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sexta-feira, 28 de agosto de 2026

o silêncio depois do adeus


Capítulo — O silêncio depois do adeus
 
A igreja estava cheia de um frio que não vinha de fora. O corpo de Paula repousava ali, diante do altar, coberto parcialmente por um tecido escuro, as mãos cruzadas sobre o peito como se finalmente tivesse encontrado repouso após um caminho longo e sem descanso. 

A notícia chegara como um raio em céu limpo: infarto fulminante, sem aviso, sem tempo de palavras ou desculpas. A vida simplesmente se apagara nela, rápida e definitiva.
 
Nos bancos da frente, estavam os seus pais. A mãe, Lizete, com seus setenta e oito anos, parecia menor do que realmente era, curvada não só pela idade mas pelo peso da perda; os olhos estavam inchados, a cabeça baixa, segurando um lenço que já não podia secar mais lágrimas. 

Ao seu lado, o pai, Paulo, firme apenas na aparência, embora as mãos que apoiavam o chapéu tremessem sem controle. Ambos olhavam para o caixão como se esperassem que, a qualquer instante, Paula se levantasse e dissesse que tudo não passou de um susto. Mas ela permanecia imóvel.

Gisela viera da Bahia acompanhada pelo filho mais velho, Rodrigo, porque o marido Carlos não tinha saúde fazer a viagem até Minas Gerais. Carla se sentou no banco da igreja, ao lado da mãe e do irmão.

Fiquei ao lado de Clay todo o tempo, e contratamos uma baby- sitter para ficar com Felipe do lado de fora da igreja. Não era um momento para ter um bebê ali. Parecia até uma ironia do destino. 

Mesmo que Clay não demonstrasse sentir alguma dor naquele momento eu não faria isso com ele. No fundo sei que ele sentia amor pela mãe-irmã.
Mesmo que fosse  um amor escondido debaixo de camadas de ressentimento e mágoa.
 
Mais adiante, com um espaço que parecia enorme entre ela e os familiares, estava Cleo. 

Foram vinte e cinco anos de vida compartilhada — uma história que parecia feita para durar a eternidade — até que, de maneira rápida e impensada, tudo ruíra.

 Paula a trocou por um homem, numa união estável que pareceu um relâmpago: repentina, intensa e breve como um sonho ruim. 

Agora, ali, diante da morte, não havia mais orgulho ou raiva que valesse. Havia apenas o vazio de quem perdeu não só a pessoa amada, mas também a chance de reconquistá-la.
 
O silêncio foi quebrado apenas quando o padre deu início à missa de corpo presente. 

Sua voz ecoava suave entre as paredes da igreja, falando da passagem para a eternidade, da misericórdia divina e do descanso dos justos. Mas as palavras pareciam não chegar aos corações daqueles que mais sofriam. O clima era pesado, carregado de ressentimentos não ditos, perguntas sem respostas e uma dor que dobrava cada um para dentro de si mesmo.
 
Ao chegar o momento das homenagens, não foi o companheiro Gustavo, quem se levantou para falar. Foi ela, Cleo, a viúva de Paula, quem caminhou lentamente até o púlpito. Cada passo parecia custar-lhe um esforço imenso.

 Todos os olhos se voltaram para ela — uns com compaixão, outros com reservas, lembrando-se de como Paula havia partido sem olhar para trás. Cleo segurou a borda do púlpito com força, respirou fundo e começou a falar.
 
Sua voz tremia, mas firme na essência:
— Quem conheceu Paula, sabe que havia nela um brilho que não se encontra em mais ninguém... — disse, e a voz cortou. — É difícil aceitar que o mundo continuará girando sem a sua presença que fazia tudo parecer mais intenso. Falta muito, uma falta que não tem tamanho, não tem nome e não passa com o tempo. Ela era contraditória, mas era verdadeira... e agora, ao olhar para onde ela está, só consigo pensar em quanto ela fará falta. Em cada canto da nossa história, em cada dia que virá sem ela.
 
Embora as palavras fossem belas e carregadas de saudade, havia ali uma contradição dolorosa — todos sabiam que ela não estaria ali se não fosse pela morte. Paula tinha lhe virado as costas quando viva  e agora, Cléo falava da sua importância diante de um silêncio que não podia responder. Os pais ouviam calados, sem conseguir compartilhar daquela homenagem que chegava tarde demais. A igreja continuava solene, mas ao redor daquelas palavras pairava o peso de tudo o que não foi dito, tudo o que não foi consertado.
 
Ao terminar, Cleo desceu devagar, como se carregasse não só a sua dor, mas também a consciência de que o amor pode chegar ao púlpito, mas nunca consegue apagar os erros de quando ainda tínhamos tempo. O padre prosseguiu com as orações finais, enquanto a luz do dia começava a desvanecer-se nas janelas, e a figura de Paula permanecia ali — intacta, serena, acima de todos os erros e de todos os arrependimentos que a rodeavam.
 
 
 

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