favor, eu sei que o erro aconteceu... Mas não sei o que fez tudo mudar de vez. Onde foi que eu errei?
No refrão, as três se uniram, fazendo uma harmonia vocal ligeiramente desafinada pelo choro, mas cheia de uma energia dramática digna de uma final de festival de música.
 Elas cantavam olhando para o teto, gesticulando com as mãos livres, exatamente como faziam nas noites de sexta-feira no "Bar da Frente":
— E o meu jardim da vida ressecou, morreu! Do pé que brotou Maria, nem margarida nasceu!
Alguns parentes na plateia tentavam disfarçar o riso com os lenços de choro. 
Uma prima distante  gravava discretamente com o celular. Cleo, empolgada pelo ápice da música, estendeu o microfone em direção ao caixão no momento do "Beijo na boca...", esperando a resposta da ex-companheira que nunca veio. 
O vácuo do silêncio trouxe o drama de volta, e as três desabaram em um abraço coletivo em cima do caixão, chorando e rindo ao mesmo tempo, enquanto o instrumental de karaokê continuava tocando sozinho ao fundo, com os LEDs do microfone piscando em azul e rosa sobre as coroas de flores.

Ouça a última música de despedida  do Quarteto Ternurinha: 


 

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