Seguidores

domingo, 12 de abril de 2026

capítulo 17 - Presente na Porta , Faca na Pia , Husky no Meio

Capítulo 17 - 
Presente na Porta, Faca na Pia, Husky no Meio


Cleise

Nove da manhã em ponto. Batida na porta. Três toques. Secos. Ensaiados.

Antes de eu abrir, Akira Kurosawa já estava postado na sala. Sentado. Coluna ereta. Orelhas em pé. Rabo fazendo varredura no chão como detector de mentira.

Husky siberiano não late à toa. Ele julga. E ele já tinha julgado que hoje era dia de audiência.

Abri a porta com Felipe no colo. Paula na soleira, sacola cara na mão, gótica chic das nove às nove.

— Bom dia. Trouxe um presente pro Felipe.

Akira levantou. Só isso. Não rosnou. Não abanou o rabo. Levantou, olhou pra Paula por dois segundos e virou de costas. Voltou a sentar entre eu e o berço, de frente pra ela, de costas pra ela.

Recado dado. Husky não manda indireta. Manda direta sem legenda.

Paula piscou. A única rachadura na armadura desde que chegou.

— Oi, Akira... — tentou, voz de quem chama Uber.

Akira bocejou. Teatro puro. Depois deitou a cabeça no meu joelho. Meu. Não dela.

Contexto pra quem chegou agora: Akira foi o jeito que Paula encontrou de “comprar o amor do filho” anos atrás. Deu o husky pro Clayton quando ele ainda morava com a Cléo. Deu errado. Clayton não ficou. O cachorro sim. Hoje Akira mora com a Cléo, mas como advogada virou babá em tempo integral da mãe de primeira viagem, o cachorro se mudou pro meu apartamento. Temporário. Igual à paz.

Cléo apareceu na sala vindo da cozinha. De tailleur, pronta pra audiência das 11h. Viu Paula. Viu Akira de costas pra Paula. E eu juro que vi o canto da boca dela subir 2 milímetros. Vitória pequena, tribunal interno.

— Gente, senta — falei — A Carla já tá vindo com o Mateus. A gente precisa falar do batizado.

Paula ergueu a sobrancelha desenhada no CREA.

— Batizado?

Cléo cruzou os braços. 

— Católico. Apostólico. Romano. — Bateu o martelo sem madeira — A família do Clayton faz questão. Eu e Cleise também.

Akira rosnou baixinho. Não pra Cléo. Pro nome “Clayton” na boca da Paula, que ela ainda ia dizer. Husky tem memória e faro pra intenção.

Paula colocou a sacola na mesa. Tirou uma mantinha de cashmere branca.

— Trouxe pra ele usar na cerimônia. Caso eu seja convidada, claro.

Akira levantou de novo. Cheirou a mantinha de longe. Espirrou. Deitou. Veto canino registrado em ata.

Campainha. Carla e Mateus. Bolo de cenoura na mão, aliança no bolso. 

Akira foi até a porta antes de mim. Cheirou a canela da Carla, abanou o rabo. Uma vez. Cheirou o Mateus. Parou. Encarou. Mateus deu um passo pra trás. Akira sentou. Liberação concedida, mas em condicional. Cachorro é melhor que detector de traição.

— A gente trouxe o bolo pra comemorar os padrinhos — Mateus tentou.

Paula virou pra Carla com sorriso nota de três:

— Que lindo, Carla. Você perdoando traição. Tão... católico da sua parte.

Akira rosnou. Alto. Seco. Pra Paula. Pela primeira vez em 10 minutos ele reconheceu a existência dela. Pra discordar.

Cléo segurou o riso com a mão. Perdeu. Deu pra ouvir.

Carla respirou fundo, modo psicóloga:

— Paula, eu e Mateus estamos reconstruindo. — Olhou pra Akira — E pelo visto vamos ter que reconstruir com o júri também.

Clayton apareceu do ateliê. Camiseta manchada, violão na mão. Akira saiu de perto de mim na hora. Foi postar-se entre o Clayton e o Felipe. Entre o Clayton e eu. Formação de segurança. Porque husky protege a matilha, não o dono.

— Bom dia... — Clayton avaliou a sala — Já começaram sem mim?

Paula mirou nele:

— Clayton. Meu filho. Me diz: sua mãe biológica não tem direito de assistir o batizado do neto?

Akira deitou no pé do berço. Corpo inteiro bloqueando o acesso. Resposta não verbal número três.

Cléo entrou:

— Direito tem. Convite é outra coisa. — Virou pra mim — Cleise, como mãe, a decisão final é sua. Jornalista ou mãe, quem fala agora?

Felipe resolveu vomitar no meu ombro. Akira levantou na hora, cheirou o ar, lambeu minha mão. Checagem de bem-estar. Depois voltou pro posto no berço. 

Limpei com a fraldinha. A que a Paula dobrou em triângulo. Akira bufou. Até ele achava aquela fraldinha suspeita.

— O batizado vai ser na Igreja da Matriz. Sábado que vem. Às dez. — Falei — A Carla e o Mateus são os padrinhos. A família toda tá convidada.

Pausa.

— E eu quero uma foto no altar. Com as duas avós. Uma de cada lado do Felipe. Sorrindo. Pelo menos na foto.

