Carla
Como abordar o assunto sem acionar a criança ferida da Cleise?
Tantos anos de estudo pra isso. Teoria é lindo no slide. Na prática é uma merda.
Escolhi o jeito menos pior. Como diz o ditado: mingau quente se come pela beirada.
— Como foi no restaurante?
Cleise me olhou, enigmática. E me respondeu com uma palavra. Uma. Que merda.
— É.
O que significa "é"? "É" não é resposta, é atestado de óbito da conversa.
Na minha frente, a criança ferida da Cleise estava à beira das lágrimas.
Tentei outra beirada do mingau, bem mais segura:
— Aproveitou pra falar do batizado? Quando é a próxima reunião lá na igreja?
Ela arregalou os olhos.
— Caramba. Esqueci disso!
— Relaxa, amiga. Não é o fim do mundo esquecer. Seu corpo tá cheio de hormônio, sua mente tá... zoada.
Quase diagnostiquei. Me segurei. Cleise é minha amiga, não minha paciente. Graças a Deus. Esse pepino não é meu, é da psicóloga dela.
Ela respirou fundo e voltou ao que realmente importava. Claro. Ninguém liga pra batizado quando o casamento tá pegando fogo.
— A consulta foi estranha.
Felipe fez um barulhinho e Cleise, solícita, pegou ele no colo. Sentou na cadeira de balanço. Ele começou a mamar e ela fechou os olhos. Não era cena idílica de comercial de fralda. Era pra não ter que me olhar. Se me olhasse, ia se trair. E ela tranca as coisas com dois cadeados: um na mente e outro no coração.
E batizado? Fé? Isso passa longe da cabeça dela agora. Ela só quer uma janela. Uma saída qualquer. E quando encontra, se joga.
Deixei desabafar.
— O Clayton tirou um momento nosso da cartola, tipo um coelho. Acredita que ele lembrava daquela história que minha mãe contava? Aquela do cachorro com olho de pires?
Esperou minha reação. Eu não fazia ideia do que ela tava falando.
— Conhece?
— Não. — sentei na beirada da cama, genuinamente curiosa. — Conta!
E lá veio ela. A Cleise de olhos brilhantes. A jornalista encantada com uma boa história. Ela não perde a chance de brilhar.
— Faz muito tempo que ouvi, não lembro completa. Mas o principal eu lembro. É a história do cão com olhos grandes como pires, do conto 'A Caixa de Fósforos', do Hans Christian Andersen. Um soldado encontra uma bruxa que pede pra buscar uma caixa de fósforos mágica no fundo de uma árvore oca. Lá dentro tem três cães extraordinários guardando baús de moedas. O primeiro com olhos do tamanho de pires. O segundo com olhos como rodas de moinho. O terceiro com olhos enormes como a Torre Redonda de Copenhague. Quando bate a caixa, os cães aparecem e realizam qualquer desejo.
— Tá, mas onde o Clayton entra com esse olho de pires?
Ela sorriu.
— Eu era criança. Sei lá o que eu pensava na época. Mas achei que os olhos dele eram iguais aos do primeiro cachorro.
Deu de ombros, colocou a fraldinha no ombro e pôs o Felipe pra arrotar. Ele deu uma golfadinha. Normal. Ela o colocou no berço. E lá ficou o Felipe, com exatos olhos de pires, agitando braços e pernas gordinhas.
— Mas continuo achando. Ele tem olhos de pires. Grandes, bonitos, amendoados. Como os do Felipe.
— Amiga. Vocês estão se esforçando na terapia. Ao menos é o que parece.
— A gente tá tentando. Não sei. Acho que a gente pode ficar junto. Ou não. Não sei, Carla. Uma hora ele é gentil. Outra parece um cavalo. Nem dá pra acreditar que é artista. Aí ele mostra aqueles quadros... e me beijou daquele jeito. Mas disse que foi sem querer. Fez questão de dizer.
— É... ainda tem muita coisa pra vocês resolverem, né?
— E ainda tem esse batizado. E o restaurante uma vez por semana. Queria poder desistir disso. Mas não quero desistir de nada. Pelo menos, não por enquanto. Tô tão confusa!
Ela disse isso e, em cinco segundos, o rosto dela foi da alegria súbita pra tristeza profunda. Complicado.
E eu que sugeri a terapia de casal, comecei a me perguntar se a terapeuta deles não deveria me incluir no pacote. Familiar, de preferência.
Olhei pra minha própria xícara de chá frio.
Três sessões de terapia e eles estavam assim. Imagina quando chegasse na décima.
Fiquei ali, vendo minha melhor amiga ninar o filho com olhos de pires iguais aos do pai.
Ela não precisava de uma festa de batizado. Precisava que alguém dissesse que ela não estava estragando tudo.
— Você não tá confusa, Cleise. Você tá com medo. Que é diferente.
Ela finalmente me olhou. E dessa vez, sem cadeado nenhum.
— Tá, — eu disse. — Me conta o depois desse beijo sem querer. Com detalhes. Porque se tem uma coisa que eu aprendi em tantos anos de estudo, é que homem nenhum beija sem querer. Tropeça sem querer, sim. Beija, não.
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