Akira bocejou de novo. Tédio ou deboche, nunca sei.

Paula me olhou. Cléo me olhou. Não se olharam. Akira olhou pra Felipe. Só pra Felipe.

Clayton começou a dedilhar Evidências. Akira uivou junto no refrão. Afinado. Julgamento estético também é com ele.

Carla cortou o bolo. Mateus colocou a aliança. Tremendo. Akira farejou a mão dele depois. Assentiu com a cabeça. Contrato de condicional assinado.

E eu sentei na cadeira de balanço com Felipe. Akira deitado no meu pé, olhos na porta, olhos na Paula, olhos em todo mundo.

Guerra declarada. Café fresquinho. Bolo de cenoura. Husky na tribuna.

Que o santo seja forte. Porque o Akira já é.

capítulo 16- café fresquinho, guerra declarada

Capítulo 16 - 

Café Fresquinho, Guerra Declarada

Cléo

A porta do quarto fechou com um clique tão baixo que só quem estava esperando por ele escutaria. Eu estava.

Encostei as costas na madeira e deixei o ar sair de uma vez só, como se eu tivesse prendido desde que Paula pisou no corredor com aquele perfume de 25 anos atrás. Um perfume que não envelhece. Diferente da gente.

Felipe dormia no berço, alheio ao fato de que tinha acabado de ser colo de campo de batalha. Anjinho.

Olhei pro violão encostado no canto do ateliê. Quer dizer, do quarto do Clayton. Quarto. Ele ainda erra. Eu não.

Peguei a fraldinha de pano que Paula dobrou. Dobrada igualzinho minha mãe fazia. As pontas em triângulo perfeito, não aquele rolinho preguiçoso que a Cleise faz. 

“Você não volta mais aqui, Paula. Nem que eu tenha que cantar Evidências em dó maior até ficar rouca.”

Falei sozinha. Alto suficiente pro espelho ouvir. Baixo suficiente pra santa da cozinha não escutar.

Cozinha, 3 minutos depois

O cheiro da tapioca da Carla brigava com o cheiro do café novo. A Carla sempre ganha. Baiana não perde briga de cheiro.

Paula já estava na minha cadeira. A de frente pra janela. A que bate sol às cinco. A minha.

— Cléo! — Cleise me viu primeiro e apontou o bule — Veio bem na hora. Carla fez café.

— Eu fiz tapioca também — Carla completou, já empurrando um prato na minha direção — De carne seca com requeijão. Da que o Clayton gosta.

Clayton mastigava e não olhava pra ninguém específico. Talento dele. Desde sempre.

Paula pegou a garrafa térmica como se fosse dona dela. Serviu meu copo primeiro. Dois dedos. Sem açúcar. Do jeito que eu bebo.

Minha vontade era jogar o café na parede. Minha boca fez outra coisa:

— Obrigada, Paula. Você lembra de tudo, né?

Ela sustentou o olhar. Sorriu aquele sorriso de nota de três reais que a Cleise descreveu tão bem. Acho que é contagioso.

— Algumas coisas a gente não esquece, Cléo. Igual andar de bicicleta. Ou dobrar fraldinha.

Cleise olhou de mim pra ela. O radar dela funcionou. Tardiamente, mas funcionou.

— Gente, o café tá ótimo — ela tentou — A gente devia repetir esses lanches. Né, Clay?

Clayton engoliu. Limpou a boca com o guardanapo de pano. Outro detalhe meu na casa.

— Devia — ele disse. — A música ontem fez bem pra todo mundo.

Pausa. Aquela pausa que pesa mais que mobília de madeira maciça.

Aí Paula fez o movimento dela. Xeque.

Colocou a xícara no pires sem fazer barulho nenhum. Coisa de gente treinada. Inclinou o corpo só um pouco na direção da Cleise, tirando eu e Carla da conversa com o ombro.

— Posso visitar o Felipe de novo amanhã, Cleise? — perguntou. Voz de mel. — Ele é tão calminho no meu colo. Parece que a gente se conhece de outras vidas.

Eu vi a Cleise vacilar. Um segundo. O segundo que separa a paz da guerra.

Porque eu conheço esse tom. Foi o mesmo que ela usou há 25 anos quando disse: “Cléo, posso dançar essa com o Clayton? Só essa.”

E foi só essa. Até não ser.

Carla, abençoada seja, quebrou o silêncio enfiando outra tapioca goela abaixo do Clayton.

— Come, meu rei. Tu tá magro.

Eu peguei meu café. Dois dedos. Sem açúcar. Gelado já. E dei o meu sorriso protocolar. Aquele que usei no capítulo passado e que agora passo pra Cleise como bastão.

— Claro que pode, Paula — eu respondi por ela — Essa casa é grande. Cabe todo mundo.

Menti. A casa tá pequena. Pequena demais pra três mulheres e um violão desafinado.

Cleise me olhou com gratidão. Coitada. Achou que eu estava sendo amiga.

Clayton olhou pro violão que tinha deixado no corredor. Depois olhou pra mim. Depois olhou pro chão. O de sempre.

E a Paula? A Paula bebeu o café devagar. Como quem tem tempo. Como quem sabe que guerra boa é guerra fria, servida em xícara de porcelana.

Fim do café.  
Começo da guerra.